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Eliana Bandeira, fotografada no jardim da sua casa, junto ao estádio do Jamor, julho 2024. Foto Clara Raimundo

Eliana Bandeira, lançadora de peso, ao 7M

“Ir aos Jogos Olímpicos não é sobre mim ou sobre uma medalha, é sobre aquilo que Deus quer”

| 24/07/2024

Eliana Bandeira, fotografada no jardim da sua casa, junto ao estádio do Jamor, julho 2024. Foto Clara Raimundo

Eliana Bandeira nasceu no Brasil, mas vive e treina em Portugal há dez anos. Faz parte do grupo de 73 atletas que irá representar as Quinas nos Jogos Olímpicos de Paris. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

Eliana Bandeira sempre foi uma sonhadora. Sentada no jardim da casa onde vive e nos recebe, junto ao estádio do Jamor, olha para o céu azul e lembra-se de fazer isso constantemente quando era miúda, enquanto brincava junto à casa onde vivia com os pais e a irmã mais nova, numa pequena aldeia no interior do Ceará (Brasil). Procurava os aviões e pensava: “Para onde irão? Como será viajar neles?”. Sonhava que um dia também ela ganharia asas e sairia dali. E saiu. Com apenas doze anos, ainda uma criança. O que Eliana não sonhava era que viria a cruzar o Atlântico num desses aviões, mudar-se para Portugal, tornar-se atleta de alta competição e atingir a 10ª posição a nível mundial no lançamento do peso. Hoje com 28 anos, e nas vésperas de embarcar rumo a Paris para a sua primeira participação nos Jogos Olímpicos, não tem dúvidas de que foi Deus que sonhou o que ela então não sabia imaginar. E é com emoção que conta ao 7MARGENS a sua história improvável, feita de coragem, sofrimento, resiliência e esperança. E de fé, muita fé. Uma história que, aconteça o que acontecer, sabe que terá um final feliz.

 

7MARGENS – Costumas dizer que não foste tu que escolheste o atletismo, mas foi o atletismo que te escolheu a ti… Na tua infância e juventude, nada fazia prever que hoje estarias aqui, prestes a representar Portugal nos Jogos Olímpicos…

Eliana Bandeira – Absolutamente nada! Nasci no Brasil, numa aldeia do interior do estado do Ceará, onde vivi com os meus pais e a minha irmã mais nova até aos 12 anos. Cresci numa família humilde, o meu pai era e ainda hoje é pescador, e a minha mãe sempre foi dona de casa. Nunca me faltou nada e tive uma infância feliz, mas vivíamos com muito pouco, em termos materiais… E nunca pratiquei nenhum tipo de desporto, além das aulas de educação física que tínhamos na escola, nem ninguém na minha família foi atleta ou dava importância ao desporto… Ainda hoje, acho que não compreendem muito bem aquilo que eu faço… [Risos] Embora me apoiem muito!

 

7M – E é por isso que também costumas dizer que o facto de seres hoje uma atleta  de alta competição só pode ter a mão de Deus?

Isso mesmo… As coisas foram acontecendo na minha vida de uma forma improvável e às vezes com muito sofrimento, e sem eu saber bem porquê, mas à medida que iam acontecendo tudo se encaixava e parecia que fazia parte de um plano que não tinha sido eu a traçar.

 

7M – Podes dar exemplos concretos?

Sim, a começar pelo facto de eu ter decidido sair de casa dos meus pais com apenas 12 anos… Não era muito normal para uma criança daquela idade, e eu própria não sabia explicar porquê, mas sentia que tinha de sair da aldeia e ir para a capital. Queria conquistar algo que nem eu sabia bem o que era. E um dia, pouco tempo antes de completar os 12 anos, a minha avó paterna foi visitar-nos e disse que a minha tia – irmã do meu pai que vivia na capital do estado, Fortaleza – precisava de alguém para viver com ela durante um tempo e dar-lhe uma ajuda na empresa que ela tinha. Eu pensei logo que essa pessoa tinha de ser eu! Nunca tinha pedido aos meus pais para ir à cidade nem nada, mas naquele momento senti que tinha de ir, que essa seria a minha oportunidade e a resposta para aquele desejo que eu sentia e não sabia explicar. Claro que os meus pais não queriam que eu fosse… Foi muito difícil sobretudo para a minha mãe, mas lá fui, precisamente no dia em que completei 12 anos.

Eliana (a primeira a contar da esquerda), aos xx anos. Foto: Direitos reservados

Eliana (a primeira a contar da esquerda) com a irmã mais nova e os primos. Apesar de considerar que teve uma infância feliz, algo lhe dizia que precisava de sair da aldeia onde cresceu. Foto: Direitos reservados

7M – Também não deve ter sido assim tão fácil para ti…

Pois não, não foi… Durante um mês, chorava todos as noites, às escondidas da minha tia, com saudades de casa. E rezava muito e perguntava a Deus: “Porque é que eu sinto isto? O que é que eu vim fazer aqui?”. E havia algo que me dizia, no meu íntimo: “Aguenta… Aguenta mais um pouco!”.

 

7M – A relação próxima com Deus já vem desde essa altura?

Vem desde antes, até! Muito por influência da minha mãe, que todos os dias, antes de dormir, rezava comigo e com a minha irmã, e nos ensinou a agradecer sempre por mais um dia, e a pedir proteção a Deus, para nós e para a nossa família. Ela vinha de uma família evangélica e, apesar de não costumar ir à igreja, transmitiu-nos os valores cristãos e ensinou-nos que tudo coopera para aqueles que acreditam em Deus e que, mesmo quando as coisas não correm bem, devemos confiar n’Ele. E eu nunca questionei isso, pelo contrário: a vida foi-me mostrando que isso era mesmo verdade… Outra pessoa que também me falava muito de Deus era a minha avó paterna, que era católica. E depois, quando fui viver com a minha tia, que também era católica, ela incentivou-me a ir para a catequese. Fui e gostei muito… Batizei-me, fiz a primeira comunhão. E continuava a rezar todos os dias… Lembro-me de que até havia pessoas amigas e conhecidas que me vinham pedir para rezar por elas, porque diziam que eu tinha uma relação mais próxima com Deus.

 

7M – Foi essa proximidade de Deus que te ajudou a superar a distância de casa?

Sim! Eu falava constantemente com Deus. E também ligava todos os dias aos meus pais e pedia-lhes a benção. Ainda hoje faço isso. Mas outra coisa que me motivava muito era o facto de saber que ficar em Fortaleza era a minha oportunidade de continuar a estudar. Eu era muito estudiosa, e sabia que se continuasse na aldeia não conseguiria ter acesso à universidade. Ainda não sabia bem que curso queria tirar, mas sabia que queria ir para a universidade… esse era um sonho que eu tinha.

 

7M – O sonho de ser atleta de alta competição ainda não existia…

Não, mas já não faltava muito para nascer! Ao fim de algum tempo de estar a viver com a minha tia, as coisas começaram a não correr muito bem na nossa relação. Ela tinha uma filha um ano mais nova que eu e acho que havia ali alguns ciúmes em relação a mim, e o ambiente começou a ser mais complicado… Mas eu sentia uma dívida de gratidão muito grande para com a minha tia e não reclamava nem contava aos meus pais.

Uma coisa que me ajudou a superar essa fase foi o facto de ter começado a praticar atividade física. Muitas vezes, de manhã bem cedo, ia correr, e já à noite, quando todos estavam a dormir, fazia alguns exercícios em casa. Também coincidiu com a altura da adolescência e acho que tinha mais a preocupação com a aparência, queria sentir-me bem com o meu corpo… Além disso, comecei a praticar andebol na escola, a convite de um professor de educação física, e rapidamente me integraram na equipa principal, e comecei a ir a competições.

Foi nessa altura que descobri o prazer e a alegria que o desporto podia proporcionar. Entretanto, tinha começado a trabalhar num supermercado para ajudar a minha tia com as despesas em casa, pois ela estava a atravessar uma fase difícil financeiramente, mas a nossa relação só piorava cada vez mais e, embora contra a vontade dela, decidi sair de casa. Não aguentava mais! A dona desse supermercado, que se chamava Doroteia, tinha-se tornado uma grande amiga e pedi-lhe para ficar em casa dela… Ela identificava-se com a minha história, porque também tinha saído de casa dos pais muito cedo, e acolheu-me.

 

7M – E os teus pais, como reagiram a mais esta mudança?

Com preocupação, claro, mas ao mesmo tempo confiaram em mim e na minha decisão… Eu tinha 15 anos, mas a minha maturidade era superior à minha idade. E continuava a ter muito boas notas, tanto que nessa altura entrei para o quadro de mérito da escola. E precisamente por causa de estar no quadro de mérito tive como prémio, juntamente com os outros melhores alunos, ir visitar o estádio do Castelão, que é um dos maiores estádios do Brasil, equivalente ao estádio da Luz aqui em Portugal. Foi aí que tudo mudou… No dia da visita, estava lá um atleta paraolímpico que, quando me viu, veio ter comigo, perguntou que idade é que eu tinha e pediu para falar com a minha professora. Eu estava com 15 anos e tinha já 1,75 m!

Estádio Arena Castelão, em Fortaleza, Brasil

Estádio Governador Plácido Castelo, também conhecido como Arena Castelão, ou simplesmente Castelão. Localizado em Fortaleza, foi inaugurado em 1973 e é um dos maiores do Brasil. Foi aqui que começou a jornada de Eliana no atletismo. Foto © Arena Castelão

7M – Ele reparou em ti porque tinhas uma estatura atlética?

Exatamente! Ele tinha vindo ter comigo por causa da minha estatura, e depois de falar com a minha professora disse-me assim: ‘Não queres ir fazer um teste para o atletismo? Eles estão a oferecer bolsas de estudo na Unifor!”. A Unifor [Universidade de Fortaleza] é a melhor universidade do Estado do Ceará e era a mais cara da capital… Quando ele disse aquilo, eu pensei logo: “Uau! Foi por isto que eu vim para a cidade…”. Eu nem sabia o que era atletismo [risos], mas disse que sim e regressei a casa da Doroteia com um papel para ela assinar, visto que eu era menor e ela era agora a responsável por mim, para poder ir fazer o tal teste.

Ela primeiro achou que aquilo podia ser bom para mim, mas depois percebemos que a bolsa não era garantida, que eu ia precisar de treinar várias vezes por semana, o que significava que ia ter menos disponibilidade para trabalhar, e não aceitou. Disse que eu tinha mais era que estudar e trabalhar e que o desporto não me levaria a nada… “O desporto não leva ninguém a nada” foi a frase dela, que eu nunca mais esqueci. Mas eu duvidei. Duvidei mesmo. Porque só eu sabia o que tinha passado para chegar ali e as oportunidades que me estavam a aparecer. Só eu sentia onde é que aquilo poderia levar-me… E apesar de também lhe estar muito grata por me ter acolhido, não queria deixar que ela decidisse por mim. Mas eu era menor de idade e ela era a minha encarregada de educação… E foi então que, quando eu disse à minha professora que não tinha a autorização para ir fazer o teste, ela teve uma atitude que eu não esperava. Disse-me: “Não, Eliana, tu tens de ir, não podes perder uma oportunidade destas!”. E foi ela que me levou no carro dela, à sua responsabilidade, para eu poder fazer o teste.

 

7M – Foste fazer o teste de atletismo às escondidas!

Sim, porque aquela professora foi a pessoa certa, com a atitude certa, no momento certo… E mais uma vez senti que era Deus a agir na minha vida.

 

7M – E passaste no teste, claro…

Sim, o treinador ficou muito surpreendido comigo, disse que eu tinha talento e que gostava que eu entrasse para o atletismo. E então escreveu uma carta para a Doroteia, que ficou muito zangada por eu ter ido fazer o teste às escondidas, mas lá aceitou que eu treinasse três vezes por semana. Aí começou finalmente a minha jornada no atletismo… o estádio ficava a uma hora e meia de casa, então eu tinha de acordar às quatro da manhã para apanhar o autocarro e estar cedo na pista de atletismo, para depois às 11h regressar, comer e ir para a escola. Fazia isto três vezes por semana.

Mas passado alguns meses o treinador chegou ao pé de mim e perguntou: “Eliana, queres chegar ao mais alto nível como atleta?” Eu estava a adorar a experiência de treinar ali, com condições que eu nunca tinha pensado, e disse que sim. E ele respondeu: “Sabes que para isso, não basta teres talento… Precisas de começar a treinar todos os dias. Não subestimes o treino! Sei das tuas dificuldades, sei que vives longe… Então o que podemos fazer é oferecer-te alojamento.” E eu pensei: “Uau! Isso é tudo o que eu precisava!” E disse logo que sim, que iria. Cheguei a casa da Doroteia, contei-lhe, mas ela não me queria deixar sair, achava que era um erro. Só que, como eu costumo dizer, tudo aquilo de que eu precisava cabia dentro de uma mochila. Então arrumei as minhas coisas e saí contra a vontade dela… Liguei para os meus pais e disse-lhes: “Só preciso que confiem em mim”.

 

7M – A tua vida parece uma novela…

Sim, e eu estou a resumir! [Risos] A minha vida dava um livro…

 

7M – Foi a tua terceira saída de casa. Que idade tinhas?

Estava com 16 anos. Saí mais uma vez de casa e fui ter com o meu treinador, achando que tinha o alojamento assegurado. Foi então que ele me explicou que isso era só quando eu entrasse mesmo para a faculdade. E que eu tinha de obter alguns resultados… Aí fiquei sem chão. Tinha-me precipitado, não sabia para onde ir. Mas nesse mesmo dia, quando estava a ir para a escola, encontrei uma amiga da minha tia, a Marieta, que tinha conhecido durante o tempo que vivia em casa dela. Ela perguntou se eu queria boleia, eu aceitei, e no caminho fui-lhe contando o que estava a acontecer. Quando ela percebeu as dificuldades que eu estava a passar, disse-me: “Eliana, tens a minha casa.”

E pronto, mais uma vez digo: “Como é que é possível, naquele mesmo dia, ela ter passado, ter-me oferecido boleia, ter perguntado como é que eu estava e ter-me aberto as portas da casa dela?”. E foi a pessoa que mais me apoiou no desporto… Não me exigia nada, só apoiava. Pude passar a ir treinar todos os dias. Era duro na mesma, tinha de me levantar  às cinco da manhã e só chegava à noite, porque havia dias em que até treinava mais que uma vez por dia, mas comecei a notar muita diferença no meu desenvolvimento. Obtive muito bons resultados no heptatlo, que era o que eu treinava na altura. E consegui a bolsa! Na verdade, consegui entrar um ano antes para a faculdade, ainda com 17 anos, porque fiz logo o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], que é a prova de acesso ao ensino superior no Brasil, e consegui passar! E comecei a minha licenciatura em Desporto e Bem-estar.

Eliana Bandeira numa das suas primeiras conquistas. Foto DR

Apesar de só ter chegado ao atletismo com 15 anos, Eliana Bandeira rapidamente se destacou e obteve as primeiras medalhas. Foto: Direitos reservados

7M – E no meio disso tudo, continuavas a ir à igreja?

Sim, e foi aí que conheci a Igreja Evangélica. A Marieta era evangélica e frequentava a Igreja de Cristo. Um dia, perguntou-me se queria ir com ela e eu fui. E lembro-me de que foi uma experiência mesmo muito forte… Senti uma ligação a Deus que nunca tinha sentido antes. Porque na Igreja Católica parecia que os rituais, os santos… isso não me aproximava de Deus. Uma das coisas que me deixava confusa era que as pessoas iam à igreja, repetiam os rituais, as orações, mas depois isso não se refletia no seu dia a dia. Parecia que separavam o domingo do resto das suas vidas, e que eram palavras e rituais vazios. E com isto não estou a criticar a Igreja Católica. Conheço católicos que têm uma ligação muito próxima com Deus e que verdadeiramente praticam a sua fé, mas comigo foi na Igreja Evangélica que realmente senti que a ligação com Deus aumentou. Passei a ir aos encontros com outras pessoas da igreja, para meditar na Palavra de Deus, para louvar a Deus… e tomei a principal decisão da minha vida, já conscientemente, que foi aceitar Jesus como meu Salvador.

 

7M – Voltaste a ser batizada, agora na Igreja Evangélica?

Sim, e isso aconteceu já em Portugal, na Igreja Baptista de Leiria, onde fui acolhida como numa verdadeira família.

Eliana Bandeira foi batizada na Igreja Baptista de Leiria. Foto DR

Eliana Bandeira (no meio, na última fila) no dia em que foi batizada, na Igreja Baptista de Leiria. Foto: Direitos reservados

7M – E como é que aconteceu a tua vinda para Portugal?

Eu fiquei fascinada com Portugal ainda quando estava no ensino médio (o equivalente ao secundário aqui), porque houve uma iniciativa na minha escola, que era a Feira das Nações, em que tínhamos de fazer um trabalho sobre determinado país. E eu e o meu grupo escolhemos Portugal. Logo nessa altura, lembro-me de ter pensado: “É neste país que eu vou morar”… Depois, quando entrei para a faculdade, continuei a treinar muito e a participar em competições a nível nacional e destaquei-me no lançamento do peso. Fui vice-campeã do Brasil, na altura.

Foi muito bom, e estava a adorar a experiência na universidade, mas ao mesmo tempo eu só pensava que queria mais! Queria estar entre os grandes atletas, saber como é que eles treinavam, aprender com eles! Mas onde? Fui para o computador da biblioteca pesquisar e quem é que me apareceu? O Nélson Évora, que estava em alta nessa altura. Só se falava nele! E eu pensei: “Quando fizer 18 anos, é para Portugal que eu vou!” Pesquisei por clubes de atletismo em Portugal e o que apareceu em primeiro lugar foi a Juventude Vidigalense, em Leiria. Enviei um e-mail a explicar quem era e a perguntar se podia ter um estágio de treino com eles, e respondeu-me o Paulo Reis, que fundou o clube e hoje é o diretor técnico do atletismo do Sporting. E pronto, assim que fiz 18 anos, fui tirar o meu passaporte, juntei todas as minhas poupanças, e vim, para ficar três meses.

Eliana Bandeira fez um trabalho na escola sobre Portugal. Foto DR

Eliana Bandeira (primeira, a contar da esquerda) ficou “fascinada” com Portugal depois de um trabalho de grupo que fez na escola. Foto: Direitos reservados

 

7M – Três meses que já vão em dez anos…

E que vão ser muitos mais! [Risos] É que nesses três meses eu tive a certeza de que era mesmo isto que eu queria para a minha vida. Além de ter treinado com o Paulo e com a mulher dele, a Cátia Ferreira, fui com ele a um estágio de 15 dias no Algarve, onde estava o Nélson Évora e também a campeã olímpica de heptatlo da altura… Estive mesmo no meio dos grandes atletas, como eu queria, e foi uma  experiência fantástica! No fim dos três meses, disse ao Paulo: “Eu vou voltar.” E voltei. Inscrevi-me no Instituto Politécnico de Leiria para continuar a estudar, treinei com o Paulo até há um ano e meio, e agora estou no Benfica. Mudei-me para Lisboa no mês passado! E dentro de poucos dias parto para Paris!

Eliana Bandeira na Taça Europeia de lançamentos, Leiria, agosto 2023. Foto DR

Eliana Bandeira tem representado Portugal em inúmeras provas de lançamento do peso, desde que se naturalizou, em 2017. Foto: Direitos reservados

7M – Os Jogos Olímpicos eram um grande sonho?

Hoje, sei que representar Portugal nos Jogos Olímpicos era o sonho de Deus para mim… muito antes de ser o meu, muito antes de eu saber sequer o que era o atletismo e o lançamento do peso. Eu nunca imaginava que iria dedicar-me ao desporto, que viria morar para Portugal… Eu não tinha histórico na família, não tinha o talento, não tinha contacto com o desporto, não tinha essa vontade. E mesmo quando me tornei atleta, ninguém acreditava – a não ser os meus treinadores – que eu poderia chegar aqui. Olho para trás e reconheço que foi Deus que me direcionou. Costumo dizer que a nossa intuição não é uma intuição… é o Espírito Santo a conduzir-nos. E as pessoas com quem nos cruzamos, Deus usa-as como canal de bênçãos nas nossas vidas. Como aquele atleta que me viu no estádio, a minha professora que arriscou levar-me a fazer o teste, ou a Marieta, que apareceu do nada…

 

7M – E a fé ajudou a alcançar os resultados desportivos de que precisavas para chegar até aqui?

Acima de tudo, a minha fé sempre me manteve firme, sempre me fortaleceu, em todos os momentos. Mas é curioso perguntares isso, porque ao longo do meu percurso e conforme eu ia obtendo certos resultados, muitas pessoas comentavam que não percebiam de onde é que vinha a minha força. As atletas de lançamento do peso não costumam ser tão magras como eu, até me costumavam chamar “a magrinha forte” por causa disso! E eu não tenho medo de dizer, nunca tive, que esta força não é minha, vem de Deus. O Paulo Reis, que não era muito de falar de Deus, depois de me ter treinado a mim e à Auriol Dongmo – que é católica – reconheceu que havia em nós algo que não era só humano.

Eliana Bandeira. Foto Comité Olímpico de Portugal

Eliana Bandeira: “Hoje, sei que representar Portugal nos Jogos Olímpicos era o sonho de Deus para mim… muito antes de ser o meu.” Foto © Comité Olímpico de Portugal

7M – Costumas rezar antes das provas?

Sim, antes de sair para a competição ajoelho-me sempre e agradeço ao Senhor por mais um dia, pela oportunidade que Ele me dá por estar a competir, independentemente de qual vá ser o resultado. E peço-lhe que me dê coragem, que eu tenha força para empurrar o peso o mais firme possível… Depois, durante a prova, consoante as coisas vão correndo, converso com Deus, agradeço, peço ajuda… E depois da competição procuro um lugar mais calmo, às vezes entro numa casa de banho, ajoelho-me novamente, e agradeço. Se o resultado foi bom, peço que isso não alimente o meu ego de uma forma negativa, pelo contrário: que isso sirva de alguma forma para influenciar de forma positiva outra pessoa, para motivar…

 

7M – E quando os resultados não são os melhores?

Agradeço sempre. A minha mãe também me ensinou: “Confia no Senhor. Perdendo ou ganhando, agradece sempre!” E trago essa frase comigo. Posso dizer a Deus: “Não era isto que eu queria, não entendo porque aconteceu, e se foi um erro meu, ajuda-me a corrigir, ajuda-me a ter consciência de onde é que eu posso melhorar.” Isto faz parte de ser cristão: quando algo não corre como esperávamos, não desesperamos, não entramos em aflição, não desistimos… confiamos. Por isso, agradeço sempre. E todos os dias leio a Bíblia.

Eliana Bandeira lê a Bíblia todos os dias. Foto: Clara Raimundo

“A Bíblia vai comigo para todo do lado!”, assegura Eliana Bandeira. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

7M – A Bíblia vai contigo para os Jogos Olímpicos?

A Bíblia vai comigo para todo do lado! Levo-a na minha mochila principal do treino, juntamente com as sapatilhas! [Risos] Em cada mês, escolho um dos livros e vou lendo. E muitas vezes, para me ajudar a rezar, abro no livro dos Salmos e leio um. Já fiz várias amizades dentro do avião por ir a ler a Bíblia… as pessoas veem e identificam-se ou ficam curiosas!

 

7M – E tens alguma passagem bíblica preferida?

Tenho várias, mas há uma do livro do Génesis, capítulo 12, versículos 1 a 4, com a qual me identifico muito, porque conta que Deus disse a Abrão para sair da sua terra, deixar a sua família e a casa do pai, ir para a terra que Ele lhe mostrasse, e garantiu-lhe que ele seria uma fonte de bênçãos. Primeiro, o Senhor diz “sai” e depois “vai”, ou seja, ele pede para confiarmos primeiro n’Ele, mesmo sem entendermos para onde iremos ou o que faremos, e durante toda a minha jornada foi assim, confiando no Senhor, tomando decisões de sair mesmo sem entender o que aquilo significava. Só aos poucos fui percebendo, e neste momento entendo o verdadeiro significado de ser uma atleta olímpica. Deus quer que eu seja medalhista olímpica. Acredito que isso vai acontecer, não em Paris – em que o grande objetivo é chegar à final – mas nos próximos jogos, em Los Angeles. Mas sei que isto não é sobre mim, não é sobre o que eu ganho, não é sobre uma medalha, é sobre aquilo que Deus quis e quer fazer na minha vida para ter impacto em outras pessoas.

 

7M – Um impacto que já se começou a fazer sentir, porque paralelamente tens desenvolvido alguns projetos sociais…

Sim, hoje, depois destes anos de treino e dedicação, vejo que esta história é sobre outras pessoas também, pessoas que passaram pela minha vida, pessoas que precisavam da minha história para poder ter inspiração para entrar numa universidade… Recebo vários relatos, sobretudo através das minhas redes sociais, de mães que me dizem que os seus filhos perceberam, com o meu exemplo, que é possível conciliar o desporto e os estudos, que eu sou uma inspiração para eles.

E na minha aldeia, que entretanto tem vindo a crescer e desenvolver-se, implementei um projeto para tirar crianças das ruas através da prática do desporto e do apoio escolar. Foi uma associação que criei ainda antes de vir para Portugal, em parceria com a prefeitura. E também já propus um projeto semelhante à autarquia de Leiria, mas que não chegou a avançar. E espero vir a desenvolver mais essa área social. Porque são esses relatos que me fazem sentir que estou no caminho certo, que o esforço vale a pena… Ver que aquilo que eu faço gerou frutos e continua a gerar.

Eliana Bandeira implementou um projeto social para tirar crianças das ruas no Brasil. Foto DR

Eliana Bandeira com algumas das crianças que participaram no projeto social que implementou no Brasil. Fotos: Direitos reservados

 

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