AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Maria Domingos, Monjas Dominicanas.

Ir. Maria Domingos: Em memória de um mosteiro livre

| 16/02/2021

“Onde Moras? É uma pergunta um pouco ociosa…
Queriam ir mais longe e aquilo que descobriram
foi o suficiente para André dizer a Pedro (…)
que tinha encontrado o Messias.”
(Frei Mateus Peres a preparar a sua homilia
no Mosteiro do Lumiar em Onde Moras?)

Maria Domingos, Monjas Dominicanas.

A irmã Maria Domingos no mosteiro do Lumiar (Lisboa). Foto: Onde Moras? © Praça Filmes, cedida ao 7Margens.

 

Ouvi falar das Monjas do Lumiar pela primeira vez em 2000, quando uma amiga de Santarém me contou que ia regularmente assistir às conferências que elas organizavam mensalmente com a ajuda de frei José Augusto Mourão. Falou-me do chá de lúcia-lima que serviam depois, acompanhado pelos bolinhos de aveia caseiros que serviam como uma delícia sagrada. Por coincidência, foi o Frei Mourão que me casou, mais ou menos, na mesma altura. Não me recordo quando foi a primeira vez que fui ao mosteiro, mas fiquei como todos os que por lá passaram: encantada pela serenidade do espaço. E senti-me acolhida como se já fizesse parte da comunidade.

Alguns anos depois de participar regularmente nas conferências e nos serviços, tornou-se evidente para mim que se devia registar uma memória deste pequeno paraíso. As irmãs aceitaram o desafio de serem filmadas e abriram o quotidiano do seu espaço privado. Tive o privilégio de poder documentar a alegria de viver dessas quatro monjas (Domingos, Teresa, Luísa Maria e Maria João), no cuidar umas das outras, do jardim e na preparação da capela. A presença quase quotidiana de Frei Mateus – que celebrava o serviço religioso – na sua vida revela a amizade e a confiança não só entre Dominicanos como também entre indivíduos, capazes de discutir assuntos mundanos e tomar decisões difíceis.

Cartaz filme Onde Moras, Maria Domingos, Monjas Dominicanas

Cartaz do filme Onde Moras?, de Inês Mendes Gil.

Para a irmã Maria Domingos, ser monja foi uma oportunidade de ser livre, como testemunha no filme. De facto, ela vivia a sua fé de uma forma atípica, e como se sentia livre, ela abrira com as suas irmãs um espaço de liberdade à sua volta, através da tolerância, da simplicidade e da partilha de uma espiritualidade despojada. Em Onde Moras?, descobrimos quatro mulheres que escolheram viver à margem dos rumores do mundo para melhor o aceitar, no seu mistério e nas suas contradições. No entanto, e em particular para a irmã Domingos, era fundamental questionar os fundamentos dos dogmas para expandir o espírito e permitir o diálogo com o outro. Porque é no outro que encontramos o Divino, ou nas pétalas de uma flor, ou na preparação e a partilha de uma refeição. É por esta razão que no filme, assistimos a vários almoços, pretextos para discutir teologia com José Mattoso, por exemplo, enquanto que o pequeno almoço, por começar o dia, era um momento de introspeção.

Infelizmente, as monjas tiveram que deixar o Mosteiro do Lumiar. Com elas, desapareceram os doces de laranja, os ícones criados por elas e os textos das conferências que vendiam na pequena loja improvisada à entrada. Elas levaram consigo os debates e a confraternização após as conferências. Hoje, a irmã Domingos deixou-nos. Ontem foram o frei Mourão, o frei Mateus e a irmã Luísa Maria. O que deixaram em nós vai além do tempo e da memória.

 

Lisboa, 15 de fevereiro de 2021

 

Inês Mendes Gil é cineasta e realizadora de Onde Moras?, documentário de 70 minutos realizado em 2015

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This