Iraque: Crianças yazidi que sobreviveram ao Estado Islâmico precisam de ajuda urgente, alerta Amnistia Internacional

| 31 Jul 20

criança yazidi iraque Foto: © Adam Ferguson/Amnistia Internacional

Muitas das crianças que sobreviveram ao cativeiro regressaram a falar a língua árabe, o que dificulta a sua reintegração. Foto: © Adam Ferguson/Amnistia Internacional.

 

Perto de duas mil crianças yazidi, que regressaram às suas famílias após terem sido mantidas em cativeiro pelo Daesh (o autoproclamado Estado Islâmico-EI), entre 2014 e 2017, no Iraque, enfrentam agora inúmeros traumas físicos e psicológicos e precisam de apoio urgente das autoridades do país e da comunidade internacional, alerta a Amnistia Internacional (AI).

Num relatório divulgado esta quinta-feira, 30 de julho, baseado em dezenas de entrevistas realizadas a crianças e famílias pertencentes à minoria religiosa de origem curda presente no norte do Iraque, a AI denuncia que, depois de terem sido “sequestradas, torturadas, forçadas a lutar, violadas e sujeitas a numerosos outros abusos de direitos humanos”, estas 1.992 crianças que sobreviveram e regressaram às suas comunidades enfrentam agora graves problemas de saúde e de reintegração.

“Muitas crianças sobreviventes voltaram do cativeiro do Daesh com lesões incapacitantes a longo prazo, doenças ou deficiências físicas”, informa o relatório, intitulado Legado de Terror: A Situação das Crianças Yazidi Sobreviventes do EI. Inúmeros rapazes, que na maioria das vezes foram forçados ao treino militar e a lutar, têm membros amputados. Já as raparigas yazidi, em grande parte sujeitas a violência sexual, apresentam frequentemente problemas como fístulas traumáticas, cicatrizes e dificuldades em ter filhos.

A nível psicológico, a Amnistia identificou inúmeras situações de stress pós-traumático, ansiedade e depressão. Agressões, pesadelos, isolamento social e mudanças de humor severas são alguns dos comportamentos que, segundo o relatório, mais se evidenciam. Muitas destas crianças e jovens assumiram ter pensado em cometer suicídio ou chegaram mesmo a tentar fazê-lo mais que uma vez.

No caso das mulheres e raparigas que tiveram filhos na sequência de violações, “muitas revelaram ter sido pressionadas, coagidas ou mesmo enganadas para deixarem os seus filhos”, dado que o Conselho Espiritual Supremo Yazidi e a atual legislação iraquiana determinam que qualquer filho de pai desconhecido ou muçulmano deve ser registado como muçulmano.

“Há também casos de crianças que voltaram a falar árabe, em vez de curdo”, o que também está a dificultar que se reintegrem totalmente no seio das famílias e da comunidade”, sublinha a AI.

“Sobreviventes de crimes horríveis, estas crianças enfrentam um legado de terror. A saúde física e mental deve ser uma prioridade, nos próximos anos, para se reintegrarem totalmente nas famílias e nas comunidades”, afirma Matt Wells, diretor-adjunto do departamento de resposta a crises da Amnistia Internacional.

A AI alerta também para o facto de, desde fevereiro, a missão de reintegrar estas crianças ter-se tornado ainda mais difícil: devido à pandemia, muitas organizações não governamentais e instituições de caridade que operavam no terreno foram forçadas a interromper os seus projetos e muitos funcionários internacionais regressaram aos seus países de origem. “O apoio psicossocial e outros serviços de saúde tornaram-se ainda mais difíceis em termos de acesso, as escolas fecharam e o Governo não está a tratar das burocracias necessárias para a obtenção de documentos civis”, denuncia a organização.

“Apesar de o pesadelo ter passado, persistem as dificuldades para estas crianças”, sublinha Matt Wells. “Depois de suportarem os horrores da guerra numa idade extremamente jovem, agora precisam de apoio urgente das autoridades nacionais do Iraque e da comunidade internacional para construírem o seu futuro.

 

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