Dia em Memória das Vítimas

Irene Pimentel: “Não aprendemos com a História” e por isso devemos perceber como chegámos ao Holocausto

| 26 Jan 2023

irene pimentel foto pedro medeiros

Irene Pimentel: “Procuro mostrar aos jovens que as ditaduras não são apenas meia dúzia de monstros. Elas recolhem muitos apoios, conseguem cativar pessoas… E também têm resistência”. Foto © Pedro Medeiros.

“Está mais que provado que a História nos ensina muito pouco!” A frase pode ser desconcertante, ainda para mais vinda de uma historiadora. Neste caso, de Irene Pimentel, premiada investigadora do Instituto de História Contemporânea. Mas, então, valerá a pena continuar a estudá-la e a transmiti-la, particularmente aos mais jovens? Depois do “périplo” que já fez por inúmeras escolas secundárias do país, a propósito do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se assinala esta sexta-feira, 27 de janeiro, Irene Pimentel tem a certeza de que sim.

A verdade é que, a cada ano que passa, recebe mais convites da parte dos professores para falar sobre o Holocausto e o antissemitismo e nota que “há um maior interesse” nestes temas por parte dos alunos. Ainda esta quarta-feira, no Agrupamento de Escolas de Fernão do Pó (Bombarral), quase nem queria acreditar no que os seus olhos viam: “Uma sala repleta de alunos, sobretudo do 9º ano, mas também do 11º e 12º”, que a seguir à sua palestra a conduziram por “uma enorme exposição de trabalhos sobre o Holocausto, feitos por eles com a ajuda dos pais… Uma exposição magnífica, que devia ser vista por toda a comunidade escolar!”, conta a historiadora ao 7MARGENS.

No dia anterior, a galardoada com o Prémio Pessoa 2007 tinha estado no Agrupamento de Escolas Professor Armando de Lucena, na Malveira, de onde também saiu entusiasmada. Além do interesse dos alunos, a historiadora registou como muito positiva a preocupação do professor que dinamizou a atividade “em ensinar aos jovens, de forma didática, a capacidade de interpretar os factos”.

 

“O Holocausto não começou só em 1933”

irene pimentel em palestra sobre o holocausto na sede do Agrupamento de Escolas Professor Armando de Lucena, Malveira

Irene Pimentel durante a palestra que proferiu na sede do Agrupamento de Escolas Professor Armando de Lucena, Malveira. Foto © AEPAL. 

 

Quando vai às escolas, um dos objetivos de Irene Pimentel é precisamente o de dar aos alunos ferramentas que os ajudem nessa interpretação, porque “isso é o fundamental que se lhes deve dar”. Ou não remetessem os tempos atuais “para o que aconteceu no passado”, salienta a historiadora, lembrando que “pela primeira vez em muitos anos, estamos a viver uma guerra na Europa, que não sabemos onde vai parar”. E, no caso concreto de Portugal, “há neste momento um partido de extrema-direita na Assembleia da República, que faz do seu inimigo principal a etnia cigana”, acrescenta.

Assim, nas suas intervenções, Irene Pimentel faz questão de mostrar “as várias etapas que levaram ao Holocausto” explicando que este, ao contrário do que muitos possam pensar, “não começou só em 1933, quando Hitler assumiu o poder na Alemanha”.

A investigadora considera, pois, essencial que os jovens percebam que, “quando entramos numa etapa em que começa a haver discriminação, devemos atalhar imediatamente nessa etapa”, para que não se avance para as seguintes. E deixa sempre o alerta: “a discriminação, o racismo, a xenofobia… continuam a existir”.

Muitos jovens, reconhece Irene Pimentel, têm consciência disso. Dependendo das realidades em que se inserem, os motivos que levam à existência de discriminação são diferentes. “Ontem, no Bombarral, um dos alunos referia concretamente a discriminação de pessoas por causa da sua orientação sexual. Amanhã, no Barreiro, por ser uma zona com muitos imigrantes e afrodescendentes, talvez se coloque a questão da discriminação racial…”, partilha a historiadora, que se prepara para fazer mais uma intervenção, desta vez no Agrupamento de Escolas de Casquilhos.

 

“Nunca pensei chegar a esta altura e assistir ao que assisto”

O que foi o Holocausto? Como foi possível tamanho crime?  Poderia ter sido evitado? Estas são algumas das perguntas às quais Irene Pimentel procura responder neste livro.

Irene Flunser Pimentel é autora, entre outras obras, do livro Holocausto, onde procura esclarecer muitas das dúvidas que ainda persistem sobre o que aconteceu. Desde logo, as de caráter mais genérico, como: o que foi o Holocausto? Como foi possível tamanho crime? Quando souberam os Aliados do extermínio dos judeus? Poderia ter sido evitado? Foi a pensar nos professores de História, mas também (e muito) nos jovens, que o escreveu.

Questionada sobre se acha que eles estão mais ou menos tolerantes atualmente, Irene Pimentel diz que “é difícil generalizar, mas a empatia parece ser mais importante do que era em tempos”, afirma. “Eu espero que os jovens estejam mais tolerantes. E se há uma coisa que eles têm dificuldade em entender é o porquê de os judeus terem sido perseguidos, e querem muito saber qual foi a atitude de Portugal”, destaca. “Eu procuro mostrar-lhes que as ditaduras não são apenas meia dúzia de monstros. Elas recolhem muitos apoios, conseguem cativar pessoas… E também têm resistência”.

Apaixonada pela História, e defensora de que esta disciplina, juntamente com a Filosofia, deveria ser obrigatória para todos os alunos e em todos os ciclos, Irene Pimentel diz que é “um gosto” e “uma missão” partilhar o seu conhecimento com os mais jovens, particularmente no momento que atravessamos. “Os tempos atuais são muito desafiantes… Nunca pensei chegar a esta altura e assistir ao que assisto! Continua a haver pessoas que votam em ditadores…”, diz Irene Pimentel. É por isso que é levada a concluir que “a História nos ensina muito pouco”. Ou talvez sejam as pessoas que teimam em não aprender com ela.

“Mas eu não perco a esperança”, garante. “Acredito que o conhecimento da História é fundamental e que é muito melhor atuarmos com ele, do que fingirmos que o mundo começou connosco.”

 

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