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Ireneu Cunha, Igreja Metodista

Ireneu Cunha (1930-2025): um expoente do ecumenismo em Portugal

| 09/03/2025

O bispo emérito da Igreja Metodista, Ireneu da Silva Cunha, morreu na última sexta-feira, dia 7; o velório decorre na Igreja Metodista de Aveiro (Rua Engenheiro Oudinot) a partir das 9h30 desta segunda-feira, dia 10; o funeral está previsto para as 14h00 no cemitério novo de Oliveira do Bairro, localidade onde residia.

 

1. 

Ireneu Cunha é uma figura incontornável do protestantismo português na segunda metade do século XX.

Aluno da escola diária da Igreja Metodista, hoje primeiro ciclo, cedo se interessou pelas questões da Igreja e por assuntos teológicos; pouco depois dos vinte anos ingressa no Seminário Presbiteriano de Teologia, em Carcavelos, vindo a terminar o curso com altas classificações em julho de 1956.

O Superintendente da Igreja Metodista, o recém-chegado reverendo Alberto Aspey, não perdeu tempo e, em 5 de Agosto, colocava o novo licenciado na Igreja do Lordelo. Em 31 de Outubro de 1957 é ordenado para o ministério pastoral na Igreja Metodista do Mirante (Porto), juntamente com Francisco Abel Lopes. Obteve, depois, uma pós-graduação em Teologia no Didsbury College, da Universidade de Bristol.

Ainda em 1956 é associado à redação do mensário Portugal Evangélico, o mais antigo periódico protestante e órgão da Igreja. Em Maio de 1959 torna-se diretor desta publicação, qualidade que manterá por mais de 40 anos. Logo em Janeiro de 1961 promove a primeira modernização, alterando a grafia e formato, introduzindo uma primeira página a cores, aumentado o número de páginas, introduzindo artigos de formação de leitura apetecível, e elegendo o ecumenismo como tema recorrente.

Com humor, uma pena fácil, uma erudição notável e uma voz poderosa, Ireneu assenta a sua vida e o seu ministério como pastor em dois pilares, que são as suas duas paixões: o movimento ecuménico e a Igreja Metodista.

Ireneu Cunha, Igreja Metodista

Ireneu Cunha na ordenação como primeiro bispo da Igreja Metodista em Portugal, em Outubro 1996. Foto: Direitos reservados.

2. 

Ireneu é autor de muitos estudos, escritos e conferências sobre ecumenismo, de que destaco A Unidade Cristã (tese de licenciatura), de 1956, A Nossa Vocação Como Minoria (com textos de Ireneu, do então padre e futuro patriarca católico de Lisboa, José da Cruz Policarpo, e do pastor José M. Leite), de 1975, e Uma Caminhada Ecuménica – 25 anos de testemunho e serviço em Portugal, de 1996. Foi também professor da cadeira de Ecumenismo no Instituto Superior de Teologia de Coimbra, a convite do bispo católico diocesano.

Neste último livro, escrevia ele, sobre o papel do metodismo no movimento ecuménico: “O facto desta igreja ter surgido no interior do Anglicanismo, levou a que na sua Liturgia e Doutrina se viessem a reflectir intensamente as suas origens, sendo tanto uma como outra profundamente marcadas pelo Prayer Book e pelos 39 Artigos da Igreja Anglicana, estando assim, desde o início, lançadas fontes para futuros desenvolvimentos ecuménicos, reforçadas ainda pela herança doutrinal comum dos Credos da Igreja Antiga, elaborados nos concílios, e que a Igreja Metodista adoptou no seu culto.”

No texto, Ireneu Cunha acrescentava que intrinsecamente, “o Metodismo nasceu já marcado pelos genes do Ecumenismo que ao longo da sua História, que é parte da História Contemporânea e Moderna, se vieram a revelar e afirmar no alinhamento praticamente total pelas posições ecuménicas”.

“Um dos primeiros sinais desta predisposição para o Ecumenismo manifestou-se logo nos fins do século XIX, quando o Metodismo organizou a sua 1ª Conferência a nível mundial. Sendo já uma denominação à escala global, que melhor designação do que chamá-la ‘Conferência Ecuménica Metodista’, usando o conceito ecuménico no seu sentido comum nos primeiros séculos da cristandade, o sentido geográfico – “abrangendo toda a terra habitada.”

Também como diretor do Portugal Evangélico Ireneu desenvolveu a sua vocação ecuménica e, em 1965, o periódico passa a ser o órgão oficial das Igrejas Metodista e Presbiteriana portuguesas.

É de destacar a sua iniciativa e empenho em várias atividades ecuménicas, sendo participante na Comissão Inter-eclesiástica Portuguesa, criada em 1956, que deu origem ao Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic) em 1971, de que foi eleito o primeiro secretário-geral, cargo que desempenhou até 1984. Como secretário-geral do Copic, Ireneu participou em diversas estruturas do Conselho Mundial de Igrejas, da Conferência das Igrejas Europeias, da Conferência das Igrejas Protestantes dos Países Latinos da Europa, o Comité das Igrejas para as Migrações na Europa Ocidental, entre outras.

Em Fevereiro de 1975 o Copic recebe em Portugal a reunião da Comissão de Evangelização e Missão do Conselho Mundial de Igrejas (protestantes e ortodoxos). Na ocasião Ireneu Cunha dá uma entrevista no noticiário da RTP, explicando o que é o Conselho Mundial de Igrejas e as razões que o levaram a apoiar os movimentos de libertação em África, provocando reações adversas dos governos do Estado Novo.

Como secretário-geral do Copic, Ireneu participou nas primeiras aproximações protestantes às hierarquias da Igreja Católica Romana em Portugal (em 1981, faz-se a primeira edição conjunta do programa do Oitavário para a Unidade dos Cristãos), e às Igrejas filiadas na Aliança Evangélica Portuguesa (tendo a primeira reunião acontecido em Fevereiro de 1983).

No campo diaconal, o Copic, sob a liderança de Ireneu, conseguiu reunir recursos junto das Igrejas europeias e do Conselho Mundial de Igrejas para, em cooperação com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, apoiar os que, em 1975, vindos das antigas colónias africanas, chegavam às centenas de milhar a Portugal, sem casa, sem emprego e sem recursos. Os apoios consistiam em bolsas de estudo, apoio para criação de pequenas atividades, como carpintaria, oficinas e outras, microcrédito e até alojamento temporário.

O Copic tem a sua primeira sede em Coimbra, num espaço que abrigava já uma iniciativa ecuménica metodista e presbiteriana para acolher estudantes protestantes e reunir uma pequena Igreja doméstica. E era Ireneu e a esposa Maria Teresa, diaconisa, quem encabeçava este projeto.

Ireneu Cunha é também um dos envolvidos na iniciativa de criação do Centro Ecuménico Reconciliação, na Figueira da Foz, tendo sido membro da direção deste de 1969 até 1987. Foi ainda presidente da direção do Seminário Evangélico de Teologia onde se formara (deixara de ser chamado Seminário Presbiteriano de Teologia e mudara de Carcavelos para Lisboa).

Quando Ireneu deixou o Copic para abraçar outras responsabilidades, este organismo era reconhecido e respeitado e estava preparado para responder aos desafios da sociedade civil no que respeitava à presença protestante nos meios públicos de comunicação social e no ensino religioso nas escolas públicas.

Ireneu Cunha, Igreja Metodista 3. 

Ireneu Cunha começou o seu ministério pastoral em Lordelo, Porto, como dissemos, e logo se lançou em campanha para a construção de um templo novo. Quando deixou o pastorado nessa comunidade, em 1961, para abraçar o trabalho metodista na cidade de Aveiro, o novo templo estava quase pronto e pago. Depois do pastorado de Aveiro, Ireneu abraça o projeto ecuménico Igreja Lar Emaús, em Coimbra, onde desenvolve uma pequena comunidade e faz trabalho com os estudantes universitários.

Quando Ireneu é eleito superintendente da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa, sucedendo ao inglês Albert Aspey que desempenhara um longo mandato, a Igreja era um distrito da Igreja Metodista de Inglaterra, sem autonomia. Ao longo da primeira fase do seu serviço como superintendente, Ireneu obteve a autonomia do braço português da Igreja Metodista. Autónoma, a Igreja passa a trabalhar na sua forma de governo e em 1996 Ireneu é eleito e consagrado bispo, sendo o primeiro bispo da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa.

Ireneu cessa as suas funções em 2001, com 70 anos, e é nomeado bispo emérito. Deixou uma Igreja Metodista que crescera, tinha clero jovem, vivia em clima de unidade e contava agora com duas comunidades na zona de Lisboa (recorde-se que a Igreja Metodista tinha implantação nas zonas de Aveiro, Porto e Braga).

Ireneu Cunha, Igreja Metodista

Irineu Cunha com a esposa, Maria Teresa, em 2018. Foto: Direitos reservados.

4.

Destaca-se ainda que a preocupação com o serviço aos outros levara Ireneu a ser rotário desde 1964, chegando a ser presidente do Rotary Clube de Coimbra no ano 1978/1979. Ireneu era também um entusiasta do Futebol Clube do Porto e em 2020 publica uma autobiografia intitulada Desfolhando a Vida.

Casou em 1956 com Maria Teresa Coelho Cunha, e teve dois filhos, Iolanda e Jorge.

 

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