Indígena do povo Mura em entrevista

Irmã Elis Santos: “São mais de 500 anos a sobreviver, e nós queremos existir”

| 1 Out 2022

Aos 35 anos, Elis Santos, religiosa da Divina Providência, é uma das vozes mais ativas no Brasil na luta pelos direitos dos povos indígenas. Membro do povo mura e mestre em antropologia social, a irmã Elis falou ao 7MARGENS durante o encontro d’A Economia de Francisco, que decorreu na semana passada em Assis, e lamentou que no seu país continue a prevalecer “uma economia que mata”. 

irma elis santos no encontro a economia de francisco assis 2022 foto clara raimundo

A irmã Elis Santos, à direita, acompanhada da também indígena e investigadora Bárbara Flores, durante o encontro d’A Economia de Francisco, que decorreu entre 22 e 24 de setembro em Assis. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

Costuma dizer que é indígena, mas que só há pouco tempo é que se apercebeu disso… Porquê?

Eu nasci em Manaus, na capital do Amazonas. Nasci na capital, e não nos territórios originalmente indígenas, porque os impactos da colonização pelos portugueses naquela região foram, assim como em todo o Brasil, muito fortes. Por exemplo, eu pertenço ao povo mura, mas por causa dos projetos coloniais nunca falei mura, só português… A colonização foi tão impactante dentro da minha construção e dentro daquilo que é o afastamento da minha identidade, que eu só tomei consciência dela quando entrei na congregação das Irmãs da Divina Providência, porque fui morar para o sul do Brasil e, nessa região, principalmente no interior, a maior parte das pessoas descende de europeus e há uma cultura bem ‘branca’.

Assim, só quando cheguei lá é que me dei conta do quanto eu era diferente! Até porque as pessoas me identificavam como a ‘índia’, chamavam-me ‘índiazinha’… Na verdade, eu não me reconhecia como tal! Mas, a partir daí, decidi fazer um resgate da minha cultura e do território ancestral de onde eu tinha vindo. Eu era formada em pedagogia, com especialização em orientação educacional, mas devido a essa descoberta, depois de ter feito os meus votos, decidi iniciar o mestrado em antropologia social e partir nessa busca das minhas origens.

 

E a vocação à vida consagrada, como é que tinha surgido?

Cresci numa região periférica da cidade de Manaus, no bairro Zumbi dos Palmares II, que o meu povo ocupou correndo o risco de sofrer ataques violentos por parte dos governantes. Mas teve de o fazer, porque sofria muito com as cheias do rio Amazonas. Nós morávamos nas casas por cima das palafitas e o rio Amazonas enchia e alagava tudo. Então tivemos de sair para ocupar um novo território na zona leste da cidade de Manaus, e ali vivíamos numa grande aldeia, que praticava o bem comum, a ajuda, a construção dessa localidade, procurando ter acesso a água, energia…

Quem nos ajudou a estabelecer-nos naquele território foram as irmãs da congregação à qual eu pertenço hoje. Elas estavam na luta com o povo. Eu achava os corpos das irmãs muito livres, enquanto eu era muito tímida, e me escondia… Achava-as muito atuantes juntamente com o povo, muito livres diante das suas decisões e projetos. Foi aí que me encantei pela vida religiosa consagrada e disse: “eu quero viver desta maneira, trabalhando juntamente com, não apenas com”.

 

Então não há nenhuma incompatibilidade entre ser indígena e ao mesmo tempo católica?

Muitas pessoas me perguntam sobre isso e até tenho parentes que continuam a colocar-me essa questão [risos]. Porque na verdade a Igreja Católica também contribuiu para os projetos coloniais… Mas eu fiz uma experiência de Jesus Cristo muito diferente daquela que foi imposta aos meus antepassados, porque Jesus Cristo para mim teve um projeto libertador e de integração de todos, como diz o Papa Francisco, que nos chama para um movimento sinodal. Jesus Cristo integrou, e foi ele próprio assassinado por um poder religioso e estatal da época, é esse projeto de Jesus que me atrai.

Eu cresci envolvida também por essa fé num Deus libertador, propagada pela teologia da libertação, muito presente nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica na periferia, promovendo ações concretas de enfrentamentos às políticas genocidas do Estado. E, dentro da Igreja, eu tento trazer esse movimento de retorno de uma teologia mais libertadora, de um cristianismo do início, e não daquele que foi difundido e que matou os nossos ancestrais. No fundo, eu luto também pela descolonização da Igreja, por uma reparação histórica e para que continue com ações concretas que promovam a dignidade de vida de todos os povos.

 

Atualmente, a Igreja é uma aliada dos indígenas?

O Papa Francisco é sem dúvida um aliado das causas indígenas e é um aliado da defesa da região amazónica. Ele promoveu o sínodo pan-amazónico, temos a Repam (Rede Eclesial Pan-Amazónica), e eu acredito que a Igreja agora caminha junto connosco.

papa francisco com indigenas no canada foto vatican media

“O Papa Francisco é sem dúvida um aliado das causas indígenas e é um aliado da defesa da região amazónica.” Foto © Vatican Media.

 

A iniciativa A Economia de Francisco é mais uma ajuda?

Isso mesmo… Porque na verdade é o capitalismo que invade os nossos territórios, é o capitalismo que mata os nossos povos, é o capitalismo que saqueia as nossas florestas… Quando o Papa Francisco lançou o convite aos jovens para aderirem ao movimento d’A Economia de Francisco, eu tinha começado o mestrado em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tinha a disciplina de antropologia económica. Felizmente pude participar no encontro e levar a perspetiva dos povos indígenas, do bem viver e da ecologia integral, que tenho trabalhado ao longo dos últimos anos.

 

Porque é que, no Brasil, falam d’A Economia de Francisco e Clara, e não apenas de Francisco?

No Brasil, decidimos fazer presente também Santa Clara, para garantir que a economia possa pensar em todas as pessoas que estão à margem da sociedade, todos os grupos sociais que são excluídos… E Clara tem essa representatividade: são as indígenas mulheres, são as mulheres negras, as mulheres das periferias, as mulheres também que contribuem para o tecer destas novas economias.

 

Na prática, já mudou alguma coisa no Brasil desde que o Papa lançou este movimento?

Temos feito mapeamentos dentro do Brasil de práticas de economias solidárias, sustentáveis, que já existiam antes do movimento, e temos procurado caminhar juntos, dar visibilidade a essas economias existentes e fomentar novas práticas de economia solidária. Por exemplo, no Amazonas, temos tentado organizar-nos nas periferias com projetos de cooperativismo, nomeadamente na área do artesanato, em que temos grupos de mulheres que transformam aquilo que é lixo em produtos que podem gerar algum rendimento e fazer com que a cooperativa possa sobreviver. O nosso objetivo é, dentro dos bairros periféricos, fomentar a criação de bancos comunitários, em que as pessoas possam ajudar-se coletivamente e os bairros se tornem auto-suficientes.

 

O encontro d’A Economia de Francisco, em Assis, onde participou juntamente com mais duas indígenas e cerca de cem brasileiros, foi importante?

Foi importante para podermos fazer as nossas vozes ecoarem, e principalmente na Europa, que é bastante responsável por aquilo que acontece na América Latina… E para pensarmos numa economia em que todas as formas de vida possam existir, todos os países possam manter-se dignamente, e realmente possam superar as desigualdades sociais estabelecidas no mundo.

 

Mas neste momento, no Brasil, continua a prevalecer a “economia que mata”?

Sim, o agronegócio mata, as multinacionais poluem os nosso rios, o garimpo também polui e está a alastrar-se no Amazonas, o que tem prejudicado muito os parentes indígenas, em particular os povos ianomami… O atual Governo ataca de forma violenta os povos originários, criando estratégicas políticas para nos extinguir apoiado por uma bancada ruralista e por grandes fazendeiros e latifundiários. Na verdade, a colonização não terminou, ela continua a invadir os nossos territórios, a acabar com as nossas florestas…. E se a floresta da Amazónia ainda está em pé é por causa dos povos indígenas que estão lá, a morrer, mas defendendo os seus territórios.

Nós queremos continuar com a nossa Amazónia em pé e queremos gritar isso ao mundo, para que o mundo possa pensar em projetos em que realmente nós possamos existir e não mais apenas sobreviver. São mais de 500 anos só a sobreviver, e nós queremos existir. A luta continua para que tanto indígenas que estão em aldeias como os indígenas que estão em contextos urbanos possam existir e para que os nossos territórios deixem de ser invadidos e as nossas terras deixem de ser privatizadas. Acontece que as políticas brasileiras não reconhecem indígenas que estão nos contextos urbanos, não existem leis que nos amparem e muitas instituições que trabalham com os povos originários chamados brasileiros legitimam essa posição estatal, desfavorecendo a luta pelos nossos direitos tradicionais simplesmente pelo facto de estarmos na cidade. Só que foi a cidade que chegou à aldeia… Todo o Brasil é território ancestral indígena.

 

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