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Passos sinodais com a irmã Julieta Dias. Foto DR
O vídeo da conversa com a irmã Julieta Dias já está disponível. Foto: Direitos reservados

Passos sinodais

Irmã Julieta Dias: “Uma sinodalidade efetiva implica reconhecer que a única ordem sacra é o batismo”

| 26/09/2026

Apesar da importância que os Evangelhos conferem às figuras femininas que acompanharam Jesus, a Igreja “continua a tratar as mulheres como cristãs de segunda”, não permitindo que sejam ordenadas. Mas, “para a sinodalidade ser efetiva, uma das primeiras coisas que temos de fazer é renovar a eclesiologia, temos de ter uma visão diferente do que é a Igreja. Nela não há ordens sacras, porque a única grande ordem sacra é o batismo” – afirmou a irmã Julieta Dias durante o terceiro encontro promovido pelo grupo de leitores do 7MARGENS interessados na concretização de uma Igreja Católica sinodal.

Confessando ter muita pena desse caminho de serviço não estar aberto às mulheres, Julieta referiu com veemência: “Não que eu queira ser ordenada, porque não quero mesmo: já o sou, pelo batismo. Pelo batismo todos somos sacerdotes, reis e profetas.” Contudo, reconheceu também quantas vezes ao longo da sua vida foi castrante não poder presidir à eucaristia após encontro de reflexão e partilha com outros cristãos.

Anteriormente, os “Passos Sinodais” tinham permitido ouvir a teóloga Cristina Inogés (maio) e o padre Nuno Westwood (julho). Perante um pouco mais de 60 participantes, a teóloga Julieta Dias respondeu, ao princípio da noite de 22 de setembro, às questões colocadas por Sara Leão (membro do grupo) e, naturalmente, estas versaram a interrogação sobre a sinodalidade e o lugar da mulher na Igreja Católica, já que a investigação da irmã Julieta se desenvolveu muito em particular sobre Maria mãe de Jesus e outras figuras femininas retratadas nos Evangelhos.

A teóloga começou por recordar que, ao contrário dos discípulos, “nenhuma mulher foi chamada por Jesus. As mulheres é que ficaram fascinadas com a forma como ele as olhava,” rompendo com as imposições da cultura da época que prescreviam que “uma mulher não podia dirigir a palavra nem ao seu marido em público, nem devia ser olhada nos olhos por um homem. Mas Jesus olhava para elas e aceitava-as como eram, tal como olhava os homens. E elas sentiram que Jesus as olhava como pessoas, que não as discriminava. E foram elas que quiseram entrar nesse grupo”.

Para Julieta Dias, os Evangelhos nem deixam margem para dúvidas: “Elas perceberam melhor do que os discípulos qual era a missão de Jesus na terra. Os discípulos reconheciam em Jesus o Messias, o Messias político que ia libertar o povo de Israel do domínio romano”. Mas foi a uma mulher – a samaritana – que Jesus revelou – e é a única vez que o faz – que Ele é o Messias. São elas também que estão junto da Cruz e ali ficam até ao fim. São as mulheres que estão sentadas junto ao sepulcro – a atitude típica do discípulo que contrasta com o estar de pé, que é a atitude do apóstolo que caminha a anunciar Jesus, a evangelizar –, são as mulheres que permanecem junto ao sepulcro e são elas as primeiras testemunhas, as primeiras anunciadoras da ressurreição: “Eu vi o Senhor!” – a exclamação de Maria Madalena é fruto de alguém que vê com olhos diferentes dos nossos, ela vê com o sentir, com o coração”.

 

Escutar e dançar sem medo

Escutar e dançar foram dois verbos a que a teóloga recorreu para caracterizar as atitudes que a sinodalidade requer. Escutar não é o mesmo que ouvir, repetiu várias vezes, clarificando: “Escutar não é ouvir. Ouvir, ouvimos. É preciso escutar, isto é, perceber o que a palavra do outro me disse, como o meu pensamento foi penetrado pela palavra do outro que eu ouvi”. Só permitindo que a palavra do outro me modifique é que o escutar pode permitir “a participação, participar, discernir e partilhar a responsabilidade da missão”.

Mas a sinodalidade pode também ser comparada a “uma dança em círculo” em que todos têm de estar atentos à mesma música e criar um mesmo movimento. Ela é “como uma dança em círculo. Há que escutar a música para poder estar em sintonia com os outros, estar atenta ao que dizem”.

Neste convite para que se escutem e dancem ao mesmo ritmo, os católicos enfrentam muitas dificuldades. “Há muitos medos, sobretudo nas pessoas que exercem alguma liderança e que têm medo de perder a autoridade”. Sobre todo o processo, a irmã Julieta não tem ilusões: “Não vai ser fácil entrar numa Igreja como o Papa Francisco a queria: uma comunidade de gente que caminha juntos.” Sem ilusões, mas não menos fé: “Basta-me que haja três ou quatro paróquias e umas quantas dioceses” a viver sinodalmente “para acreditar que a Igreja virá a ser sinodal”.

O necessário confronto com a Palavra (não lida à letra, pois “a letra mata” o espírito) ao longo deste caminhar junto foi várias vezes evocado, assim como a capacidade de ler os sinais dos tempos para que as comunidades consigam viver a missão essencial da Igreja: servir. “Na Igreja ou se serve, ou não se faz nada. O poder de mandar não é cristão, o poder de dominar não é cristão. Os cristãos, a Igreja, existem para servir. Para servir todos e, sobretudo, os mais esquecidos”.

Mas para poder servir “é preciso saber ler o que está à nossa volta”. “Não basta conhecer as escrituras. Jesus aproximava-se das pessoas e alterou a sua forma de agir em função das situações que vinham ter com ele. O que os cristãos têm de se perguntar é ‘como é que eu encarno a mensagem de Jesus perante as questões de hoje?’ E as questões de hoje são o tráfico de pessoas, as guerras, os maus-tratos que fazemos do planeta…”

Outros temas como a relação da Doutrina Social da Igreja com a sinodalidade, a inexplicável negação das homílias partilhadas, a dificuldade de muitas estruturas eclesiais dialogarem e dos escassos sinais de avanços sinodais que a Igreja ofereça a quem a olha do exterior foram também abordados durante a conversa e podem ser ouvidos e vistos aqui:

 

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