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Julieta Mendes Dias, Rostos e Rumos, TSF, entrevista
Julieta Dias: "“Tenho de saber ler os evangelhos, quero ver como é que eles apontam essa mulher.”

Entrevista “Rostos e Rumos”

Irmã Julieta Mendes Dias, a freira “feminista dos pés à cabeça”

A história da Páscoa, afinal, é outra: “Devemos o fundamento da religião cristã às mulheres, foram elas que o transmitiram. E se nós hoje vivemos a fé cristã, a fé na ressurreição de que a morte não teve poder sobre Jesus, às mulheres o devemos.”

A declaração é da irmã Julieta Dias, das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, que se declara feminista “dos pés à cabeça” – mas para lutar pela não discriminação e não por qualquer supremacia em relação aos homens – em entrevista ao programa Rostos e Rumos, do 7MARGENS e da TSF.

Foi por causa da figura da mãe de Jesus que Julieta Mendes Dias se “apaixonou” por Jesus. Na adolescência e juventude, e depois já na congregação religiosa de que faz parte, ouvia as homilias das missas que, para ela, “eram uma tristeza: eu queria estudar a teologia, porque as festas de Nossa Senhora eram, para mim, uma angústia; os padres exaltavam de tal maneira Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, que [ela] era mais deusa do que mulher”, alguém que tinha tido um conjunto de privilégios e que era apontado como “modelo”.

“Mas como é que pode ser modelo, para mim, uma mulher que foi mãe, mas foi mãe de uma forma que eu não podia ser?”, perguntava-se. “Eu, querendo ser virgem, não podia ser mãe. Sendo mãe, não podia ser virgem.” Foi perante isso que decidiu: “Tenho de estudar a Sagrada Escritura, tenho de saber ler os evangelhos, porque quero ver como é que os evangelhos apontam essa mulher.” E depois de estudar teologia, a primeira investigação que fez foi sobre Maria de Nazaré a partir do texto do evangelista Lucas.

 

Maria Madalena, olhada por Jesus como ser humano

Julieta Mendes Dias, Rostos e Rumos, TSF, entrevista

Julieta Mendes Dias: “As mulheres viram que a morte não tinha engolido Jesus.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS

Maria Madalena é outra personagem bíblica que fascina Julieta Dias – publicou, com Paulo Mendes Pinto, o livro Maria Madalena, a Apóstola dos Apóstolos. “Para mim, era uma mulher que não se conformava com alguma da cultura judaica. (…) Sabemos que ela não era bem vista na Galileia, [onde] achavam que ela era possuída pelo demónio”, diz a irmã Julieta. “Só que, um dia, viu passar um homem com meia dúzia de outros atrás dele, cruzaram o olhar e ela ficou cativada com aquele olhar, porque sentiu que aquele homem a olhou não como mulher, mas como um ser humano.”

Madalena foi, com outras mulheres, fundamental nos primeiros tempos do cristianismo. “Nas primeiras comunidades, é evidente que elas, as mulheres, tiveram uma importância muitíssimo grande, porque foram elas que viram que a morte não tinha engolido Jesus, não tinha tido poder sobre Jesus”, afirma Julieta Dias na entrevista. “A Maria Madalena é a mulher que, nos quatro evangelhos, aparece sempre junto ao túmulo em que vem o ressuscitado. E, no quarto evangelho [de João], ela é mesmo a ordenada para ir congregar os discípulos dispersos.”

Tudo se passou aos pés da Sé Guarda. Julieta tinha cinco anos quando a festa da Primeira Comunhão se transformou no acontecimento maior da sua infância. Os pais porfiavam, entre si, o valor da religião. Para o pai, “ortodoxo e acrítico”, como o descreve a filha, as palavras da fé eram irrevogáveis. A mãe, que não tinha exame nenhum, “de roda da máquina de costura”, era mais tranquila e aceitava as dúvidas da filha.

Mesmo assim, preferia que a filha se casasse a meter-se num convento de freiras. Foi aos 19 anos que Julieta se decidiu pela vida religiosa. Uma tempestade de lágrimas na família – a irmã foi quem mais sofreu, já que ambas eram companheiras de brincadeiras e cúmplices na juventude.

 

“Claro que eu, com 80 anos, poderia ser ordenada”

Julieta Mendes Dias, Rostos e Rumos, TSF, entrevista, Manuel Vilas Boas

Desde há muito que os problemas sociais preocupam Julieta Mendes Dias (aqui, com Manuel Vilas Boas, num dos momentos da entrevista). Foto © António Marujo/7MARGENS

Nos anos 1960, já o Concílio Vaticano II fazia novos caminhos na Igreja Católica. O hábito tradicional das freiras entrou, então, em desuso, perante as recentes transformações da sociedade. As religiosas do Sagrado Coração de Maria, de inspiração francesa, do século XIX, abriam-se às inquietações da noviça Julieta. Durante o trajecto em que se integrou na vida religiosa, enquanto noviça, fazia “imensos teatros”, com as colegas, para o resto da comunidade.

Tomada de fascínio pela Bíblia, contra a corrente, estudou Teologia na Universidade de Salamanca e na Lusófona, em Lisboa. E se este estudo lhe deu fundamento às intuições, também lhe permitiu transformá-las em convicções. Mesmo em relação ao papel das mulheres na Igreja: “Enquanto as mulheres não puderem dizer no altar ‘isto é o meu corpo, tomei e comei, isto é o meu corpo, tomei e bebei’, de facto, não há igualdade na Igreja entre homens e mulheres.”

Por isso considera que poderia, ainda hoje, ser ordenada: “Há tantos padres que celebram com 99, 100 anos. Porque é que eu, com 80 anos, não poderia ser ordenada? Claro que podia.” E uma certeza: “Pode não ser no meu tempo de vida nesta terra, mas garanto-lhe que, quando chegar ao céu, vou fazer tal barulho [para] que o Espírito Santo venha depressa.”

Além da teologia, os problemas sociais sempre a afligiram. Integrou uma equipa de freiras que ainda se dedicam à questão do tráfico de pessoas, mesmo antes de qualquer Governo se interessar pela matéria. Na mesma linha, a sua congregação destinou uma casa que possibilita cuidados básicos a pessoas sem-abrigo, imigrantes e refugiados na cidade de Lisboa.

Julieta Dias colabora com frei Bento Domingues na publicação das crónicas que o teólogo dominicano escreve, agora, quinzenalmente, no jornal Público. Diz que foi com ele que aprendeu teologia e considera-o “o grande teólogo português”.

Musicalmente, de bem com os seus 80 anos, a irmã Julieta Dias Mendes prefere escutar Bob Dylan no imorredoiro Blowin’ In The Wind. Um tema que “retrata o momento que estamos a viver”, que fala do que ainda temos de esperar até à liberdade, até acabar com as mortes sem razão – para chegar à Páscoa do mundo…

A entrevista pode ser ouvida na íntegra na página da TSF na internet: https://www.tsf.pt/programa/rostos-e-rumos

 

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