Irmã Maia, precursora da Igreja Sinodal que desejamos

| 18 Mai 2023

Os cristãos são o rosto das pessoas que não suportam a injustiça, que se batem pela paz e levam a mensagem, o fermento do Evangelho
 (Bispo Jacques Gaillot, citado no 7MARGENS)

Ana Maia, Doroteias

Ir. Lourdes Maia, doroteia. Foto © Teresa Vasconcelos

No passado dia 12 de Abril morreu o bispo Jacques Gaillot, morte amplamente noticiada no 7MARGENS.

Também grande admiradora do bispo Gaillot, lembrei a “amizade epistolar” que eu sabia ter existido entre a irmã doroteia Maria de Lourdes da Silva Maia (1926-2019) e ele.

15 de Abril seria o dia do aniversário da Irmã Maia – morreu aos 93 anos – e foi nesse mesmo dia que iniciei a escrita deste texto. A Ir. Maia contara-nos que, conhecendo a ação deste bispo na diocese de Évreux, lhe escreveu quando o Papa João Paulo II atribuiu a Gaillot uma inexistente diocese – desde o século V – na Mauritânia, a diocese de Parténia. Desde setembro de 1935 Gaillot era dirigente da associação Droits Devant! (os direitos, primeiro).

Chamaram-lhe o “bispo das margens”. Também a Ir. Maia, de modo consistente ao longo da sua vida, fez ouvir a sua voz em defesa daqueles que viviam nas margens. Como terá sido esta amizade epistolar na vida deste Homem e desta Mulher de Deus? Mas sabíamos que a Irmã Maia, já depois de um AVC que lhe tolheu os movimentos, traduzia de francês para português e vice-versa textos de Gaillot ou da associação Droits Devant.

Quem foi afinal esta irmã doroteia com uma vida obscura e simples, sempre fiel à sua vocação de religiosa-educadora, que é o carisma das Irmãs Doroteias? Começo por dizer que ela foi verdadeiramente a minha diretora espiritual ao longo de bem mais de 50 anos. Poderão entender a dimensão da nossa fiel amizade. Funcionou, sem dúvida, como alguém na companhia de quem fui conduzindo o caminho, o meu “discernimento” enquanto mulher cristã….

A ela lhe devo ter conhecido o Graal quando, no final dos anos 60, concluí o meu curso de educadora de infância na Escola de Educadoras Paula Frassinetti, no Porto, dirigida pelas Doroteias. Antes de eu partir para a minha vida profissional, pôs-me na mão um exemplar do Boletim Igreja em Diálogo (a publicação dos tempos pós-conciliares do Movimento do Graal) e afirmou: “Talvez este movimento te interesse.” Só em 1975, quando aderi ao Movimento do Graal, entendi a importância da sua intuição.

Vou procurar falar desta religiosa extraordinária a partir de um fragmento do célebre poema de Vinicius de Morais, grande poeta brasileiro:

Era [ela] que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como pássaro sem asas
[Ela] crescia com as casas
que lhe saíam das mãos

(adaptação de Operário em Construção, de Vinicius de Morais)

 

Uma Operária em Construção

Lourdes Maia

Ir. Lourdes Maia: “Uma operária dos Evangelhos, uma apaixonada por Jesus Cristo. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Começo por dizer que a Ir. Maia foi “uma operária dos Evangelhos”, uma apaixonada por Jesus Cristo. Diria que lia, saboreava e “engolia” os Evangelhos – e, claro, toda a Bíblia – à luz da realidade do tempo presente sendo, portanto, “uma operária sempre em construção”.

Originária de uma família burguesa do Norte do país, terminou em Coimbra a licenciatura em Matemática, tendo de imediato sido convidada para ser assistente. Teria sido uma académica brilhante. Mas escolheu a vida religiosa, numa comunidade que ainda hoje tem o carisma de trabalhar na educação. Era uma ávida leitora e sempre informada do que se passava no mundo. Lia de fio a pavio o mensário de atualidade Le Monde Diplomatique .

Deu aulas de matemática em variados colégios das irmãs doroteias. Numa ocasião entrei na livraria de um aeroporto e pus-me a folhear Bilhete de Identidade (Alêtheia, 2005), o (então) recente livro de Maria Filomena Mónica e deparei-me com uma fotografia da sua turma do ensino secundário no colégio das Calvanas (Lisboa); e quem aparecia como diretora de turma? A Irmã Maia, ainda com o tradicional hábito das doroteias, no meio das suas alunas. Comprei o livro e enviei-o à Irmã Maia. Era seu hábito (diria “carisma” de educadora) manter contacto com as suas antigas alunas. Depois de lido, escreveu à Mena, como lhe chamava, referindo-me, a par de uma das suas saudáveis gargalhadas: “Ela era muito inteligente, brilhante mesmo, mas deu-nos bem que fazer!”. Não sei se a correspondência continuou.

 

Era ela que erguia casas

Lourdes Maia

A ir. Maia com a autora do texto, ambas à direita na foto: matemática brilhante, mulher cultíssima, dizia que “não sabia nada de crianças”, mas soube criar uma equipa de exceção que sabia de crianças. Foto: Direitos reservados.

 

Posso afirmar que aprendi com a Ir. Maia a ser “mulher/profissional/desdobrável” (Adélia Prado). Nesse ano de 1967 a direção da Escola de Formação tinha sido atribuída à Irmã Maia. O meu grupo de colegas (nesses tempos salazarentos, como se sabe, não podia haver educadores de infância do sexo masculino) inaugurou os quatro parcos anos em que a Ir. Maia dirigiu a Escola. A sua orientação tornou o processo formativo (equivalente a um bacharelato) num percurso altamente significativo e de grande qualidade, orientado para a ação profissional da educadora de infância. Sob sua orientação este grupo de jovens oriundas de famílias conservadoras ou da alta/média burguesia alargou horizontes culturais, religiosos e mesmo políticos. Sendo uma matemática brilhante e uma mulher cultíssima, afirmava que “não sabia nada de crianças pequenas”. Mas soube criar uma equipa de exceção que, essa, “sabia de crianças”: Ana Isabel Pindela, Dora Vigário, Eduarda Siza Vieira, Ana Garrett, Celeste e Manuela Malpique, e o reconhecido pediatra Armando Tavares, entre outros…

Logo no primeiro dia da minha entrada na escola, a Ir. Maia mostrou-me as instalações mas deteve-se sobretudo na biblioteca, chamando a minha atenção para as estantes com os livros de pedagogia e psicologia, técnicas pedagógicas, assuntos religiosos (…a sociologia, então, era banida dos currículos de formação por ser “perigosa”), dizendo: “Tudo isto é muito importante para a tua formação.” Orientou-me depois para outra estante com as obras dos grandes autores, insistindo: “Mas isto não é menos importante!” e entregou-me dois livros: “Porque não começas por aqui?” Era um romance de Graham Greene e outro de Daniel Rops, Mort, où est ta Victoire?[1]. Este último tornou-se um romance fundador da minha vida. Este breve episódio demonstra a amplitude e profundidade que esta mulher única dava ao nosso percurso de formação.

Mas algo se tornou também de radicalmente diferente naquela instituição: os estágios, predominantemente feitos em colégios particulares, passaram a incluir os bairros e lugares onde viviam as crianças mais pobres e vulneráveis dos bairros operários do Porto (apelidados de “ilhas”): o Barredo, a creche de Cedofeita, o bairro social da Fonte da Moura, a creche de S. Vicente de Paulo, só para dar alguns exemplos. Não posso descrever aqui o contexto em que fiz/fizemos o nosso estágio final. Noutra publicação aprofundo a dimensão dessa experiência[2].

Esta era a orientação da Escola de Formação durante estes anos. As futuras educadoras tinham de estar preparadas para as realidades mais difíceis, saindo das suas “zonas de conforto”. A liderança da Ir. Maia mudou por completo a orientação da Escola: a Ir. Maia era claramente “contra a situação” (como então se dizia), chegando a organizar campos de trabalho em zonas rurais para que pudéssemos aprender o que era a “vida real”. Isto passava-se no final dos anos 60! Nas aulas de Religião orientadas por ela, estudávamos os documentos do Concílio Vaticano II. Encantava-se a ouvir as baladas do Adriano Correia de Oliveira. Na altura o assistente da JUC, hoje bispo D. Januário Torgal Ferreira, presidiu a diversas celebrações em que fazíamos homilias “dialogadas”. O José Augusto Pereira Neto (hoje inspetor superior aposentado) deu-nos aulas no 3º ano sobre “Análise Social das Situações e Instituições Educativas” (creio ser esse o nome) e o padre jesuíta Roque Cabral (um homem santo!) orientou-nos em dois ou três retiros.

A orientação da Escola tornou-se explosiva para algumas das famílias conservadoras, muito católicas, que insistiram no afastamento da nossa querida Ir. Maia. Foi um profundo desgosto desta notável Mulher. O seu grande projeto de formação foi interrompido. Não seria verdadeira se não dissesse que ela saiu, também para alívio de algumas irmãs doroteias… (como em todas as comunidades isto pode acontecer…)

 

Crescia com as casas que lhe saíam das mãos

Lourdes Maia

Fotos do Colégio Nossa Senhora da Paz, uma das instituições que Lourdes Maia dirigiu. Fotos reproduzidas da página digital da escola.

 

Descrevi com mais pormenor a “Casa de formação de educadoras” que ela ajudou a erguer. Mas a Ir. Maia não era mulher de desistir por muito que “lhe cortassem as asas”. Era uma mulher enraizada em Cristo.

Depois da passagem por um outro Colégio, fundou uma das primeiras comunidades bem rurais na zona de Vila Pouca de Aguiar, na aldeia de Telões. Era uma comunidade pequena de três ou quatro irmãs e viviam numa casa semelhante às casas da população. Vida frugal, assumindo as condições de vida da população. A Ir. Maia sustentava a comunidade dando aulas na Escola do então Ciclo Preparatório [5º e 6º ano] mais próxima enquanto as outras irmãs prestavam serviços diversos à população. À noite trabalhavam em alfabetização de adultos segundo a pedagogia de Paulo Freire… Aos domingos davam catequese e formavam catequistas com o total apoio do pároco.

Depois de passar alguns anos a dirigir o Colégio de Nossa Senhora da Paz (Porto) formou um pequeno gabinete-delegação Norte da Civitas, Associação de Defesa e Promoção dos Direitos dos Cidadãos, fundada em 1989 por Helena Cidade Moura (ex-deputada pelo MDP/CDE à Assembleia da República e, sobretudo, uma grande cidadã, política, mulher de cultura e poeta). A delegação do Porto optou por apoiar e encaminhar migrantes recém-chegados a Portugal (vindos de todas as ex-colónias, até de Timor-Leste…), oferecendo aulas de português e iniciando-os na cultura do nosso país, encaminhando-os depois para possíveis postos de trabalho, ou preparando-os para os exames, desde o 4.º ano ao 12.º ano. Por esta ação cívica, pela sua ação em prol da educação de adultos, a Ir. Maria de Lourdes Maia foi condecorada pelo Presente da República Jorge Sampaio.

 

Uma operária de almas 

Um grave AVC que afetou profundamente a sua capacidade de se movimentar, mas – Deus é Grande -, não lhe afetou a capacidade de ler e falar, apenas sofreu a paralisia de um dos braços e toda a restante mobilidade. Foi acolhida numa secção de irmãs idosas no Colégio do Sardão (Vila Nova de Gaia), onde lhe atribuíram um pequeno gabinete. Da sua simples secretária ela contemplava o lindíssimo jardim semeado de camélias. Lia e escrevia com o apoio de uma pedra para segurar as folhas dos livros e o papel onde escrevia, uma vez que só podia usar o braço direito. Foi tratada com um imenso carinho pelas irmãs da sua comunidade. Um dia, quando fui visitá-la, uma irmã bem idosa que me abriu a porta disse-me: “Ah, é uma antiga aluna que vem visitar a Irmã Maia? Ela faz um apostolado tão bonito a cuidar e a escrever às antigas alunas!” Tinha toda a razão!

Enquanto pôde, comunicava com as alunas com quem tinha conseguido manter contacto, escrevendo uma carta anual contando o que ia fazendo (enquanto pôde usou o computador, depois fazia-o à mão). Essa carta de notícias foi diminuindo em reconto de atividades dadas as suas limitações físicas, mas levava sempre dentro um poema que as irmãs doroteias mandavam imprimir numa pagela. Entre tantos outros poemas que sabemos que escreveu, este poema era sempre o seu poema-mensagem que recebíamos pelo Natal. Ano a ano! Mesmo tão diminuída fisicamente – duas das suas ex-alunas escreviam as moradas nos envelopes – ela nunca abandonou a sua missão de “operária de almas”.

 

Como um pássaro sem asas

Raízes

Lourdes Maia era uma mulher cristã de Raiz. Foto © José Centeio

 

A Irmã Maria de Lourdes Maia foi uma grande operária de Cristo-Jesus. Mas também construtora de liberdade, de educação e de fidelidade à sua congregação. Como afirma Flannery O’Connor no seu Livro de Preces: “Não quero ter medo da exclusão, quero amar a pertença.” Ela foi pássaro a quem voltaram sempre a crescer “as asas da pertença”.

Esta Mulher de Esperança, esta discreta e bem pouco visível profeta, ter-se-ia sentido bem feliz em viver os anos do pontificado do Papa Francisco. Talvez também, como fez com o bispo Gaillot, tivesse a “ousadia” de escrever ao Papa, apoiando-o, rezando por ele ou… ousando dar-lhe alguns sábios conselhos!

Uma amiga alertou-me para as importantes interpelações do Papa Francisco ao povo húngaro, um povo de tão profundas raízes cristãs:

“Ainda hoje a liberdade está ameaçada. (…) Como? Sobretudo com as luvas brancas, com um consumismo que anestesia, com as pessoas [que]se contentam com um pouco de bem-estar material e, esquecendo o passado, “flutuam” num presente feito à medida do indivíduo (…). Esta é a perseguição perigosa da mundanidade levada adiante pelo consumismo. Mas quando a única coisa que conta é pensar em si mesmo e fazer o que bem entender, as raízes sufocam.”

Mulher Cristã de Raiz, a Irmã Maria de Lourdes Maia entrou em 2019 na plenitude de Deus. Mas, se a conheci bem como “operária de almas”, ainda nos sopra ao ouvido, através do Espírito Santo, algumas coisas que precisamos de ouvir para continuarmos a crescer humana e espiritualmente.

Termino com um seu poema:

 

O Teu Rosto

Pensei que Te encontrava
na estrela da manhã
a apontar mais além
de tudo o que os meus sentidos
podiam vislumbrar
de sonho e de beleza.

E procurei sem descansar,
dia após dia,
ano após ano,
mas sempre o rasto dos Teus passos
me conduzia
para outro lugar.

Um dia,
sentada numas pedras do caminho,
vi passar multidões
que me chamaram.
Mergulhei no seu seio
e acolhi dentro de mim
os risos e os clamores
as mágoas e as esperanças.

E, de repente,
vi desenharem-se os traços do Teu Rosto
a partir dos mil rostos de homens e mulheres,
um Rosto imenso onde cabia o Mundo!
(mlm – Novembro de 96)

 

[1] “Morte, onde está tua Vitória?”
[2] Vasconcelos, T. (2018). I Viagens de uma Viajante: Ecos da vida de uma Educadora-Cidadã. Lisboa: Colibri

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito.

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Estão de regresso as sessões de literacia financeira para crianças e jovens, promovidas pela Sol sem Fronteiras, ONGD ligada aos Missionários Espiritanos, em parceria com o Oney Bank. Destinadas a turmas a partir do 3º ano até ao secundário, as sessões podem ser presencias (em escolas na região da grande Lisboa e Vale do Tejo) e em modo online no resto do país.

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