
Nascido em 1915, o suíço Roger Schutz fundou a comunidade monástica de Taizé. Foto: Direitos reservados
Há vinte anos, no dia 26 de Dezembro, um tsunami assolou o Extremo Oriente, provocando a morte de pelo menos 227 mil pessoas em países como a Tailândia, Indonésia, Malásia, Índia, Myanmar, Bangladesh, Sri Lanka ou Maldivas. A tragédia marcou profundamente os cerca de 40 mil jovens que, vindos de Portugal e do resto da Europa, chegavam a Lisboa convocados pelos irmãos de Taizé, para o encontro europeu que se iniciaria dia 28. No dia 27, véspera do início do encontro, entrevistei para o Público o irmão Roger, fundador e prior da comunidade ecuménica de monges. É essa entrevista que, como memória do acontecimento de Lisboa e no momento em que se inicia o 47º Encontro Europeu de Taizé em Tallinn, aqui se reproduz a seguir, na versão entretanto publicada no livro Deus Vem a Público – que inclui também excertos de uma outra feita em Agosto de 1990, quando se assinalavam 50 anos da comunidade.
O seu rosto é a expressão do ancião, onde bebemos a sabedoria adquirida. É ele que, antes de nos sentarmos, traz um termo com chá e uma lata de biscoitos. No quarto, há um divã, uma lareira, uma pequena mesa de trabalho. Num dos cantos, um ícone e algumas flores fazem o pequeno oratório do irmão Roger, prior de Taizé. Ao lado, uma placa onde estão fixados cartões e pequenas mensagens recebidas. A conversa é feita de palavras e silêncios. Suspende algumas frases na busca da expressão certa. Enquanto pensa, o rosto adquire olhares diferentes até à exclamação seguinte, que antecede sempre algumas palavras-chave: a reconciliação, a coragem de lutar, a vida em comum.
Nascido em 1915, o suíço Roger Schutz fundou a comunidade monástica de Taizé, pequena aldeia da Borgonha (França), em 1940, quando se dirigiu para a aldeia e começou por acolher pessoas que fugiam dos nazis e da França ocupada. “A confiança em Deus não ignora os sofrimentos de tantos necessitados através do mundo”, diz. “Uma paz mundial é essencial para que o sofrimento seja aliviado”, mas alerta para “o crescimento da pobreza no mundo”, que “é fonte de novos conflitos”.
Em Dezembro de 2004, o irmão Roger presidiu em Lisboa ao último Encontro Europeu de Jovens promovido pela sua comunidade como parte da Peregrinação de Confiança sobre a Terra. A 16 de Agosto seguinte seria morto, em plena Igreja da Reconciliação, em Taizé, por uma mulher perturbada. A entrevista dada ao Público foi, assim, uma das últimas que concedeu.
Recordava com frequência o exemplo da mãe e da avó, que lhe inspiraram a vontade de reconciliação entre os cristãos: “É urgente, não podemos permanecer divididos.” Na comunidade que fundou, vivem cerca de uma centena de monges católicos e protestantes. Taizé, insistia, não queria um movimento de jovens à sua volta, mas antes que cada um viva “o evangelho no sítio onde habita”.
Dos seus múltiplos escritos, entre os quais se incluem as cartas anuais para reflexão dos jovens, estão publicados em português Oração: Frescura de Uma Fonte (com Madre Teresa de Calcutá, edição AO), O Seu Amor é um Fogo (Paulinas), Viver em Tudo a Paz do Coração (Paulinas) e Deus só Pode Amar (Gráfica de Coimbra). Sobre o irmão Roger e Taizé, estão publicados três títulos fundamentais: A Vida do Irmão Roger (Kathryn Spink, edição AO), Irmão Roger de Taizé (Christian Feldmann, Paulus) e Taizé Um Sentido para a Vida (Olivier Clément, Paulus).
“Os primeiros tempos, aqui em Taizé, mostraram-me que o sofrimento poderia ser muito cruel e vi-me confrontado com dificuldades muito duras.”
Tudo começou, aqui em Taizé, em 1940. Que sentimentos recorda, após este tempo?
IRMÃO ROGER – Esse 21 de Agosto de 1940 parece-me ainda tão próximo! Não ouso dizer que acabo de chegar, mas não estou muito longe disso. Logo de início, descobri que era importante acolher, mesmo sozinho, as pessoas necessitadas. E, nessa altura, os que me apareceram eram os perseguidos da guerra, que vinham da região ocupada da França para esta região [da Borgonha], não ocupada. Eu desejava tudo fazer por eles, para que não fossem descobertos.
Do meu lado, foi importante perceber o sofrimento dos inocentes. Eu sabia o que isso era, pela experiência da minha juventude, pois tive uma tuberculose, durante muito tempo. Foi tão grave, que acreditei que não iria resistir. Aproveitei para reflectir muito sobre a vida em comum, para ler bastante, procurando conhecer a história das vocações das comunidades. Mas os primeiros tempos, aqui em Taizé, mostraram-me que o sofrimento poderia ser muito cruel e vi-me confrontado com dificuldades muito duras, muito reais. Comecei a rezar, então, três vezes por dia, sozinho, num pequeno oratório…
A vocação de Taizé continua essencial para o cristianismo?
Não sou eu quem o pode dizer! Mas a minha idade avançada permite-me contar uma experiência pessoal. Na juventude, fiquei anos imobilizado, por duas vezes, com essa tuberculose pulmonar. Tive tempo para ler, meditar e descobrir o apelo de Deus: uma vocação que pudesse durar toda a vida. Esses anos de doença permitiram-me compreender, pouco a pouco, que a fonte da felicidade não estava nas grandes facilidades, mas na humilde dádiva de si, para compreender os outros com a bondade do coração.
Nessa época, reflecti bastante sobre a solidão. Uma pergunta voltava sempre a impor-se: porque é que os cristãos, referindo-se a um Deus de amor, têm uma tal necessidade de justificar aquilo que os opõe? E dentro de mim cresceu uma certeza: era essencial criar uma comunidade onde dar toda a nossa vida, e onde procurar exprimir, antes de mais pela vida e também pela reflexão, o apelo do evangelho à reconciliação. No fundo, trata-se de começar por concretizar este apelo na vida quotidiana.
Depois de 1940, quando eu ainda estava sozinho em Taizé e acolhia pessoas que procuravam um refúgio [judeus e outros perseguidos pelos nazis], ficou claro que haveria sempre, na vocação da comunidade, estas duas aspirações: sustentar uma vida interior através da oração pessoal e da beleza de uma oração em comum, e assumir responsabilidades para tornar a Terra mais habitável. Estas aspirações continuam presentes e, com os meus irmãos, gostamos de procurar, de nos interrogar.

O irmão Roger numa das orações do encontro de Lisboa: “Em 1942, os refugiados tinham acabado. E então perguntámos: onde estão, quem são os mais pobres?” Foto © Taizé
Acolher o sofrimento das pessoas continua a ser uma das vocações de Taizé?
Em 1942, passei algum tempo na Suíça. Regressei depois com alguns irmãos. Os refugiados tinham acabado. E então perguntámos: onde estão, quem são os mais pobres? E descobrimos as crianças abandonadas, vítimas da guerra. Eu tinha sete irmãs, todas casadas, menos uma, que renunciou a casar, para acolher e proteger as crianças abandonadas.
A tradição monástica não existia nas Igrejas da Reforma. Porque decidiu iniciar essa experiência?
Na minha juventude, eu tinha a intuição de que era preciso assumir o risco de criar uma vida comum, sempre com a mesma intenção: viver em comunidade para a vida inteira, realizar com alguns esta busca quotidiana que é a de se reconciliar todos os dias, uma comunidade com um número restrito de homens, mas de homens capazes de assumir um risco para a sua vida.
Parece-me que a vocação de reconciliação deve começar por se concretizar, cada dia, entre nós. Através do perdão, com os irmãos da comunidade, mas também ligando a reconciliação, todos os dias, ao acolhimento dos mais pobres.
Também a reconciliação entre os cristãos?
Não somos nós que podemos fazer muita coisa. Certamente que ela chegará, mas não seremos nós a fazer muito.
Mas foi essa uma das suas grandes intuições, no início, com a influência que recebeu da sua avó.
Sim, a minha avó tentou e conseguiu comunicar-me o que a preocupava tanto: a divisão dos cristãos na Europa. Se os cristãos não conseguissem reconciliar-se, dizia ela, haveria uma nova guerra. E, para concretizar um gesto muito pessoal, ela, que era de origem protestante, chegava a ir à paróquia católica. Ela marcou muito, muito, a minha vida. Penso nisso todos os dias.
Depois da [Grande] Guerra [1914-18], a minha avó foi muito tocada pela criação da Sociedade das Nações, em Genebra. Criando-se a SDN, ela achava que os cristãos, reconciliados, poderiam ser artífices da reconciliação.
Em Roma, num encontro europeu de jovens, o Irmão Roger disse ter reconciliado, no seu interior, a fé das suas origens com a fé da Igreja Católica…
Tento, dispondo-me todos os dias a confiar no mistério da fé. A fé das minhas origens é a da minha avó e da minha mãe, também. A minha avó deve ter-me transmitido, desde a infância, uma alma católica, enquanto a minha mãe reteve da minha avó a capacidade de saber escutar.
“Estamos a passar por uma época de procura de identidade e as pessoas colocam-se numa atitude defensiva. Nessa atitude, onde fica o Cristo, que é amor?…”
Sente-se que renascem formas de intolerância, entre os cristãos e entre os povos. O que é que diria, a esse propósito, aos jovens que aqui acorrem a Taizé?
É verdade que, por toda a parte, isso se verifica. Não é só entre os cristãos, mas entre os crentes, também de outras religiões. Estamos a passar por uma época de procura de identidade e as pessoas colocam-se numa atitude defensiva. Nessa atitude, onde fica o Cristo, que é amor?…
A reconciliação dos cristãos continua, então, como o grande desafio de Taizé aos jovens?
Não se fala muito de ecumenismo em Taizé. Isso é uma nobre vocação de cada cristão. Não podemos fazer um uso demasiado fácil dessa bela expressão. Ecumenismo quer dizer, em grego, construir um barco em conjunto, é uma boa expressão para significar a tarefa da Igreja.
Todos os álibis, todos os belos discursos, que prolongam a separação são prejudiciais. Desde os primeiros tempos que tentamos, na comunidade, concretizar dia após dia a reconciliação. Concretizar, não viver de teorias.
Pode dizer-se que Taizé está antes do ecumenismo? Sente-se aqui a Igreja como ela era antes de se dividir?
Oh! Não sei. Taizé é uma comunidade que avança, que caminha, que ama, que quer todos os dias estar pronta para o perdão. Tentamos captar bem o sentido da palavra de S. Paulo: na vida dos cristãos, o essencial é a caridade viva. É o espanto do amor, vivido permanentemente. É o combate interior, que se descobre, e que é o mesmo para o jovem ou o idoso.
Além do papel que tiveram a sua avó e a sua mãe, como se sentiu sensibilizado para este desafio da reconciliação dos cristãos.?
Os cristãos rezam todos a um mesmo Deus de amor. Como é possível que por vezes eles utilizem tantas energias para se oporem? Pus-me esta questão desde a minha juventude. E cheguei ao ponto de me dizer a mim mesmo: tenta o impossível para que se crie uma comunidade de homens na qual se procure viver em comunhão, na bondade do coração e no perdão. Foi assim que começou a comunidade de Taizé.
Hoje, as separações entre cristãos, muito antigas ou actuais, levantam uma interrogação mais urgente do que nunca. Restabelecer uma comunhão não pode ser constantemente adiado para mais tarde, até ao fim dos tempos. Se todos pudessem deixar despertar neles um desejo ardente de viver em comunhão…

Uma das orações durante o encontro europeu de jovens, em Lisboa, promovido pela Comunidade de Taizé, em Dezembro de 2004: “É especialmente através da oração em comum que se cria uma comunhão com Deus.” Foto © Taizé
Esse apelo à reconciliação, também entre os cristãos, está perante um momento de desencanto ecuménico. Escreveu que é necessário “tudo fazer para viver em comunhão”, no que se refere às igrejas. Por onde começar?
O ecumenismo provocou diálogos e intercâmbios notáveis. Mas permanece, hoje, amanhã e sempre, a palavra de Cristo no seu evangelho: “Vai primeiro reconciliar-te.” “Vai primeiro” e não “Deixa-o para mais tarde”. À força de relegar a reconciliação para mais tarde, o ecumenismo, sem se dar conta, está a perder fôlego e a manter esperanças ilusórias.
Em vez de ficarmos desanimados, é importante recordar que a comunhão em Cristo é como um sopro que atravessa a nossa noite. Comprometemo-nos desde já a tudo fazer para que este sopro de comunhão passe de uns para os outros?
Que resposta a essa pergunta?
É especialmente através da oração em comum que se cria uma comunhão com Deus. E a beleza do canto é um suporte insubstituível para que cresça em nós o desejo de Deus. Saberão muitos jovens encontrar-se para rezar em comum e ler uma palavra do evangelho?
A comunhão com Deus, longe de ser uma realidade passageira, atravessa toda a existência. Alarga os nossos horizontes e interpela-nos sobre as situações humanas actuais. Diante do crescimento da pobreza no mundo, poderemos ficar indiferentes às guerras que, passados tantos anos, persistem em certas regiões? Quando os cristãos mantêm uma grande simplicidade e uma infinita bondade do coração, são levados a curar os sofrimentos humanos.
Outra das intuições que marcou o início de Taizé foi a procura da paz. Sente que os jovens são sensíveis a essa intuição, apesar das guerras e do desencanto europeu?
Se realizamos uma peregrinação de confiança através da Terra com jovens de todos os continentes, da qual o encontro de Lisboa é uma etapa, é justamente porque estamos conscientes com eles da urgência da paz. Uma paz mundial é essencial para que o sofrimento seja aliviado, e para que as crianças que nascem não conheçam a angústia e a insegurança.
Muitos jovens, através da terra, trazem consigo uma sede de paz, de comunhão. Eles estão atentos à insondável dor dos inocentes, eles não ignoram, em particular, o crescimento da pobreza no mundo, fonte de novos conflitos.
“Todos os discursos que prolongam a separação dos cristãos são prejudiciais”
Os jovens têm um papel específico nesse processo?
Eles sabem que não são somente os responsáveis dos povos que constroem o futuro. O mais humilde dos mais humildes pode contribuir para construir um futuro de paz e de confiança. Nós podemos contribuir para a paz na medida em que procurarmos responder, com a nossa vida, a estas questões: Posso tornar-me portador de confiança onde vivo? Estou disposto a compreender os outros sempre melhor?
Quando os jovens, e também os menos jovens, tomam assim uma decisão interior pela paz e pela confiança, conseguem fazer da sua vida uma luz que ilumina à sua volta.
A sua vida é o testemunho da fé como uma “confiança muito simples em Deus”, como escreve na carta “Um futuro de paz”. Na sua opinião, as jovens gerações estão igualmente abertas a esta confiança muito simples em Deus?
Na minha juventude, nesse período em que havia tantas feridas, eu interrogava-me: por que razão estas oposições entre os humanos? E perguntava-me: existe um caminho para conseguir compreender o outro, numa confiança recíproca?
Num dia que posso datar, na luz coada duma tarde de fim de Verão, eu disse-me: começa por ti mesmo, empenha-te em compreender, em confiar, e em não fazer juízos severos, procura compreender mais do que ser compreendido. Nesse dia, tive a esperança de que esta resolução valeria para sempre.
Perante a fome, a pobreza, os refugiados, acredita que os jovens são mais sensíveis a uma vida de partilha e de pequenos gestos pessoais que podem ajudar outros a ter uma vida mais feliz?
Neste período da história, o Evangelho convida-nos a amar e a dizê-lo com a nossa vida. É a nossa vida que, antes de mais, torna credível a fé à nossa volta. Há certos jovens, por exemplo, que fazem esta descoberta: com o objectivo de preparar humildes caminhos de paz, são levados a simplificar a sua vida com vista a uma partilha com os mais necessitados.

Eucaristia final presidida pelo patriarca de Lisboa, José Policarpo, do encontro de Taizé, em 2 de Janeiro de 2005, no Mosteiro dos Jerónimos. Foto © Jorge Paula
Como nasceu o modo de rezar de Taizé, que “não afasta das preocupações do mundo” e atrai tantos jovens?
Em Taizé ou na altura dos encontros nos diversos continentes, descobrimos que uma oração comum cantada em conjunto conduz a deixar crescer em si próprio o desejo de Deus e entrar numa oração contemplativa. Se para alguns a oração na solidão é árdua, a beleza de uma oração comum cantada, mesmo a dois ou a três, é um suporte incomparável da vida interior. Através de palavras simples, cânticos longamente retomados, ela pode irradiar uma alegria.
Numa tal oração, é possível tudo confiar a Deus, tudo entregar ao Espírito Santo. Na oração, é Deus quem primeiro nos procura. Podemos estar tranquilos: foi ele que nos amou primeiro e infatigavelmente nos procura.
Esta oração não faz esquecer os problemas do mundo?
Quem se mantém na presença de Deus numa expectativa orante pode oferecer uma insondável esperança para o futuro da humanidade. E como? Quanto mais se vive uma oração muito simples e muito humilde, tanto mais nos tornamos atentos àqueles que nos rodeiam.
Um crente que reza torna-se um reflexo de Deus que não pode senão amar. Um crente que reza é levado a amar e a expressá-lo pela sua vida. A oração não afasta das preocupações do mundo de hoje. Pelo contrário, a oração torna ainda mais responsável. Nada é mais responsável do que rezar.
Quais as metas mais importantes que a “peregrinação de confiança na Terra” permitiu alcançar?
Aos jovens, põe-se com frequência uma pergunta: há realidades que tornam a vida bela e das quais podemos dizer que nos trazem plenitude? Há. E uma dessas realidades chama-se confiança. Não é com simples confiança que se constrói o melhor das nossas vidas? Até uma criança o consegue entender e viver. É por isso que todos os encontros que preparamos são como etapas do que chamamos uma peregrinação de confiança na Terra…
Hoje, com os jovens, por vezes interrogamo-nos: existem realidades que tornem a vida bela e das quais possamos dizer que trazem uma plenitude, uma alegria interior? Sim, existem. E uma dessas realidades chama-se precisamente confiança.

O irmão Roger de Taizé, à saída do Mosteiro dos Jerónimos, no final da missa de dia 2 de Janeiro de 2005, depois de terminado o encontro de jovens em Lisboa. Foto © Jorge Paula
Confiança é uma palavra-chave?
A confiança em Deus não ignora os sofrimentos de tantos necessitados através do mundo. Em vez de fugir das responsabilidades, a confiança possibilita manter-se de pé, onde as sociedades humanas são abaladas. Ela permite avançar mesmo quando surge o fracasso.
Em vastas regiões do mundo, os jovens caem no desânimo. O futuro parece-lhes tão incerto… Outros, foram marcados, desde a infância, por rupturas afectivas à sua volta. Ao vermos tantos rostos jovens na colina de Taizé – não apenas nórdicos, eslavos ou mediterrânicos, mas também africanos, asiáticos e latino-americanos –, compreendemos que eles trazem interrogações vitais: “Há um futuro possível? Como encontrar em Deus um sentido para a minha vida?” Alguns perguntam-se: “Como descobrir o apelo que Deus me faz?”
Esse apelo passa por alargar a experiência de Taizé?
Não criamos um movimento de jovens à volta de Taizé, antes lhes sugerimos que vivam o evangelho no sítio onde habitam, mesmo que dele pouco tenham apreendido. Para eles, desejamos ser homens que sabem ouvir, nunca mestres espirituais.
Com todos os que acolhemos, seja em Taizé, seja nas nossas fraternidades de irmãos a viver entre os pobres em diversas partes do mundo, seja ainda por ocasião dos encontros europeus, o que desejamos acima de tudo é chegar às fontes da fé.
“Deus quer-nos felizes”, mas sem ser indiferentes ao sofrimento dos outros, como escreve na carta “Pressentes um chamamento à felicidade?”. Depois de ter vivido tantas experiências junto dos mais pobres, que caminhos de solidariedade propõe aos jovens?
A confiança em Deus não ignora o sofrimento de tantos marginalizados da Terra, os que não têm trabalho ou nada de que se alimentar. Estes desafios interpelam-nos: como ser um daqueles que, apoiados por uma vida de comunhão em Deus, assumem responsabilidades e procuram, com outros, aliviar os sofrimentos humanos?
Longe de fugir às responsabilidades, a confiança em Deus permite mantermo-nos nos sítios onde as sociedades humanas estão abaladas ou desunidas, assumir riscos, avançar mesmo quando se desfalece.
São tantos os jovens cristãos, por esse mundo fora, que procuram curar as feridas da família humana… A confiança deles pode tornar bela a vida à sua volta. Saberão que, sem se darem conta, a esperança brilha dentro deles?
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