Irritações e sol na cara

| 29 Mai 2024

Dias Perfeitos

“Pode acontecer todos os dias, mas abrir a porta e sair para o “meio do mundo, para o meio da vida” pode ser notado, até apreciado. Sentir os pés no chão. Estou aqui.” Imagem promocional do filme “Dias Perfeitos”, de Wim Wenders.

Assisti ao filme do Wim Wenders “Dias Perfeitos”. A imagem que ficou foi a da personagem principal a sair de casa e olhar para cima. Todos os dias. Um sorriso discreto de início de dia. Sol ou chuva. Um momento.

Lembrei-me de uma entrevista recente, em que o Miguel Vale de Almeida dizia que gosta muito de caminhar na cidade, que olha em todas as direcções, menos para as pessoas. No metro em Berlim, nas paragens de autocarro, nos tempos de espera, já se sabe, ninguém olha, ninguém repara. Cabeças baixas (ao telemóvel), desligadas do corpo, do lugar. O corpo não sentirá a falta de outras texturas, outras temperaturas, outros movimentos? Como fica a cabeça, como ficam os olhos, sem pasmar, alhear, divagar?

Pode acontecer todos os dias, mas abrir a porta e sair para o “meio do mundo, para o meio da vida” pode ser notado, até apreciado. Sentir os pés no chão. Estou aqui. Entrar no trabalho de ombros direitos, passos firmes, dispostos à delicadeza. Cheguei. Há quatro anos que entro no hospital e digo “Guten morgen M.”, que àquela hora distribui os pequenos-almoços na enfermaria. A M. está gravemente doente e eu sinto horrivelmente a falta do seu “Guten morgen, Ines”. Um bem-querer que espero que lhe chegue de alguma forma.

Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca. Sou sensível a isso, tenho na minha massa muitos ingredientes atreitos a isso. Tudo isso é muito contagioso. Como os pais que só dizem mal da escola e nem percebem como isso se cola aos filhos. Como os casais que se comportam como “duas pedras ásperas”, expressão da minha avó.

É preciso reparar para reparar, como também se dizia naquela entrevista. Reparar: notar, examinar, ver. E… Reparar: melhorar, consertar, restaurar, restabelecer. O português é mesmo uma língua maravilhosa.

Esta é uma das razões que me entristece, ao ver como se quer fazer as crianças crescer rapidamente. Vestimo-las de crescidas, afastamo-las dos brinquedos, ensinamos maneirismos dos adultos, damos-lhes as tecnologias, explicamos umas verdades. Ficam mais quietas, que crescidas. Tiramos-lhes o espanto, a capacidade do estar aqui no agora.

Uma pequena casa, janelas grandes, livros, plantas e música. Um emprego que não se imaginou, que se faz com rigor e exigência. Sentido de justiça. Quase sem palavras. Poucas respostas. A capacidade de sair de casa e tirar uns segundos para contemplar o céu do dia a nascer. Tirar fotos à copa das mesmas árvores. Um sentido de tranquilidade. O amor, o amor sempre a baralhar, a desarrumar, a fazer-nos brincar. A arte a contar histórias sobre nós, sobre mim. Um certo desajuste. Uma comoção feliz, curiosamente também referida na entrevista. Não falaram do filme, mas da música “Perfect Day” do Lou Reed. Ouçam e tenham um bom dia.

 

Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.

 

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

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Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja

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O patriarca de Lisboa, Rui Valério, escreveu uma carta a convocar “todos – sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos” da diocese para estarem presentes naquele que será o “momento raro da ordenação episcopal de dois presbíteros”. A ordenação dos novos bispos auxiliares de Lisboa, Nuno Isidro e Alexandre Palma, está marcada para o próximo dia 21 de julho, às 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos).

O exemplo de Maria João Sande Lemos

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Se há exemplo de ativismo religioso e cívico enquanto impulso permanente em prol da solidariedade, da dignidade humana e das boas causas é o de Maria João Sande Lemos (1938-2024), que há pouco nos deixou. Conheci-a, por razões familiares, antes de nos encontrarmos no então PPD, sempre com o mesmo espírito de entrega total. [Texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

“Sempre pensei envelhecer como queria viver”

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O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo nono depoimento do total de vinte e cinco. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

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