Isabel Correia: “As pessoas cheias de dinheiro e de poder estão atoladas de medo”

7 Set 19Casa Comum, Espiritualidades, Newsletter, Outras Religiões, Pessoas - homepage, Últimas

Isabel Correia: “Estamos profundamente interligados, somos fluxos de relações, e não entidades fixas e sólidas e independentes.” Foto: Direotos reservados

 

“Ainda que a verdade da extinção à nossa frente seja um choque terrível, tem o potencial de acelerar o nosso despertar coletivo, dando poder a uma profunda transformação de nós próprios e do mundo. Nós somos a mudança. Nós somos aqueles de que estávamos à espera.” As palavras de Joana Macy animam Isabel Correia e o grupo Meditação em Acção, que vem dinamizando a “Meditação pela Terra” em Lisboa e tem levado a prática da meditação às manifestações da greve estudantil pelo clima. Mãe, artista, ativista, budista, Isabel Correia partilha, nesta conversa com o 7MARGENS, o seu percurso e o seu propósito: “Juntar o dharma, a ecologia e a arte.”

 

7M – Que talentos tens desenvolvido e posto em prática na tua vida?

Isabel Correia (I.C.) – Sou artista e professora de desenho. Estou interessada na questão da perceção, de ver a realidade tal como ela é. Sou praticante budista há 18 anos. A questão do autoconhecimento, da busca da liberdade é central na minha vida. Tenho dado muitas palestras, fui guia no Museu do Oriente. Também ajudei a criar uma escola de pais, onde era professora de desenho.

Nos últimos dois anos desenvolvi o projeto Upaya Ambiente, ligado ao Centro Upaya, um centro de meditação budista, mindfulness, yoga e outras metodologias que sirvam para o cultivo de uma vida consciente. Nasceu de um impulso de fazer alguma coisa, não fazer só “ecologia caseira”, mas envolver-me mais no ativismo, em organizações coletivas. Temos mostrado filmes e dinamizado debates. Fui conhecendo imensos movimentos, como a Transição. Apercebo-me de que as pessoas querem fazer coisas, mas não sabem como.

Gosto muito de participar em eco-encontros, nas manifestações pelo clima, defender a petição do reconhecimento dos direitos da natureza.

 

7M – Que coisas te entristecem ou revoltam no mundo à tua volta?

I.C. – As causas primeiríssimas de todas as crises que estamos a viver, ecológica, económica e social são a ganância, o egoísmo e o autocentrismo. Sendo budista, isto é a condição do ser humano que está condicionado – passe a redundância. O egoísmo, o desejo possessivo, que depois leva à raiva e à agressividade, é fruto da ignorância da nossa natureza, que é profundamente interdependente e impermanente, e sem a solidez que nós damos. O que me entristece é esta ignorância. Mas também reconheço que estou nela. Todos estamos. Mas há pessoas com um nível muito grande de egoísmo e cegueira em relação ao outro e àquilo de que o outro precisa, e em relação ao todo…

Mesmo os grande detentores de poder e capital do mundo acabam por ser vítimas da sua própria armadilha. Se o mundo vai ruir, eles, por mais protegidos que estejam, vão sempre cair. Por exemplo, este protecionismo exagerado dos países, que estão a ficar extremados na direita – é fruto dum medo profundo. Medo é um sofrimento enorme. Essas pessoas cheias de capital, de dinheiro, de poder, estão completamente atoladas de medo.

A indiferença perante o sofrimento do outro é revoltante. Mas vejo que também eu sou. Tantas vezes passo por situações de grande dificuldade à minha volta, e a pessoa não quer ver. A negação é uma das características mais evidentes no ser humano. E também em relação às alterações climáticas.

 

7M – A negação é mesmo uma das características mais evidentes no ser humano?…

I.C. – Nós, seres humanos, estamos em negação com a nossa própria morte, que é o tema que mais afastamos e com o qual não nos queremos confrontar, na sociedade contemporânea ocidental. Não lidamos com a morte duma forma saudável, nem pacífica, nem sequer cultivamos a preparação para a morte.

Muitas tradições religiosas ou espirituais têm práticas que vão nesse sentido. Se nós não lidamos com isso, como é que vamos lidar com a morte coletiva, massiva, de todos os seres humanos? Não vamos. Negamos, ou entramos em raiva ou desespero, desistência, resignação: “Eu sou pequeno demais, eu não consigo, isto é demais”.

 

7M – Esse teu ânimo de fazer coisas de onde vem?

I.C. – Foram dois anos muito intensos no Upaya Ambiente, não fazia praticamente mais nada. O meu coração estava ali. O sentido de urgência deu-me muita adrenalina. Muitas pessoas vão-se abaixo, e eu senti-me assim com um gás… Parecia uma marionete a ser guiada por alguma coisa. Mas acho que vem do medo. Quando estamos com a nossa vida em perigo… E com o acrescento de que fui mãe há cinco anos. Se não tivesse filhos, talvez este sentido de urgência não se intensificasse. É a questão de ter uma geração a seguir que não tem futuro. Entro em empatia não só pelo meu filho, mas por todas as pessoas que têm filhos. E pensar que eles se calhar nem sequer vão ter filhos… Esta condição que a espécie humana nunca viveu, que é não haver um futuro da nossa espécie… Quando cai a ficha ou entras em depressão ou ganhas pujança para fazer qualquer coisa!

Dado que estou muito ligada a esta via do Buda, digamos espiritual, queria também trazer esta componente. Estive no encontro “Defend the sacred” em Tamera, que relacionava a ecologia com a espiritualidade. O que estou à procura é de juntar – porque sinto que são as minhas valências – o dharma, a ecologia e a arte.

“O que estou à procura é de juntar – porque sinto que são as minhas valências – o dharma, a ecologia e a arte.” Foto: Direitos reservados

 

7M – Recentemente juntaste-te ao desafio Kyoto, que te permite calcular a tua pegada ecológica. Porquê?

I.C. – É um desafio fantástico para se tomar consciência. Fiz uma mini-formação o ano passado em ativismo climático e fiquei surpreendida com as percentagens de CO2 que certas coisas têm e de que não fazia a mínima ideia. Foi um despertador.

Ajudar-me a fazer esse percurso, pelo menos reduzir para metade, já é um bom desafio, sobretudo na cidade. Reduzir para mim e para o meu núcleo familiar, mas também poder levar esta informação a outras pessoas.

De 100 sementes, há 50 que ganham chão. Dessas, 25 vão brotar. Dessas, 10 vão viver. E, dessas, haverá 5 árvores que vão realmente crescer. É mesmo assim.

 

7M – Se pudesses desenhar o mundo de amanhã, como seria?

I.C. – Para mim, a visão ideal do mundo é quando aquilo que o dharma descreve como os três venenos se dissolverem. Quando o ser humano reconhecer o seu imenso potencial e a sua natureza profunda – não estiver agarrado a esta sensação de solidez do ego. E perceber que estamos profundamente interligados, somos fluxos de relações, e não entidades fixas e sólidas e independentes, o desejo possessivo e a raiva dissipam-se. O budismo acredita que todos os seres têm esse potencial. A partir daí, os problemas todos dissipam-se. E a forma como as sociedades e comunidades se constroem vai ser com certeza com valores de colaboração, altruístas, amorosos, de partilha.

Serão geridas em mútuo acordo, consenso, sociocracia. Com diversidade de culturas, de pensamentos, de estéticas. Haverá pessoas mais eremitas, outras mais comunitárias, um equilíbrio. Talvez a parte mais emocionante é ver as pessoas a tornarem-se guardiães ao serviço da terra. Ver a terra como um ser vivo sensível e digno de respeito ou veneração ou de serviço, e não mais como um recurso a explorar infindavelmente.

 

7M – Tens coisas que já vejas à volta que te inspiram?

I.C. – Montes de coisas. Apetece-me estar em Portugal, criar raízes. Apesar de ser um país com imensa passividade e preguiça, vejo um despertar, pessoas a querer mudar. Fiquei impressionada com a quantidade de organizações que existem! Por exemplo, a TROCA, a Coopérnico, o movimento da Permacultura e da Agrofloresta, que está a crescer… O movimento das eco-aldeias e de uma rede global de eco-aldeias. A loucura das bicicletas: ninguém andava de bicicleta há dez anos e hoje em dia, num espaço de três anos, com as ciclovias e tudo, foi uma explosão. Em termos de mobilidade é um passo enorme. Há imensas coisas positivas.

Há também o movimento ligado ao desenvolvimento pessoal e ao mindfulness, à vontade de ganhar mais consciência. Nós estamos a confrontar-nos mesmo com os limites da resistência humana na nossa sociedade. Chegámos a um ponto de exaustão da separação de nós próprios, da natureza e dos outros. De isolamento, apesar de estarmos todos aqui uns em cima dos outros! Isolamento da nossa natureza, como nunca. E isso traz doenças. Cancro, números alucinantes de depressão, angústia, stress. É quase viral, tornou-se quase a doença do século.

 

7M – Podemos sair disto?

I.C. – Em muitas áreas, na saúde, nas prisões, na educação, vemos pessoas que não querem ter nada a ver com a religião ou o budismo mas que se abriram ao mindfulness. Com todas as desvantagens que isso também possa ter, porque pegam nele de forma utilitária. De qualquer das maneiras, é uma porta de entrada para um aliviar do sofrimento em que a maior parte das pessoas anda.

A arte é realmente um canal para veicular mensagens de uma forma mais emotiva. Só que é muito lento. Nós temos mesmo muito pouco tempo: doze anos para fazer uma mudança radical.

Joanna Macy é a minha maior inspiração. Tal como a Naomi Klein, que fez o filme “This changes everything”, fala de como esta situação de urgência e perigo iminente que estamos a viver é também, ao mesmo tempo, uma oportunidade ímpar da humanidade para crescer. A sociedade vive numa espécie de adolescência. Só queremos entretenimento, prazeres sensoriais. Acorda! Vamos lá crescer. Esta é uma oportunidade muito grande para que isso aconteça.

 

Entrevista publicada igualmente na edição #26 da revista trilingue de ecologia ECO123 

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