1926-2022

Isabel II, a rainha que salvou Deus

| 9 Set 2022

rainha isabel ii retrato 2012 foto Eli Guerra via Wikimedia Commons

Isabel II prometeu “dedicar toda a vida, longa ou curta, ao serviço”. Foto © Eli Guerra via Wikimedia Commons, 2012.

 

Tocam os sinos das igrejas em todo o Reino Unido e as capelas e catedrais abriram as suas portas convidando à oração. Este é o primeiro de dez dias de luto nacional pela morte de Isabel II, a rainha com o segundo reinado mais longo da História – só suplantado por Luís XIV. Nem todas as pessoas saberão, mas era ela também a chefe oficial da Igreja de Inglaterra. E embora, na prática, não a governasse, fez jus ao seu título de “Defensora da Fé”, que para Isabel II era muito mais que uma mera herança.

“Deus me ajude a cumprir o meu voto”, disse Isabel no dia em que jurou dedicar a sua vida ao serviço da nação, ainda como princesa, com apenas 21 anos. Seis anos depois, a sua coroação e unção com óleo sagrado na Abadia de Westminster, em Londres (onde dentro de dez dias terão lugar as suas cerimónias fúnebres), selava a estreita ligação entre a monarquia e a religião.

Apesar de deter a autoridade constitucional na Igreja, Isabel II deixou que fossem os bispos a governá-la. Mantinha, isso sim, o papel de ouvinte e guia do seu primaz, o arcebispo de Cantuária, cargo atualmente ocupado por Justin Welby, que diz ter para com ela “uma dívida de gratidão sem medida”. “Através de tempos de guerra e dificuldades, através de épocas de agitação e mudança, e através de momentos de alegria e celebração, fomos suportados pela fé de sua majestade naquilo e em quem somos chamados a ser”, escreveu o arcebispo numa declaração publicada esta quinta-feira.

Welby recordou em particular “os dias mais negros da pandemia de coronavírus”, em que “a Rainha falou poderosamente da luz que nenhuma escuridão pode vencer” e também o momento da morte do seu marido, o príncipe Felipe, em que foi visível “uma vez mais, a sua coragem, resiliência e instinto de colocar em primeiro lugar as necessidades dos outros, tudo sinais de uma fé cristã profundamente enraizada”.

Isabel falava dessa fé de forma aberta, simples e honesta, nomeadamente nas suas mensagens anuais de Natal, uma tradição que o seu avô, George V, iniciou em 1932. No ano 2000, referiu-se ao milénio como aniversário do nascimento de Jesus Cristo, “que estava destinado a mudar o curso da nossa história”, e reconheceu: “Eu, como muitos de vocês, extraí grande consolo em tempos difíceis das palavras e do exemplo de Cristo”.

Também não escondia o seu amor pela Bíblia, partilhado com o pastor batista norte-americano Billy Graham, que pregou a milhões de pessoas, foi conselheiro de vários presidentes dos Estados Unidos da América, e convidado pela rainha a pregar em várias ocasiões. Graham faleceu em 2018, mas o seu filho recorda como o pai falava de Isabel II: “Achava que a rainha era uma mulher de rara modéstia e carácter e prometeu rezar por ela e pela sua família todos os dias. Também apreciava o facto de ela costumar falar sobre Jesus Cristo nos seus discursos públicos”. E acrescenta: “A rainha era amiga do meu pai, mas mais importante, ela era uma verdadeira amiga da fé cristã. Ela fará muita falta“.

 

Uma monarca ecuménica que conheceu cinco Papas
rainha isabel ii mensagem natal 2020 foto youtube

Francisco recebeu Isabel em 2014 no Vaticano, e foi o quinto Papa que a rainha conheceu pessoalmente. Foto © Vatican Media.

 

Isabel não fará falta apenas aos protestantes. O presidente da Conferência Episcopal Católica de Inglaterra e País de Gales, cardeal Vincent Nichols, confessou-se “de coração partido” com a morte da rainha e “cheio de admiração pela forma infalível como ela cumpriu” o que tinha prometido no seu 21º aniversário: “dedicar toda a vida, longa ou curta, ao serviço”. “Estou cheio de um imenso sentimento de gratidão pelo presente ao mundo que tem sido a vida da rainha Isabel II”, escreveu. E, referindo-se à fé que ela sempre demonstrou, reconheceu: “Esta fé, tantas vezes e tão eloquentemente proclamada nas suas mensagens públicas, tem sido uma inspiração para mim e, tenho a certeza, para muitos. A sabedoria, estabilidade e serviço que ela sempre incorporou, muitas vezes em circunstâncias de extrema dificuldade, são um legado brilhante e um testemunho da sua fé.”

Damian Howard, superior provincial dos jesuítas na Grã-Bretanha, sublinhou por seu lado que “ninguém poderia deixar de se impressionar com a dedicação fiel e altruísta de sua majestade ao serviço público. A sua fé cristã (…) foi fundamental para a sua compreensão do seu papel como chefe de Estado”. E acrescentou: “A força que ela encontrou em Cristo ajudou a manter o povo deste país unido de uma maneira surpreendentemente humilde. Os jesuítas rezam por ela na morte, como fizeram durante a sua vida. Que ela descanse em paz.”

No Canadá, o arcebispo J. Michael Miller, responsável pela Arquidiocese de Vancouver, definiu-a como “uma luz para as nações”.

Peter Stilwell, diretor do Departamento das Relações Ecuménicas e Diálogo Inter-Religioso do Patriarcado de Lisboa, destaca que Isabel II “fez questão de criar pontes com dirigentes de outras comunidades religiosas”. Para o padre lisboeta, com ascendência britânica, “foi nas suas mensagens à nação que assistimos de forma crescente ao testemunho público da sua fé cristã. Fazia-o com naturalidade e elegância, sem imposição, prestando também nisso um serviço”.

Também o Papa recordou o exemplo de devoção da rainha Isabel II “ao dever, o seu firme testemunho de fé em Jesus Cristo, e a firme esperança nas suas promessas”. Num telegrama de condolências enviado ao príncipe Carlos III, filho e futuro rei, logo na tarde desta quinta-feira, Francisco manifestou-se “profundamente entristecido” ao ter conhecimento da morte da rainha. “Junto-me a todos os que choram a sua perda para rezar pelo descanso eterno da rainha, e prestar homenagem à sua vida de serviço incansável ao bem da nação e da Commonwealth”, escreveu.

Francisco recebeu Isabel em 2014 no Vaticano, e foi o quinto Papa que a rainha conheceu pessoalmente (dos oito com cujos pontificados ela conviveu). O encontro marcou o 100º aniversário do restabelecimento das relações diplomáticas entre o Reino Unido e a Santa Sé.

Ainda como princesa de Gales, Isabel encontrou-se com o Papa Pio XII, em 1951. Já como rainha, teve uma audiência no Palácio Apostólico com João XXIII, em 1961. Encontrou-se em Roma com João Paulo II em 1980, dois anos depois em Inglaterra (numa viagem histórica que marcou a primeira ida de um papa à Grã-Bretanha) e novamente no Vaticano no ano 2000. Com Bento XVI reuniu-se na Escócia, em 2010.

Ao longo do seu reinado, Isabel manifestou uma crescente abertura para com as outras religiões, encorajando os seus membros a estarem presentes em momentos marcantes para a nação, como as celebrações anuais do Dia da Commonwealth, na Abadia de Westminster. Na missa de ação de graças por ocasião do seu Jubileu de Platina, que decorreu na Catedral de São Paulo, em Londres, no passado mês de junho, líderes budistas e judeus estiveram lado a lado com anglicanos e outros cristãos.

 

O poder de perdoar
rainha isabel ii mensagem natal 2020 foto youtube

Isabel falava da sua fé de forma aberta, simples e honesta, nomeadamente nas suas mensagens anuais de Natal. Imagem retirada do vídeo da mensagem de 2020.

 

“Deus enviou ao mundo uma pessoa única – nem um filósofo nem um general (por mais importantes que sejam) – mas um Salvador, com o poder de perdoar”, disse Isabel na sua mensagem de Natal de 2011. “O perdão está no coração da fé cristã. Pode curar famílias desfeitas, pode restaurar amizades e reconciliar comunidades divididas. É no perdão que sentimos o poder do amor de Deus.”

Precisamente nesse ano, Isabel II tinha sido a primeira monarca no espaço de um século a entrar no que é hoje a República da Irlanda. A visita real marcou a plena realização do Acordo da Sexta-feira Santa, assinado na Páscoa de 1998, que havia restaurado o domínio da Irlanda do Norte e colocado fim a décadas de conflito sangrento. Ali, Isabel II colocou o perdão em ação.

“Com o benefício da retrospetiva histórica, todos podemos ver coisas que gostaríamos que tivessem sido feitas de forma diferente ou não”, disse ela no jantar de estado oferecido pela então Presidente irlandesa, Mary McAleese. “A todos aqueles que sofreram como consequência do nosso passado conturbado, estendo os meus sinceros pensamentos e profunda simpatia.”

É que a visita da rainha não foi apenas um momento de reconciliação entre dois povos distantes, mas um ato pessoal de perdão. No verão de 1979, o tio do seu marido e padrinho do primeiro filho, Lord Louis Mountbatten, havia sido assassinado por agentes do Exército Republicano Irlandês. Assim, foi marcante o momento em que Isabel colocou uma coroa de flores num jardim de Dublin dedicado à memória de “todos aqueles que deram as suas vidas pela causa da liberdade irlandesa”.

Isabel terá sentido esse poder do amor de Deus de que falaria alguns meses mais tarde na sua mensagem de Natal. Ou mesmo cumprir-se o pedido do hino britânico: “God Save the Queen” (Deus salve a rainha)? Mas, olhando para a sua vida, não seria exagero afirmar que o sentimento foi recíproco. Morreu esta quinta-feira, 8 de setembro: coincidência ou não, o dia em que as Igrejas Católica e Anglicana celebram a Festa da Natividade de Nossa Senhora, mãe de Deus.

 

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