Depois, ao de leve, vou aquietando o embalo dos braços, e os teus olhinhos, de pálpebras teimosas, rendem-se ao sono, enquanto a Lacrimosa gira na vitrola. Esta era a vitrola do meu avó, pai do teu avô. Quando morreres um dia, tinha eu mania de lhe dizer – porque os mais novos nunca pensam no que isso significa para os mais velhos. Quando morreres, quero ficar com os teus livros, a vitrola e os discos. Quanto às canas de pesca dispenso ou os barcos de madeira, que ficam melhor na casa das tias ou do pai.
Isac, tu hás de conhecer um amor assim, de afetos e cuidados sem porquês, e vais entender os vínculos que se estendem de gesto em gesto, livro em livro, filme em filme. Eu fui a criança sentada ao colo do projecionista, de atenção posta na janela da régie, descortinando mistérios. Sabes quanta altitude atinge uma criança sentada no colo de um projecionista? É a harmonia perpetuada ao infinito.
Mas não era disto que eu te queria falar.
Tu dormes já tão aninhado no meu colo, e a Lacrimosa paira. Quando os meninos dormem, recebem a música diretamente na alma sem que a melodia precise da autorização dos ouvidos. Os bebés entendem Mozart porque falam a língua dos anjos.

Isac. Foto © Maria de Jesus Vieira
Se eu pudesse esculpir um futuro, brindar-te-ia com o dom dos fascínios, é que a beleza enaltece o triunfo da humanidade – insinua o caminho do conhecimento.
Quando cresceres hás de ver o mundo por olhos sensíveis – é assim que os grandes Homens são, sensíveis e fascinados. Terás lágrimas descomplexadas para derramar num requiem, punhos cerrados a bater no tampo da humilhação, escudos na linha da frente contra a desonra, hás de combater com alma e não com armas, com sentido de justiça e jamais com ódio. A redenção é para estar à vista, translúcida como a confissão de Raskólnikov – e um abraço não pode ser um lugar fechado. Nunca te escondas.
Perdoa-me depositar em ti a esperança da salvação do mundo, eu sei que não passo de uma avó desesperada a esgravatar desculpas para a felicidade.
Nadar contra a corrente é exaustivo e perigoso, mas nadar a favor dela é desistir do coração – qual dos suicídios havemos de preferir?
Mas não era disto que eu te queria falar.
Lá fora os cães uivam para chamar os filhos que os humanos lhes roubaram e tu ameaças despertar, volto a embalar os braços para te contrariar a teimosia – que a noite é para dormir, meu amor. O céu está tão claro que nos basta a persiana aberta para iluminar o quarto.
Começou a passar uma entrevista antiga do António Lobo Antunes. É tão profunda a sua voz de palavras angustiadas, o seu timbre indeciso entre os medos e as coragens. Morreu ontem, mas hoje continua a dizer tantas coisas. Tão contraditório este homem – amor e desprezo na mesma medida.
Escuta, está a contar a história de um menino de quatro anos, gravemente doente, de quem ele gostava muito e que vira morrer no hospital, quando era ainda um jovem médico. O menino, apesar de tanto sofrimento, levava uma dignidade intransponível quando morreu e o funcionário da morgue veio buscá-lo ao quarto, levando-o enrolado num lençol branco pelo corredor afora, o Lobo Antunes ficou a vê-lo afastar-se com o pezinho caído para fora do lençol branco, abanando, direito às arcas frigoríficas. Diz que foi para estes pézinhos que escreveu uma vida inteira, livros e mais livros e mais livros.
Eu acho que devem ter sido meninos como este – para os quais ele escreveu tantos livros – que segredaram as sonatas, as sinfonias e as óperas aos ouvidos de Mozart.
Mas não era disto que eu te queria falar.
Sabes por que escrevo estas coisas? Porque não sei escrever histórias para crianças. Gostava tanto de inventar uma fábula onde um rei – talvez um esquilo, um koala ou um bicho-preguiça – se chamasse Isac e gostasse de ouvir a Lacrimosa, depois esse esquilo crescia até virar adulto e, então, escrevia muitos livros a pensar noutros esquilos-crianças. Nessa história não haveria capetas com dentes afiados e olhos vermelhos, capetas assassinos que bombardeiam países cheios de infância. Não, esses não entravam na história. Nessa história Deus existia mesmo, num mundo sem arcas frigoríficas nem morgues nas alas de pediatria.
Mas não era disto que eu te queria falar.
Ainda tenho tempo de aprender a inventar fábulas, só hás de começar a ler daqui a quatro ou cinco anos. Dá tempo. Talvez tu, quem sabe, me ensines a difícil tarefa de escrever histórias para crianças.
Enquanto isso, adormeço-te ao som das minhas canções desafinadas neste colo apavorado de lâmpadas fundidas.
(Raios partam o texto, que não há meio de se compor e está na hora de o entregar.
A máquina parou, vou estender a tua roupinha, aproveitar este sol. Não há nada mais comovente do que roupinhas de bebé penduradas num estendal. Não há nada mais comovente.)
Mas não era disto que eu te queria falar.
Aconchego a mantinha e deito-te na alcofa. A noite é tão bonita quando te vejo dormir. A noite é tão bonita quando a vitrola toca. A noite é tão bonita quando a rádio está sintonizada na estação das conversas que ensinam a sonhar.
Beijo-te a testa e prometo que amanhã tentarei escrever a fábula do rei Isac. Desligo a cabeça. Apago a luz. Dorme bem, meu amor.
Não era nada disto que eu te queria dizer…
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo, é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
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