Israel-Palestina: novos tempos exigem novas soluções

| 24 Mai 21

Palestina. Muro

“Parece que já quase ninguém acredita, em qualquer dos dois lados, na solução de dois estados no conflito entre Israel e Palestina.” Foto: Palestina. Muro.  © Joalpe / Wikimedia Commons

 

Parece que já quase ninguém acredita, em qualquer dos dois lados, na solução de dois estados no conflito entre Israel e Palestina. A tendência, segundo se diz, é a radicalização de ambas as partes, com o perigo da extrema-direita israelita em crescendo, mercê de uma população jovem cada vez mais radicalizada e adepta de uma solução de força. O ódio cresce e, à falta de um horizonte de solução, resta a solução desesperada, que é a da guerra total na qual uma das partes é aniquilada.

Cresce a desconfiança mútua, o medo mútuo. Se Israel não retira, ou se pelo menos não concede soberania plena à Cisjordânia e a Gaza – mesmo que lá mantendo os seus colonos, ainda que estes jamais aceitassem ser cidadãos de um outro estado que não fosse Israel –, então resta uma abordagem audaciosa e definitiva aos palestinianos de boa vontade: permitam-lhes ser cidadãos de pleno direito e em igualdade num só estado. Estendam-lhes a mão e ofereçam-lhes a oportunidade de ter um futuro num mesmo estado, em igualdade de direitos cívicos e políticos, sem supremacias étnicas institucionalizadas. Há lugar para todos na Palestina.

Outorgue-se-lhes a possibilidade de viver em paz, sem estarem confinados a um estado estropiado dividido em duas regiões separadas. Dê-se-lhes a possibilidade de ter um futuro, reconheça-lhes direitos e os venenos ideológicos e fundamentalistas de grupos radicais como o Hamas ou a Jihad islâmica já não lhes parecerão tão doces. É que estes alimentam-se do ódio e do desespero!

Para tal, é fundamental a pressão internacional, e também a pressão interna em Israel, quer dos judeus favoráveis à paz, quer dos árabes israelitas (são 20% do total da população, é preciso não esquecer). É preciso fortalecer o estado secular, democrático, fundado no primado da lei. Só assim se garantirá que todos cabem nele, independentemente das filiações ideológicas, políticas e religiosas. É evidente que, neste respeito, a ONU terá um papel central, conjuntamente com os EUA e com a Europa, que devem tudo fazer para promover o aprofundamento da democracia e do estado de direito em Israel. Talvez fosse bom começar por exigir uma constituição formal, que o país não tem. Negociada por todas as partes, sob supervisão internacional.

Os interlocutores atuais não servem? (em especial o radical Hamas?) Procurem-se novos interlocutores, gente de boa vontade que queira realmente resolver o problema numa base escatológica e não apocalíptica – sim, refiro-me às jihads (na qual o Hamas se inclui) que, incapazes que são de entrever futuro para além do horizonte estreito da sua mentalidade suicida de “tudo-ou-nada”, estando dispostos a arrastar consigo para o abismo os povos que dizem liderar, não estão habilitados para a construção de uma nova solução de esperança, unidade e reconciliação. É evidente que com isto não estou a sugerir que os elementos mais ortodoxos (e igualmente apocalípticos) do judaísmo sejam melhores, ou estejam em melhor posição para o fazer. Mas há certamente um meio termo cada vez mais predominante, e é nele que uma solução real e duradoura deve ser procurada.

É que uma coisa são as lideranças (ou pseudo), outra coisa são as pessoas, os povos. E aquelas estão frequentemente um passo atrás (ou vários) relativamente às reais e muito mais pragmáticas aspirações dos seus povos.

Têm medo os israelitas (especialmente os judeus) de se tornar uma minoria no “seu” próprio país? Calma: nunca chegarão realmente a sê-lo, porque, se o novo estado unificado fosse criado hoje, seriam cerca de sete milhões de israelitas (já descontando os 20% de árabes) para cerca de cinco milhões de palestinos (dois milhões na Faixa de Gaza + 2,7 milhões na Cisjordânia). É evidente que, a estes cerca de 5 milhões, em poucos anos juntar-se-iam talvez, numa estimativa conservadora, um ou dois milhões de refugiados imigrados dos campos do Líbano, Síria e Jordânia (no Líbano são cerca de 475 mil, na Síria 552 mil, e na Jordânia 2,206 milhões).

Em todo o caso, andaria ela por ela, sendo que nenhum grupo étnico seria esmagadoramente superior ao outro, como no caso da África do Sul, em que vingou o fim do apartheid apesar de o número de “brancos” ser dezenas de vezes inferior ao número de “negros” (hoje são cerca de 9% de “brancos” numa população de 57 milhões).

Também não se dará o caso da Índia, na qual a minoria muçulmana, sentindo-se ameaçada pela esmagadora maioria hindu após a independência da Inglaterra, preferiu uma partição territorial à partilha do vasto território do subcontinente indiano com estes.

Ora, aquilo que foi conseguido na África do Sul, que é um país bastante maior e muito mais heterogéneo (até porque mesmo dentro da população negra há diversos grupos étnicos), não será também possível na Palestina? Se formos estritamente pela base étnica, diríamos até que há uma muito maior identidade entre palestinos (árabes e cristãos) e judeus, do que entre “negros” e “brancos”, na medida em que aqueles são ambos semitas, filhos de Sem e de Abraão, segundo a Bíblia. E parece que agora até a genética o veio confirmar, mesmo que não fosse propriamente novidade. De certo modo, é como se ambos estivessem realmente condenados a entender-se. Veremos.

Um dos axiomas de Euclides reza que, se A e B são iguais a C, então A e B são iguais entre si. Ora, não é só o passado que nos une, mas também o nosso destino. Quer dizer, o deus que adoramos, o amor que cultivamos, o centro para onde nos voltamos. Dizia-o Saint-Exupéry: é preciso que os homens se fundam no mesmo deus, quer dizer, no mesmo ideal, no mesmo amor, para que sejam simultaneamente indivíduos e mais do que indivíduos, homens singulares e comunidade de destino. É também isso que confere sentido à vida do Homem. Neste sentido, é necessário que povos historicamente desavindos aprendam a ver para além da poeira das conjunturas, para (re)descobrir que aquilo que os une é infinitamente superior e mais importante do que aquilo que, circunstancialmente, os separa.

A meu ver, o que realmente falta são lideranças com visão, em ambos os lados. E coragem e capacidade para unir. Os palestinianos em particular, não têm uma liderança capaz e unificada, habilitada para levar a cabo uma luta baseada nos princípios do Satyagraha de Gandhi, que inspirou também Martin Luther King e tantos e tão excelentes resultados teve na luta pelos direitos civis na América. Gandhi, originalmente na África do Sul, e depois na Índia; Martin Luther King, na América – ambos conduziram os seus povos a conquistas reais e efetivas em soberania e direitos civis, sem o recurso à violência como arma política. É que lançar foguetes contra um estado militar poderosíssimo dotado das armas ofensivas e defensivas mais modernas, é tão-só um convite ao martírio inútil de homens, mulheres e crianças, e um argumento que pode ser usado pelo opressor para justificar a sua opressão, alegando o direito à defesa. Não conduz a nenhum resultado concreto, efetivo, em termos de conquista de direitos.

manifestacao palestinianos contra anexacao israel, Foto Vatican News sem creditos

“Num aspeto ou noutro, ambos os povos precisam um do outro, seja na partilha de recursos naturais e humanos, seja comercialmente ou noutro aspeto.” Foto: Manifestação palestinianos contra anexação Israel.  © Vatican News sem creditos

 

E penso que se pode dizer que a causa palestiniana tem já hoje um real acolhimento por parte da imprensa e da opinião pública global. O que falta agora é que o povo palestino se una em torno de uma liderança capaz que force Israel a reais concessões, não pela via da violência cega e inútil, mas através de um plano organizado e sistemático de pressão interna e externa, local e internacional, baseado em técnicas não-violentas e ações de resistência passiva (ou melhor seria dizer, ativa), como greves massivas, boicotes laborais e comerciais, sit ins, marchas, entre outras, que canalizem toda a energia em objetivos específicos, em vez de a dissipar em objetivos justos mas demasiado abrangentes. Sempre na tentativa de explorar as interdependências entre os dois povos, porque, num aspeto ou noutro, ambos os povos precisam um do outro, seja na partilha de recursos naturais e humanos, seja comercialmente ou noutro aspeto. Tudo isto acompanhado por intensas campanhas de diplomacia ativa, quer diretamente com Israel, quer com interlocutores internacionais, que serão tanto mais eficazes quanto maior for a capacidade das lideranças palestinas em afirmar a sua autoridade moral e a justiça da sua causa. E essa autoridade conquista-se com racionalidade, tenacidade e elevação no pensamento e na ação, e objetivos bem definidos.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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