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Israel-Palestina: Um só estado não é irrealista

| 05/02/2021

“Israel-Palestina pode bem ser uma pátria judia que seja, também, uma pátria palestiniana”.(Jerusalém, a Cidade Velha. Foto Albin Hillert/WCC )

 

A solução de dois estados para sair do conflito entre Israel e Palestina não passa hoje de discurso politicamente correto, sem qualquer correspondência com a realidade territorial e demográfica da Palestina aquém-Jordão.

Mesmo que Israel recuasse para as fronteiras pré-1967 – o que é de todo em todo improvável – os dois pequenos enclaves da Cisjordânia e de Gaza (com uma área somada de 6 mil km2, o equivalente a duas vezes a Área Metropolitana de Lisboa) não seria suficiente a longo prazo para conter uma população em constante crescimento, que é já hoje de cerca de cinco milhões de almas (ca. de dois milhões em Gaza e três milhões e meio na Cisjordânia). Já para não falar daqueles milhões de refugiados que se encontram em campos por todo o Médio-Oriente – especialmente no Líbano, Síria, Jordânia –, e que seria expectável que pelo menos alguns deles desejassem regressar ao seu novo estado. Além do mais, um novo estado palestiniano baseado nos dois enclaves Cisjordânia+Gaza seria sempre um estado estropiado, atravessado a meio por 40 km de território israelita. E manifestamente super-povoado, como já o é atualmente Gaza, com todos os problemas que daí decorrem.

Há poucos dias, recebi um comentário, que agradeço, ao meu artigo “Israel-Palestina: Um horizonte de unidade para uma terra perpetuamente dividida”, publicado no 7MARGENS, que classificava a tese que proponho de um só estado israelo-palestiniano como “absolutamente irrealista”.

Admito que, num ou noutro ponto, os meios que apresento possam ser considerados irrealistas ou ultra-utópicos, mas no essencial, a proposta de um só estado nem sequer é nova. Uma breve pesquisa online revela, afinal, que esta proposta está mesmo no centro do debate em alguns importantes círculos intelectuais americanos e europeus.

Uma das obras de referência sobre o assunto parece ser One State Solution – A Breakthrough for Peace in the Israeli-Palestinian Deadlock, de Virginia Tilley, publicada em 2005 pela Universidade do Michigan.

Artigos em jornais tão renomados como o New York Times ou a revista Foreign Affairs discutem também o assunto desassombradamente, como uma possibilidade realista passível de desbloquear o impasse atual.

Vale a pena referir que o autor do primeiro artigo, Peter Beinart, é judeu e descendente de judeus da diáspora. Uma frase pode bem resumir o fundamental do seu texto: “Israel-Palestine can be a Jewish home that is also, equally, a Palestinian home” (“Israel-Palestina pode bem ser uma pátria judia que seja, também, uma pátria palestiniana”).

Também do lado de cá do Atlântico, a ideia parece estar no centro de um debate acerca do modo como a própria Europa se deve reposicionar face ao problema no contexto das relações com Israel. Com efeito, um artigo publicado este mês no próprio site do Conselho Europeu para os Assuntos Estrangeiros (European Council for Foreign Affairs), e significativamente intitulado The end of Oslo: A new European strategy on Israel-Palestine, explora o assunto sem preconceitos. Cito apenas uma frase: “The absence of a two-state solution will mean Israel ensuring equal rights for Palestinians in one democratic state.” (“A ausência de uma solução de dois Estados significará que Israel garantirá a igualdade de direitos para os palestinianos num único Estado democrático”).

De facto, esta é uma ideia que também exploro no meu artigo e que me parece uma conclusão evidente a partir do status quo atual: Israel não pode prosseguir com a ocupação e eventual assimilação total dos territórios palestinianos sem conferir, ao mesmo tempo, plena cidadania aos palestinianos.

Em última instância, terá de haver uma escolha derradeira entre apartheid e plena integração; e se a primeira hipótese não é sustentável, então só a segunda pode ser. E é com base neste pressuposto e neste horizonte de futuro que a Europa, segundo o autor, deve redefinir as suas relações com Israel, colocando nesse ponto a sua pressão diplomática: se não é possível exigir o fim da ocupação, exija-se, pelo menos, a plena integração e cidadania para os cidadãos palestinianos.

Melhor do que um estado ou pseudo-estado estropiado para os palestinianos, confira-se-lhes plena cidadania num país democrático e secular, em igualdade com qualquer outro cidadão israelita, para que possam movimentar-se livremente, trabalhar, ter acesso às mesmas oportunidades.

Enfim, parece que a ideia de um só estado não é assim tão irrealista e ultra-utópica. Israelitas e palestinianos estão, segundo creio, condenados a entender-se. E de uma forma ou de outra, mais unitária ou confederada, a partilhar o mesmo território, que no fim de contas não é assim tão grande e pleno de recursos (água, especialmente) que possa admitir uma partição justa para ambas as partes.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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