Quando o Papa Leão XIV manifestou este domingo a sua proximidade espiritual aos cristãos do Médio Oriente, por estarem impedidos de celebrar plenamente a Semana Santa devido à guerra, estava longe de imaginar o que as autoridades israelitas se preparavam para fazer.
Em Jerusalém, o patriarca latino, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, juntamente com o custódio da Terra Santa, o padre Francesco Ielpo – que “ocupam as mais altas responsabilidades eclesiásticas pela Igreja Católica e pelos Lugares Santos” – foram proibidos de entrarem na Basílica do Santo Sepulcro, para onde se dirigiam para celebrar a missa do Domingo de Ramos, pela polícia de Israel.
Segundo um comunicado conjunto do Patriarcado Latino de Jerusalém e da Custódia da Terra Santa, divulgado pela agência Vatican News, esta medida foi “claramente irracional e gravemente desproporcional”. Uma decisão considerada “precipitada e fundamentalmente errada, viciada por considerações impróprias”, que “representa um grave afastamento dos princípios fundamentais de razoabilidade, liberdade de culto e respeito pelo statu quo”.
Israel mantém uma sistemática política de apartheid no território da Palestina ocupada, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, mas o Governo de Benjamin Netanyahu começa a tocar agora, também, no estatuto dos Lugares Santos, em Jerusalém, que incluem ainda a Mesquita Al-Aqsa e a Esplanada das Mesquitas (para os muçulmanos), e o Muro das Lamentações (para os judeus).

Em 2024, uma mulher faz uma pausa junto a um conjunto de velas de oração dentro da Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém. Neste Domingo de Ramos, as portas do Santo Sepulcro não se abriram, as autoridades israelitas não o permitiram. Foto © Albin Hillert/CMI.
O primeiro impedimento deste tipo “em séculos”
Pizzaballa e Ielpo, explica-se, foram detidos ao longo do trajeto, “enquanto seguiam de forma privada e sem qualquer característica de procissão ou ato cerimonial” e foram obrigados a voltar atrás. É “a primeira vez em séculos” que aos líderes da Igreja é “impedido celebrar a missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”.
Trata-se – segundo as palavras contundentes do comunicado, como descreve a Vatican News – de “um grave precedente” que ignora “a sensibilidade de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo que, durante esta semana, têm os olhos postos em Jerusalém”.
O comunicado destaca, ainda, que, durante todo este tempo, os líderes das Igrejas sempre respeitaram as prescrições das autoridades e as restrições impostas devido ao conflito, agindo “com plena responsabilidade”. “Os encontros públicos foram cancelados, a participação foi proibida e foram tomadas medidas para transmitir as celebrações a centenas de milhões de fiéis em todo o mundo, que, nestes dias de Páscoa, voltam o olhar para Jerusalém e para a Basílica do Santo Sepulcro.”
Pizzaballa e Ielpo “expressam o seu profundo pesar aos fiéis cristãos na Terra Santa e em todo o mundo, pelo facto de que a oração em um dos dias mais sagrados do calendário cristão tenha sido assim impedida”.
“Liberdade de culto em Jerusalém para todas as religiões”

A Cúpula do Rochedo e a Mesquita de Al-Aqsa, vistas do Jardim das Oliveiras. Foto © António Marujo
De acordo com a Europa Press, o Presidente francês, Emmanuel Macron, condenou “esta decisão da Polícia israelita, que se soma ao preocupante aumento das violações ao estatuto dos Lugares Santos em Jerusalém” e exigiu garantias à “liberdade de culto em Jerusalém para todas as religiões”. Há dias, no final do Ramadão, as autoridades israelitas já tinham impedido fiéis muçulmanos de se aproximarem da Mesquita Al-Aqsa, alegando motivos de segurança.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, manifestou a sua indignação e condenou a ação da polícia de Israel: “Impedir a entrada do patriarca de Jerusalém e do custódio da Terra Santa, especialmente numa solenidade tão central para a fé como o Domingo de Ramos, constitui uma ofensa não só para os crentes, também para toda a comunidade que reconhece a liberdade religiosa.”
“Pela primeira vez, a polícia israelita impediu os líderes da Igreja Católica de celebrar a missa do Domingo de Ramos num dos lugares mais sagrados para milhões de crentes em todo o mundo”, escreveu por sua vez o ministro dos Negócios Estrangeiros, na rede social X. Antonio Tajani disse que tinha dado “instruções” ao embaixador italiano em Israel “para transmitir o protesto do Governo às autoridades de Telavive e confirmar a posição de Itália de proteger, em todos os momentos e sob qualquer circunstância, a liberdade religiosa”.
Também a Jordânia, que tem a custódia da Esplanada das Mesquitas, veio condenar os acontecimentos “nos termos mais enérgicos”, considerando-o “uma flagrante violação do direito internacional, do direito internacional humanitário e do statu quo jurídico e histórico vigente, bem como uma violação da liberdade de acesso irrestrito aos locais de culto”.
Portugal junta-se às condenações

Cristãos na procissão de Domingo de Ramos em Jerusalém, no ano de 2024. Este ano, a procissão já tinha sido cancelada, antes das autoridades israelitas impedirem a celebração deste dia. Foto © BM CTS.
O Presidente da República e o Ministério dos Negócios Estrangeiros também se juntaram ao coro daqueles que condenam a ação da polícia israelita, avançou a agência Lusa, citada pelo Público.
Em nota publicada no site da Presidência da República, António José Seguro “manifesta a sua firme reprovação por este impedimento, que considera injustificado e contrário aos compromissos internacionais de proteção da liberdade religiosa”.
“Trata-se, acrescenta o Presidente, de um facto que atinge a comunidade cristã local e também o princípio universal da liberdade religiosa, pilar essencial das sociedades democráticas e consagrado no direito internacional. A livre prática do culto, em particular em locais de significado histórico e espiritual ímpar, deve ser assegurada e respeitada por todas as autoridades, em qualquer circunstância.”
Já o Governo, que mantém uma política ambígua face ao Governo de Israel, fez notar – numa publicação do Ministério dos Negócios Estrangeiros na rede X – que “o impedimento do acesso do cardeal Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, à Igreja do Santo Sepulcro para as celebrações do Domingo de Ramos, que seriam apenas retransmitidas, merece a mais firme reprovação”. O ministério de Paulo Rangel pediu às autoridades israelitas para “garantirem e praticarem a liberdade de religião e de culto”.
Como no final do Ramadão, as desculpas de Telavive repetiram-se este domingo: a decisão foi tomada por motivos de segurança, devido às restrições impostas pelo exército como medida de precaução face a possíveis ataques iranianos. A missa seria transmitida online, sem a presença física de fiéis.
A guerra contra o Irão, iniciada a 28 de fevereiro pelos EUA e Israel, que levou o regime iraniano a retaliar contra alvos israelitas e americanos na região, já alastrou a todo o Médio Oriente, dos estados do golfo Pérsico ao Líbano.
“Hoje, Jesus chora novamente por Jerusalém”

O cardeal Pizzaballa na meditação pela paz, no Monte das Oliveiras, durante a tarde de Domingo de Ramos. Foto © Vatican Media.
Mais tarde, sem a presença (habitual) da comunicação social, o cardeal Pierbattista Pizzaballa conseguiu levar a cabo a sua meditação na Igreja de Todas as Nações, no Getsémani, no Monte das Oliveiras. O patriarca latino recordou (citado pelos serviços em inglês da Vatican News) que, tal como Jesus chorou por Jerusalém por esta não ter reconhecido a paz, Jesus chora hoje por um mundo ainda marcado pelo conflito, pelo sofrimento e pelas oportunidades perdidas de paz, sobretudo na Terra Santa.
O patriarca recorreu à imagem de Jesus a chorar por Jerusalém para descrever a situação atual: “Hoje, Jesus chora novamente por Jerusalém. Ele chora por esta cidade, que é um símbolo de esperança e tristeza, graça e sofrimento. Ele chora por esta Terra Santa, que continua incapaz de reconhecer o dom da paz. Ele chora por todas as vítimas de uma guerra que parece não ter fim, pelas famílias destruídas e pelas esperanças perdidas. Porém, as lágrimas de Jesus nunca são em vão. Elas abrem-nos os olhos, desafiam-nos e revelam a verdade.”
Referindo-se à ausência das habituais celebrações do Domingo de Ramos, que envolvem procissões com ramos de palmeira, lembrando a entrada de Jesus em Jerusalém, afirmou que, embora a guerra possa perturbar as formas como é expressa a fé, “a verdadeira fé” não depende de rituais externos e pode sobreviver mesmo no silêncio e no sofrimento. “Estamos certos de que o Crucificado e Ressuscitado não deixa de caminhar entre nós. Mesmo quando o caminho está bloqueado, ele habita nos corações daqueles que não deixaram de o seguir. É precisamente neste silêncio imposto que a liturgia se torna mais autêntica. O clamor de ‘Hosana’ sobe até ao céu sem ramos, e a fé não vacila quando as cerimónias externas são retiradas.”










