Isto não é um acidente!

| 27 Out 2021

Em matéria de abuso sexual de menores no meio católico, a primeira premissa de todas deve ser que esta situação não é pontual nem acidental, mas uma forma de estar. Infelizmente. Mas este cancro tem que ser extirpado.

Abuso de menores.

“O papa foi talvez o mais inconformado com a situação, ao afirmar publicamente que sente vergonha pela longa incapacidade da Igreja para lidar com esta situação”. Ilustração: Abuso de menores © Churchandstate.org

 

A primeira estratégia a que a instituição religiosa sempre recorreu foi a de enterrar a cabeça na areia. Primeiro escondiam-se os crimes, em nome da salvaguarda da boa imagem institucional, nalguns casos transferiam-se os sacerdotes para outras paróquias ou países sem se denunciar às autoridades públicas. Como é por demais evidente nada disto resolveu a situação. Os abusadores ficaram impunes e provavelmente continuaram os abusos, agora noutras paróquias, os crimes ficaram sem castigo, as vítimas sofreram o dano silenciosamente e não viram prevalecer a justiça. Portanto, fez-se tudo aquilo que uma instituição religiosa não podia fazer, a bem da ética cristã, da cidadania e do respeito e cuidado para com os menores e suas famílias cuja confiança foi traída de forma recorrente.

Quando a ponta do véu começou a ser destapada a segunda estratégia foi minimizar, passando a ideia de que se tinham tratado de casos pontuais, sem qualquer significado ou relevância. Porém nos últimos anos esta estratégia foi igualmente destruída devido à denúncia de casos estatisticamente relevantes em diferentes partes do mundo. O último dos quais terá sido o de França, e resulta do trabalho duma comissão de inquérito independente que trabalhou durante quase três anos e cujas conclusões são profundamente preocupantes. Estima-se que mais de dois mil padres e outros membros do clero francês abusaram sexualmente de 200 mil menores entre 1950 e 2020. Incluindo leigos, o número ascende a mais de três mil abusadores religiosos identificados e 330 mil vítimas de abuso ou violência sexual.

A verdade é que há quase vinte anos que o Boston Globe revelou um padrão de abuso sexual e encobrimento na diocese da cidade. Já em 1994 se tornou público o caso de um padre abusador cujos crimes haviam sido escamoteados pelas autoridades religiosas e civis, fazendo cair o governo da Irlanda. Daí para cá estes escândalos sucedem-se.

A última estratégia conhecida foi colocar em causa a credibilidade da comissão francesa.

Mas por cá também se desenvolveram algumas estratégias, como a de chutar para canto. Dizia o bispo do Porto em entrevista ao Público em 2018: “Este foi um fenómeno fundamentalmente de países anglo-saxónicos. Na Europa aconteceu em alguns lados – aconteceu na Alemanha – mas não aconteceu com a mesma escala que consta que aconteceu nos Estados Unidos e na Austrália.” Esta ideia sem sustentação nem seriedade acabou por ser desmentida.

Diz o Expresso que, face a esta monstruosidade, “os bispos franceses aceitam indemnizar vítimas de abusos sexuais cometidos ao longo de décadas, mas querem lançar um peditório junto dos fiéis para reparar os danos causados, o que causa indignação entre os envolvidos.” O papa foi talvez o mais inconformado com a situação, ao afirmar publicamente que sente vergonha pela longa incapacidade da Igreja para lidar com esta situação, expressando às vítimas a sua “tristeza e dor pelos traumas que sofreram”, reconhecendo os números enormes da investigação.

Mas a derradeira estratégia foi suicida porque se limita a atirar areia para os olhos do país. O bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, afirmou ao Público que a “Igreja Católica admite investigação de casos de pedofilia, desde que não seja limitada ao clero”. Diz que a Igreja é a única que está a levar o assunto a sério (?), enquanto tenta lançar lama para cima da sociedade: “Vêem o Ministério da Educação a fazer alguma coisa? As ordens profissionais a fazer alguma coisa?” João Miguel Tavares lança a sua indignação com tais afirmações no Público. Diz que o argumento de D. Américo Aguiar é totalmente inaceitável e, “sendo ele o coordenador da comissão de prevenção e combate aos abusos de menores do patriarcado de Lisboa, torna-se imperativa a pergunta: quem é que o pôs naquele lugar e quem é que o tira rapidamente de lá?”

O jornal digital 7MARGENS declara que “estas declarações são abusivas, injustas e moralmente inaceitáveis à luz do Evangelho e do que o Papa Francisco tem pugnado”, e põe o dedo na ferida ao falar de falta de autoridade moral da hierarquia católica nesta matéria, visto que “resistiu quanto pôde a constituir comissões diocesanas sobre os abusos do clero requeridas pelo Papa e pelo Vaticano (o bispo do Porto, por exemplo, começou por dizer que a utilidade de uma tal comissão seria equivalente a outra que estudasse os efeitos da queda de um meteorito na cidade).”

Vamos ser claros. Isto não é um caso pontual nem um acidente de percurso, é uma tendência clara. Há que investigar e estudar as razões profundas desta desgraça. A Igreja precisa de ser humilde e encarar o problema de frente, chamar médicos, psicólogos, sociólogos e demais investigadores, estudar seriamente a situação e mudar o que for necessário. O único que não falhou foi Jesus Cristo. Já a igreja católica (tal como outras instituições, religiosas ou não) tem falhado clamorosamente através dos tempos, porque é feita de seres humanos falíveis.

Em vez de lançar mão de estratégias manhosas, a única palavra adequada para a igreja católica hoje, além de pedir perdão, será: “Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa”.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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