Para ser ateu, é preciso muita fé é uma frase que não pretende ser uma provocação mas sim um teste de consistência. “Para ser ateu, é preciso muita fé” não pretende ridicularizar ninguém; obriga a perguntar que tipo de mundo estamos dispostos a aceitar como “auto-explicativo”. E, curiosamente, essa pergunta ganha outro peso quando é feita por alguém como Simon Conway Morris, recém-distinguido com o Templeton Prize.
Não é um prémio qualquer. Criado em 1973 por John Templeton, rapidamente ganhou o epíteto — jornalístico e justo — de “Nobel da Espiritualidade”. Diferentemente dos Nobel clássicos, distingue quem expande a compreensão e a ação em questões últimas: o propósito de cuidar e a relação entre ciência e vida. Entre os laureados contam-se figuras tão distintas como Madre Teresa, Aleksandr Solzhenitsyn, Freeman Dyson, Tenzin Gyatso, Francis Collins e Jane Goodall. A lista é reveladora: não se trata de premiar religião contra ciência, mas quem ousa pensar o seu cruzamento.
É nesse cruzamento que se move o paleontólogo britânico Conway Morris — com uma serenidade que desconcerta tanto crentes simplistas como ateus confiantes. A sua ideia central é conhecida: a evolução não é um caos irrepetível, mas um processo onde a convergência é regra. Olhos, asas, barbatana, inteligência — tudo isto reaparece, como se a vida procurasse soluções “obrigatórias”. Ora, é aqui que a lista dos “milagres dos ateus” ganha densidade filosófica. E é aqui também que Morris começa a responder.
1. Ordem a partir do caos?

“A biologia clássica predominante insiste na contingência. Mas a ubiquidade da convergência sugere outra coisa: nem tudo é possível. Há “caminhos preferenciais”, constrangimentos profundos, uma espécie de gramática da vida.” Foto: site Green Savers
A biologia clássica predominante insiste na contingência. Mas a ubiquidade da convergência sugere outra coisa: nem tudo é possível. Há “caminhos preferenciais”, constrangimentos profundos, uma espécie de gramática da vida. Como o próprio Morris escreve, talvez o mundo seja “profundamente ordenado”, ainda que fecundo e aberto. O caos, afinal, comporta-se com uma disciplina surpreendente.
2. Vida a partir da não-vida?
Aqui Morris não oferece uma solução direta — ninguém a tem. Mas desloca o problema: a emergência da complexidade não é um milagre isolado, é um padrão cumulativo. A evolução reutiliza, co-opta, recombina. Proteínas tornam-se lentes oculares, numa evolução que começou há quase 550 milhões de anos, nessa festa da vida que é o período Câmbrico; estruturas antigas ganham funções inéditas. A vida não surge como um golpe de sorte único, mas como um processo que explora sistematicamente possibilidades latentes. O “milagre” transforma-se numa tendência.
3. Razão a partir da não-razão?
Talvez o ponto mais desconcertante. Se a mente fosse apenas um subproduto acidental, por que razão o universo haveria de ser inteligível? Por que conseguimos compreendê-lo? Morris insiste nesta pergunta quase metafísica: como é que um mundo cego produz seres capazes de dizer verdades (e também mentiras)? A alternativa não é negar a evolução, mas admitir que a racionalidade está, de algum modo, “inscrita” nas possibilidades do real.
4. O pessoal a partir do impessoal (e a moralidade a partir da matéria)?
Aqui entra o famoso “abismo” humano. A continuidade biológica entre humanos e animais é inegável — mas, como observa Conway Morris, a distância cognitiva entre ambos permanece abissal. Linguagem simbólica, cultura cumulativa, consciência moral: não são apenas graus mais altos, são saltos qualitativos .Se tudo isto emerge da matéria, então a matéria contém mais do que supúnhamos.
No fundo, Morris não “refuta” os milagres acreditados pelo ateismo — mostra que eles são mais estranhos do que parecem quando colocados dentro de um quadro puramente materialista. E aqui a ironia regressa: o ateísmo, ao querer evitar o mistério, acaba por acumulá-lo.
O Prémio Templeton de 2026 reconhece publicamente o alcance desta viragem. A convergência aponta para regularidade; mas a história da vida está cheia de surpresas, de invenções imprevisíveis. Entre necessidade e novidade, a evolução parece jogar dos dois lados. E talvez seja precisamente isso que impede respostas fáceis — tanto científicas como teológicas.
No fim, a frase inicial – Isto para ser ateu, é preciso muita fé – deixa de ser um slogan e torna-se um espelho. Nenhuma visão do mundo é neutra. Acreditar que tudo emerge de um universo indiferente, exige aceitar uma cadeia de emergências extraordinárias — não impossíveis, mas profundamente improváveis.
Tínhamos o Morris do Macaco Nu. Agora temos o Morris da Convergência. A grande lição deste “Nobel da Espiritualidade” de 2026 é legitimar perguntas. E, nesse sentido, Simon Conway Morris faz algo raro: obriga a ciência a pensar-se a si própria — e lembra às filosofias que o mundo real, com fósseis e tudo, é mais estranho, mais rico e mais sugestivo do que qualquer sistema fechado. E isso, quer se admita ou não, continua a exigir fé.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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