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Jacques Delors, president of the CEC, participating in the World Day to Overcome Extreme Poverty in Paris, France. 17 October 1993 Foto Christian Lambiotte European Communities, 1993 EC - Audiov (1)

1925-2023

Jacques Delors: Mais do que Europa

Jacques Delors, president of the CEC, participating in the World Day to Overcome Extreme Poverty in Paris, France. 17 October 1993 Foto Christian Lambiotte European Communities, 1993 EC - Audiov (1)

Jacques Delors durante uma iniciativa para assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, em Paris, a 17 de outubro de 1993. Foto © Christian Lambiotte/European Communities, EC – Audiov.

 

Conheci Jacques Delors antes de se tornar mito. Foi a militância cristã que acompanhei desde os anos setenta. Conheci-o pessoalmente na passagem dos anos noventa para 2000. Falámos então sobre a herança de Emmanuel Mounier, sobre a Educação para o século XXI e sobre questões candentes na construção europeia, que muito o preocupavam, como o alargamento, o défice democrático e a perda na coesão económica e social. Em outubro de 2000, celebrámos na UNESCO em Paris, com Paul Ricoeur e Guy Coq os cinquenta anos da morte de Mounier.

Nascido em 20 de julho de 1925, era filho de um funcionário qualificado do Banco de França, com militância cristã e com enraizados valores liberais e democráticos. Aluno do Liceu Voltaire de Paris e do Liceu Blaise Pascal de Clermont Ferrand, ingressou cedo nos quadros do Banco de França, por conselho dos pais, a quem ficou eternamente agradecido, como diz nas suas “Memórias”. Aí forma-se no Centro de Estudos Superiores do próprio Banco com elevada classificação, passando a exercer funções de diretor geral dos títulos e mercado monetário. Contudo, mantém sempre uma intensa atividade de militância social e nos grupos de cristãos inconformistas, em especial na JOC – Juventude Operária Católica, fundada pelo futuro Cardeal Cardjin. Casa-se com Marie Lephaille, também militante cristã. Têm dois filhos Martine Aubry, Maire de Lille, e Jean-Paul, já falecido. Ambos têm uma ação marcante, em especial na “Vie Nouvelle”, nascida do movimento escutista e próxima do pensamento de Mounier.

É sindicalista na Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos (CFTC), onde integra o grupo “Reconstruction”, que se demarca de uma posição conservadora, militando a favor de uma perspetiva social-democrata sob a orientação de Paul Vignaux e próxima da independência política de Pierre Mendès France. Entretanto, segue os grupos próximos das revistas “Esprit”, após a morte de Mounier em 1950, e “Temoignage Chrétien”. O grupo “Reconstruction” na CFTC passa de minoritário a maioritário o que leva à transformação em 1964 da CFTC na atual Conféderation Française Democratique des Travailleurs (CFDT) , mercê da desconfessionalização, que Delors defende como modo de alargar a sua influência. Partidário do associativismo político, dirige de 1959 a 1965 a revista “Citoyens 60” do movimento “La Vie Nouvelle”. Continua próximo dos discípulos de Mounier e de Jean-Marie Domenach e trabalha com o Club Jean Moulin em defesa dos direitos fundamentais e da autodeterminação dos países africanos. Em 1974 criará no mesmo espírito o Club Échange et Projets, de relevante influência política e social. Em virtude do seu empenhamento solidário, foi membro da secção do Plano e Investimentos no Conselho Económico e Social.

Em 1962, entra no Comissariado Geral do Plano, como chefe de serviços na secção das questões sociais e culturais, onde permanecerá até 1969. A partir desta data colabora com Jacques Chaban-Delmas, primeiro-ministro até 1972, sendo um dos principais artífices no projeto “Nova Sociedade” – em especial na preparação dos Contratos de Progresso, sendo inspirador da Lei de Formação Profissional Contínua (1971). De 1969 a 1974, exerce funções na Administração Pública nos domínios da formação profissional e da promoção social. De 1973 a 1979, é membro do Conselho Geral do Banco de França. É docente de Gestão na Universidade Paris-Dauphiné (1974-79). É diretor do Centro de Investigação Trabalho e Sociedade (1975-79). Em 1974, tinha aderido ao Partido Socialista Francês, a convite de François Mitterrand, onde exerce funções de delegado para as relações económicas internacionais (até 1981).

Em 1979, é eleito deputado ao Parlamento Europeu, deixando o lugar em 1981 por ter sido nomeado Ministro da Economia e Finanças no governo presidido por Pierre Mauroy (até 1984). Defende então o equilíbrio entre o Estado e a sociedade civil, e uma pausa nas nacionalizações. É eleito Maire de Clichy (1983-84). É reconduzido como Ministro da Economia e Finanças no Governo de Laurent Fabius, mas em 1985 torna-se Presidente da Comissão Europeia sucedendo ao luxemburguês Gaston Thorn. É notável a sua ação desenvolvida na Presidência da Comissão Europeia, até 1994. É marcante o conjunto de avanços que conseguiu para a União Europeia, como: celebração do Ato Único Europeu, consagração da Coesão Económica e Social, criação do programa Erasmus de mobilidade de estudantes, Tratado de Maastricht, adoção do Euro como moeda europeia no âmbito do Sistema Europeu de Bancos Centrais. Tratou-se de cumprir: “a concorrência que estimula, a cooperação que reforça e a solidariedade que une”.

Jacques Delors numa sessão plenária em Estrasburgo enquanto presidente da Comissão Europeia, em março de 1985. Foto Parlamento Europeu

Jacques Delors numa sessão plenária em Estrasburgo enquanto presidente da Comissão Europeia, em março de 1985. Foto © Parlamento Europeu

 

Em 2006, nas Semanas Sociais realizadas em Braga, afirmou estar demonstrado  “como o social se tornou, além das suas características intrínsecas um fator de desenvolvimento da economia”. E acrescentou: “Alguns querem, hoje, impor erradamente a tese contrária: o social seria um travão ao crescimento e à competitividade.” A responsabilidade do Estado nesta matéria deve ter correspondência no plano internacional, para permitir a regulação. Não é simples, admitia, mas importa experimentar um “mecanismo de reflexão em comum, não apenas no quadro da Organização Mundial do Comércio”, para ultrapassar os mais graves desequilíbrios e, em última análise, garantir a paz. A economia ao serviço da pessoa permanece “central” no pensamento social católico. Por isso, não podemos “aceitar que apenas os mecanismos do mercado determinem ao mesmo tempo o útil e o justo” – ou seja, a economia de mercado não pode transformar-se numa sociedade de mercado.

Além desta preocupação permanente, Jacques Delors coordenou para a UNESCO o relatório sobre a Educação para o século XXI, com a participação do português Roberto Carneiro. Aí se formula a necessidade de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser.

Com uma personalidade incansável, mantinha ainda uma atividade intensa, tendo escrito nos últimos dias uma mensagem entusiástica de elogio à democracia portuguesa e de saudação nos cinquenta anos da revolução portuguesa de 25 de abril de 1974.

“Notre Europe – Instituto Jacques Delors”, dirigida por Enrico Letta, mantém o espírito de cidadania europeia ativa, em nome da paz e do desenvolvimento social. Uma Europa aberta e justa é mais necessária que nunca. O exemplo de Jacques Delors continua, assim, vivo.

 

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