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Jaime Gonçalves, um bispo sempre a favor do povo

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by | 7 Set 19 | Entre Margens, Últimas

O bispo Jaime Gonçalves numa foto de arquivo. (Direitos reservados)

 

No processo do diálogo para a paz em Moçambique, há alguns episódios da vida do arcebispo da Beira, D. Jaime Gonçalves, dignos do interesse de todos nós. Este grande bispo, com quem trabalhei muito directamente, durante vários anos, merece umas palavras nestas minhas Memórias. Quando digo “mais”, significa que já me referi noutras ocasiões a D. Jaime nos livros que escrevi e noutros momentos da minha vida de jesuíta.

D. Jaime foi ordenado a 17 de Dezembro de 1967 na Igreja de S. Benedito da Manga. Depois da ordenação foi estudar para o Canadá, na Universidade de S. Francisco Xavier e tirou um curso de liderança (Social Leadership). Do Canadá partiu para Roma, onde se licenciou em Ciências Sociais no Ateneu Salesiano. Terminados os estudos regressou à Beira, no dia 10 de Julho de 1975. Enquanto em Roma, conheceu a Comunidade de Santo Egídio com a qual manteve um contacto permanente com o fim da ajudar Moçambique.

Tive que contactar frequentemente com D. Jaime porque nessa altura, nós, os jesuítas, tínhamos as duas paróquias, a de Fátima e a de Matacuane, na cidade da Beira e ainda a Paróquia suburbana de S. Benedito da Manga. Com a expulsão dos Padres Brancos, tomámos, também, a responsabilidade directa do Centro Catequético de Nazaré. Estávamos ainda na mudança dum bispo do tempo colonial e D. Jaime pedia frequentemente o meu conselho para o ajudar a conhecer a diocese e a tomar as decisões mais ajustadas no momento que se vivia.

Desde que cheguei à Beira, em Agosto de 1968, depois da minha estadia no Instituto de Lumen Vitæ, Bruxelas, logo assumi, juntamente com monsenhor Duarte de Almeida um cargo no Secretariado Diocesano da Pastoral. Depois da expulsão de monsenhor Duarte de Almeida, já acima referida, tomei a direcção do Secretariado Diocesano da Pastoral. Alguns anos mais tarde, em 1983, fui nomeado, por D. Jaime, vigário episcopal para a pastoral.

Ao desempenhar o cargo de vigário episcopal da pastoral, coube-me dinamizar as diversas comissões de pastoral, preparar e dirigir as reuniões mensais, onde estavam presentes a totalidade das forças activas no terreno, compostas pelas diversas comissões que integravam padres, irmãs religiosas e leigos. Estas reuniões muito contribuíram para juntos darmos resposta aos problemas decorrentes da guerra entre a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] e a Renamo [resistência Nacional Moçambicana].

 

A mobilização da Comunidade de Santo Egídio

Entretanto D. Jaime esteve sempre envolvido a favor do povo moçambicano. Mobilizou a Comunidade Santo Egídio, da Itália, para atender urgentemente as pessoas do centro de Moçambique, onde havia quem caísse de fome nas ruas, pelo anos 1982, 1983… Por essa altura, a Comunidade de Santo Egídio de Roma alugou dois aviões e fê-los chegar à Beira e a Tete carregados de alimentos de primeira necessidade e, assim, ajudar aqueles e aquelas que se encontravam em maior dificuldade. Depois dessa, veio a ajuda mais consistente da Cáritas Internacional, da Missio, da Misereor e de outras organizações não-governamentais. O volume de ajudas a Moçambique foi tão grande que a Cáritas Moçambicana se viu obrigada a pedir ajuda a outras congéneres para que a ajuda chegasse aos mais desprotegidos.

Por volta de 1988, ano da visita do Papa João Paulo II a Moçambique, a situação social tinha melhorado substancialmente. Ficava o problema da guerra, o grande flagelo para o fim do qual muito concorreu D. Jaime com a visita clandestina a Gorongosa para falar com Afonso Dlhakama [líder da Renamo] sobre um possível acordo de paz. Narrei anteriormente no meu Livro de Memórias dum Jesuíta em Moçambique, como se realizou esse encontro.

Aqui apenas o aceno para referir como este grande bispo se envolveu contra a guerra a favor da paz, arriscando a própria vida. Como português sempre posso testemunhar que D. Jaime a ninguém excluía do seu múnus como pastor! Para ele, todos os homens eram irmãos e o que era preciso era a reconciliação de que sempre falava nos diversos encontros de pastoral e noutros encontros com os bispos e com os políticos.

Este envolvimento de D. Jaime pela paz levou-o a participar activamente em diversas reuniões da Imbisa [Inter-Regional Meeting of the Bishops of Southern Africa, Encontro Inter-Regional de Bispos do Sul de África] e nos Simpósios dos Conferências dos Bispos de África e Madagáscar. Como secretário da Comissão Justiça e Paz, a nível de Moçambique, tive ocasião de ser convidado por D. Jaime para participar activamente em alguns destes Simpósios, o que foi para mim uma grande graça. Pude conhecer alguns dos países onde se realizavam estes encontros, alguns dos seus bispos, as preocupações que eram quase sempre a paz e a segurança, quer das pessoas, quer a alimentar. Geralmente, cabia-me a mim relatar o que se passava em Moçambique quanto aos problemas causados pela guerra.

 

Concordar no desejo da paz, divergir na forma de a obter

Entre D. Jaime e [o então Presidente] Joaquim Chissano não houve grandes diferenças no que dizia respeito ao desejo de paz para o povo moçambicano, mas havia perspectivas diferentes sobre a forma de a obter. O arcebispo defendia o diálogo entre as partes e parece que Chissano hesitava. Marcelina Chissano interrogava D. Jaime por não aderir à visão do seu marido, mas para este grande bispo, essa visão não traria a verdadeira paz. Foi o que aconteceu com o prolongamento da guerra após os Acordos de Paz de Roma.

D. Jaime bateu-se pelo diálogo até ao fim. No seu funeral, veio-se a comprovar isso mesmo: estiveram presentes, em memória desse grande bispo, o actual Presidente Nyusi, o ex-Presidente Chissano e delegações dos dois partidos, Renamo e Frelimo. Como curiosidade, acompanhavam a urna representantes dos dois partidos. D. Jaime está sepultado no Cemitério de Santa Isabel, ao lado de D. Sebastião Soares de Resende, esse grande bispo que, embora sendo português, lutou sempre pela reconciliação entre as diversas etnias que compõem Moçambique como ele confessa no livro “Moçambique na Encruzilhada”. Como me dizia, D. Jaime manifestava uma grande veneração para com D. Sebastião.

Não podemos deixar de referenciar a solidariedade dos padres diocesanos, durante os últimos dias em que D. Jaime esteve acamado devido à doença. Os padres diocesanos organizaram-se por turnos, de modo a nunca faltarem com a sua presença à cabeceira do bispo que muito fez para que a diocese tivesse um clero próprio.

 

José Augusto de Sousa é padre jesuíta e esteve 44 anos em Moçambique. Foi vigário-geral, vigário episcopal da pastoral na diocese da Beira, onde trabalhou largos anos com o bispo Jaime Gonçalves, e secretário da Comissão Nacional Justiça e Paz. Este texto é adaptado de um capítulo dedicado a D. Jaime, no livro As minhas memórias mais recentes. Vozes de perto e de longe: da Covilhã, da minha família e de Moçambique, a ser publicado no final do ano pela Editorial A.O; título e subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS. Sobre Jaime Gonçalves e o seu papel no Acordo Geral de Paz de 1992, pode ainda ler-se este testemunho do padre José Luzia.  

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