Jean-Luc Nancy contra a manipulação religiosa do poder

| 15 Mar 21

Jean-Luc Nancy a 28 de Março de 2010, no Salão do Livro de Paris. Foto © Georges Seguin (Okki)/ Wikimedia Commons

 

Invocar Deus para atacar a democracia é uma tendência que se tem disseminado pelos quatro cantos do mundo, adverte o filósofo francês Jean-Luc Nancy num texto publicado no Libération de 8 de Março intitulado “A manipulação religiosa do poder” (reservado aos assinantes digitais do jornal).

Para Jean-Luc Nancy, nesta “epidemia teocrática”, uma consequência “da relativa fraqueza dos Estados num mundo em que o poder técnico-económico os fragiliza”, o espírito religioso é sistematicamente manipulado.

A cartografia deste procedimento começa na Índia, “obviamente”, prossegue no Japão onde o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe tinha multiplicado os sinais de entrelaçamento do Estado com o xintoísmo, “mesmo tendencialmente de um retorno à divindade anterior do imperador”. A seguir, vem a Turquia, onde se verificou a reapropriação muçulmana de Hagia Sophia (Santa Sofia) em Istambul, símbolo de toda uma política. A lista inclui ainda a Birmânia. O filósofo observa que neste país “a resistência do Estado ao budismo nacionalista e violento não impede a progressão desta corrente, à qual o novo governo é mais favorável do que o anterior (que não evitou a perseguição aos muçulmanos)”.

Campo de refugiados de Mae La, Myanmar (Birmânia).

Campo de refugiados de Mae La, Myanmar (Birmânia): “O novo governo é mais favorável do que o anterior” ao budismo nacionalista. Foto Mikhail Esteves/Wikimedia Commons.

 

Jean-Luc Nancy nota que fenómenos semelhantes estão a surgir na Tailândia e no Camboja, onde o budismo theravada já é a religião oficial. Também a recente lei israelita do “Estado judeu”, as relações do Estado russo com a religião ortodoxa e do Estado húngaro com a Igreja Católica se inscrevem nesta tendência. O mapa da “epidemia teocrática” regista “a ascensão política dos evangelistas nos Estados Unidos ou no Brasil – incentivada e elogiada por Trump e Bolsonaro”. O filósofo conclui com uma referência às “agitações fundamentalistas cada vez mais barulhentas, por parte, por exemplo, dos católicos franceses.”

A instrumentalização religiosa é um abuso. Para o filósofo, uma religião digna desse nome “não consiste num esforço para reactivar um passado, mas num fervor novo, criativo”. O que, todavia, se verifica é que “a avidez religiosa dos manipuladores políticos (e mercantis) pretendem reactivar passados distorcidos e truncados, submetidos às necessidades da causa”.

Ou seja, explica Jean-Luc Nancy, “as doutrinas ou mensagens religiosas em questão são sempre produtos de deformações – mais ou menos deliberadas conforme o caso – ora de verdadeiras tradições, ora de verdadeiros avanços das suas verdadeiras inspirações. A teocracia que mais ou menos obviamente assombra a epidemia actual – e sempre em oposição à democracia – não é necessariamente o espírito das religiões invocadas”.

Referindo que “onde quer que um Estado (ou os candidatos ao poder político) reivindique uma religião, ela é distorcida, adulterada ou mesmo pervertida”, o filósofo evoca o passado para o confirmar: “Quando a Inquisição perseguiu os judeus da Espanha e de Portugal, ela não se baseou em nenhum artigo de fé. Quando Luís XIV começou a perseguir os protestantes, as suas dragonnades e as suas conversões forçadas não eram de forma alguma verdadeiramente católicas.”

O tempo das teocracias já havia passado, e hoje ainda mais, considera Jean-Luc Nancy. Para ele, “a política exige um ‘espírito’: mas não o de um fantoche colocado ao seu serviço. Pelo contrário, é a política que deve estar ao serviço do livre acesso de todos a todas as formas não politizadas da mente. É o que se chama ‘democracia’”.

 

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