Jean Vanier: sermos Verdadeiramente Humanos (um livro apresentado em Lisboa)

| 27 Mar 19 | Destaques, Direitos Humanos, Newsletter, Sociedade, Últimas

O livro Verdadeiramente Humanos, editado pela Princípia em Outubro de 2018, será apresentado nesta quarta-feira, 27 de Março, às 21h, na Capela do Rato, em Lisboa (Calç. Bento da Rocha Cabral, 1-B).

As minhas competências para escrever sobre o pensamento de Jean Vanier e os seus livros – alguns dos quais recentemente publicados em português – são muito limitadas, mas só posso ousar fazê-lo pelo muitíssimo que tenho recebido deste homem filósofo multifacetado, profundamente humanista, que conheci através do extraordinária iniciativa que co-fundou com Marie Hélène Mathieu: o Fé e Luz, movimento fundado em 1971, precedido pela grande aventura da sua vida: a fundação da Arca, em 1964. Hoje, a Arca está presente em 38 países dos cinco continentes. O Fé e Luz está também presente em 86 países dos cinco continentes.

Verdadeiramente Humanosfoi publicado primeiro em 1998 em inglês, com o título Becoming Humane em 1999, em francês, com o título Accueillir notre Humanité. É, sem dúvida, um dos livros fundamentais da muito extensa bibliografia do autor, a par de outros que citarei. Esta grande figura espiritual da actualidade, testemunha e descreve a sua experiência pessoal duma longa vida partilhada com pessoas com deficiência intelectual na Arca.  

Um traço fundamental do seu pensamento, que aparece em todos os livros que conheço, é a gratidão fundamental a seu pai que confiou nele e o respeitou na sua vontade de, aos 13 anos, ingressar na Marinha inglesa, durante a guerra. A confiança e a fé na pessoa do outro é fundamental para o crescimento humano.

“Quando mostramos às pessoas que acreditamos nelas, a sua beleza escondida vem à superfície, onde pode ser vista por todos. (…) Mas precisamos de ser compreendidos e de nos compreender. Em especial naquilo em que precisamos de ajuda. As crianças com perturbações graves (eu diria os adultos também) precisam de alguém que as ajude a dar um nome ao que causa o seu sofrimento. (…) Dar um nome ao caos interior ajuda a fazer emergir o problema e a dissipar a confusão que o envolvia”.

Jean Vanier sublinha a inalienável dignidade e valor da pessoa humana, sejam quais forem as suas capacidades intelectuais ou outras e apresenta o desafio de nos tornarmos verdadeiramente humanos através da nossa capacidade de compaixão: de nos abrirmos ao outro tal como ele é, aceitando os nossos próprios limites.

A sua capacidade de se comunicar coração a coração parte de histórias de vida das pessoas com quem se cruzou, tornando os seus livros e os retiros que pregava, até há pouco tempo, momentos de encontro dos leitores/retirantes consigo mesmos e um desafio à descoberta da nossa humanidade comum.

Esta descoberta ocorre quando nos reconhecemos frágeis, aceitamos a nossa fragilidade e, despojando-nos das nossas defesas e do nosso sentimento de superioridade, olhamos o outro como uma pessoa capaz de amar e se deixar amar, por mais diferente que ele seja de mim. O outro: o estrangeiro, o estranho porque pertence a outro grupo, porque tem uma deficiência…

Erguemos muros para nos protegermos dos que são diferentes e tendemos a fechar-nos nas nossas “compulsões egocêntricas”que nos escravizam. A libertação dessa escravidão passa pelo reconhecimento que toda a “pessoa é uma história sagrada” e consequentemente alguém com quem posso ter um encontro pessoa a pessoa – “coração a coração”– que nos enriquece mutuamente e nos torna a ambos mais pessoas.

Jean Vanier, como filósofo que é, consegue, numa linguagem simples que ecoa em nós, descrever a complexidade dos nossos processos de funcionamento emocional e intelectual, bem como a nossa sede de celebrar a vida, de rir e brincar em comunidade.

 

Aceitar que podemos ser amados

No livro Verdadeiramente Humanos, Jean Vanier refere que acolher a nossa condição humana é: “Aceitar que podemos ser amados, como somos; que somos únicos e que a nossa vida vale a pena, em todas as suas diferentes fases “desde a nudez do nascimento até à nudez do envelhecimento e da morte”. Aceitar a nossa fragilidade não nos deixando dominar pela culpa, pela violência e o ódio, que tantas vezes nos assaltam perante situações onde nos sentimentos impotentes. Isso acontece tantas vezes perante pessoas com deficiências, que colocam desafios difíceis de gerir ao nível dos seus comportamentos. As pessoas frágeis podem “atrair o que há de mais belo e luminoso nos ‘fortes’ mas também pode acordar o que há de mais feio e tenebroso”.

Acrescenta ainda: aceitar que estamos em permanente tensão entre ordem e desordem, conexão e solidão, evolução e revolução, segurança e insegurança; pertencer a alguém ou a um grupo, mas ao mesmo tempo afirmar a própria liberdade e independência; correr o risco de perder o controlo das nossas vidas quando nos abrimos ao outro – a “comunhão de corações” é uma coisa bela mas perigosa, pois torna-nos vulneráveis, podemos ser magoados porque as nossas defesas se desarmam; aprender a perdoar – cultivar as atitudes que levam à aprendizagem do perdão (o perdão que liberta é uma ideia desenvolvida com muita originalidade no último capítulo do livro); o perdão de nós mesmos e o dos outros que nos violentaram de alguma forma.

“Indivíduo, família ou grupo humano, construímos muros em torno do nosso coração. Protegemo-nos, temos medo das pessoas. Jesus quer abater esses muros para que possamos acolher o diferente.” Amar o inimigo quer dizer: “saiam dos vossos muros interiores para encontrar o outro, para rezar com ele, para nos tornarmos próximos daqueles de quem não gostamos.” O inimigo não é só um inimigo cultural ou racial. Nas nossas próprias famílias pode ser aquele que desperta em nós as angústias ou inquietações, que nos bloqueia, nos assusta, nos faz descobrir a nossa incapacidade de viver uma relação com tal pessoa.

Jesus veio quebrar esses muros que nos fecham em nós mesmos ou no nosso grupo para estender a mão àquele que nos incomoda. Se nós olhamos para ele como Deus o olha, deixamos de o olhar através dos nossos medos, das nossas feridas, dos nossos preconceitos, do nosso desejo de poder, dos nossos desejos de provar quem somos. É uma transformação radical, com a força do Espírito Santo, para nos tornarmos homens e mulheres capazes de perdoar e de ser perdoados.

 O livro Ouve-se um grito(publicado em português pela Paulinas em 2018, tem na edição francesa de 2017 o subtítulo “o meu caminho para a paz”) – constitui uma espécie de testamento espiritual de Jean Vanier. Aqui ele fala do seu percurso de busca contínua da Verdade e do melhor modo de a servir, ouvindo “a pequena voz interior que habita no coração de todo o ser humano” e referindo-se à Gaudium et Spes, a constituição do Vaticano II sobre a Igreja no mundo actual:

“A consciência é o centro mais secreto do homem, o santuário onde ele está a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir. A consciência é o santuário sagrado onde Deus nos fala para nos indicar o caminho do bem e nos desviar do mal. A sua voz não nos dá ordens peremptórias, mas procede duma intuição, duma atração para o Deus de amor que podemos seguir ou rejeitar em total liberdade”.

Este livro autobiográfico, de uma enorme riqueza, é escrito em colaboração com o jornalista François-Xavier Maigre. Na sua introdução, Jean Vanier diz que ele nasceu de uma enorme urgência: “Diante do triste espetáculo das divisões, dos medos, das guerras que se espalham no nosso mundo; diante da depressão e o desespero de tantos jovens, ouso partilhar convosco um caminho de esperança que me foi aberto.” (…) Depois dos atentados terríveis que assolaram a França, é cada vez mais importante dar testemunho de que a fraternidade é possível entre culturas, religiões e histórias diferentes. (…) O futuro depende de cada um de nós.”

 

Os mais frágeis são preciosos

Jean Vanier: É a ternura que possibilita o encontro da pessoa consigo e com os outros, libertando-nos do “caos e da solidão”. Foto © Filipe Teixeira

 

No seu livro Signes des Temps (2012), Jean desenvolve a ideia que o oposto da violência é a ternura, ideia que volta a referir em várias das suas obras mais recentes. É a ternura que possibilita o encontro da pessoa consigo e com os outros, libertando-nos do “caos e da solidão”.

O papel das pessoas com diferentes tipos de fragilidade é central na construção de sociedades mais humanas. Uma constante nos livros de Jean Vanier é a insistência na ideia de que estes mais pequenos, os que a “tirania da normalidade” exclui, são preciosos para a humanização da sociedade, porque eles nos tornam capazes de deixar emergir a melhor parte de nós (Signes des Temps).

Citando de Verdadeiramente Humanos: “Acolher-me a mim próprio como eu sou, não é só reconhecer a minha vulnerabilidade, é também descobrir que posso dar vida aos outros. O mais importante no ser humano é talvez poder dar alegria aos outros. É a fecundidade. O drama da nossa sociedade é que as pessoas não têm que ser fecundas, mas sim produtivas e eficazes. A fecundidade humana não é só biológica. Está implícita em todas as relações humanas em que há colaboração com outros que fazem nascer a confiança mútua. Comunica-se a vida quando se ajuda uma pessoa a reconhecer o seu próprio valor e a sua beleza; quando se ajuda uma pessoa a ter confiança nas suas capacidades, a sentir que se espera algo dela.”

“Enquanto não tivermos descoberto a nossa pertença a uma humanidade comum, a nossa interdependência e a necessidade de nos entreajudarmos, continuaremos a esconder-nos atrás dos nossos sentimentos de superioridade, de elitismo e as suas consequências: os muros de preconceitos, de julgamento do outro e de desprezo.”

Baseado nas meditações do autor num retiro da Semana Santa de 2010, Jesus Vulnerável foi outro livro de Jean Vanier publicado recentemente em português (Editorial A.O., 2017). Trata-se de uma meditação sobre a fragilidade que todos vivemos e tememos no nosso íntimo. Fragilidade que Jesus partilhou connosco, fazendo-se humano como nós.

Nesta, como nas outras obras, Jean parte sempre da história de partilha da sua vida com pessoas com deficiência que viveram situações de exclusão social. Foram humilhadas, mas puderam reconstruir-se por terem vivido uma relação humana “de comunhão”, deixando de ver a sua fraqueza como algo de negativo, deixando de ter medo dela. “Saberá que é amada como é.” Jean reconhece que as pessoas com deficiência «Abriram o meu coração, amansaram-no e conduziram-me a viver o essencial do amor, que não está no ‘fazer por’ mas no ‘viver com’. Viver a comunhão e a presença ali onde Deus se encontra. Estas pessoas transformaram-me e deram-me uma nova visão que pode ajudar as nossas comunidades a tornarem-se mais humanas».

«Ao contrário da ‘cultura de fazer melhor que os outros, de ganhar’, para a pessoa com deficiência o importante ‘é o encontro’, é estar feliz que o ‘outro’ exista, a alegria de ser». «Todo o mistério de Jesus vulnerável, que lava os nossos pés, tem por finalidade que nos levantemos, para caminharmos para uma liberdade maior: a transformação dos nossos corações, rumo à sabedoria do amor.»

Em Verdadeiramente Humanos, Jean Vanier termina o livro, escrevendo: “Somos todos chamados a percorrer o caminho que nos leva ao perdão se pretendermos tornar-nos verdadeiramente humanos, superar a divisão e a opressão e trabalhar em prol da paz. (…) Não coloquemos todavia a nossa mira demasiado alta. Não temos que ser salvadores do mundo! Somos simplesmente seres humanos, envoltos em fraqueza e em esperança, chamados a, todos juntos, mudar o nosso mundo, um coração de cada vez.”

Vale a pena ler estes livros, meditá-los e deixar-se interpelar por eles para nos tornarmos verdadeiramente humanos!

 

Uma bibliografia indispensável

Além de Verdadeiramente Humanos (ed. Princípia, 2018), destaco a seguinte bibliografia:

La Communauté Lieu de Pardon et de la Fête, ed. Fleurus-Bellarmin, Paris-Montréal, 1979 ; há uma edição em português, A Comunidade, Lugar de Perdão e de Festa (Paulinas, 1983, esgotada).

La Communauté Lieu de Pardon et de la Fête, version abrégée et illustrée, ed. Mame, 2017 (edição resumida).

Homme et Femme Dieu les fit (1984 e 2009).

Je Rencontre Jésus, ed. Anne Sigier, Québec, 1982 (Houve uma edição em português com o título Encontrei Jesus, ed. Paulistas, sem data, acompanhada de desenhos das Irmãzinhas de Jesus, para a catequese.)

Je Marche avec Jésus, ed. Anne Sigier, Québec, 1986.

Toute Personne est une Histoire Sacrée, ed. Plon, Paris, 1994.

Entrer dans le Mystère de Jésus – une lecture de l’Évangile de Jean, ed. Bayard-Novalis, Paris-Montréal, 2005.

Aimer Jusqu’au Bout – Le scandale du lavement des pieds, Montréal-Paris, ed. Novalis-Bayard, 1996.

Ensemble, Vers une Terre d’Unité – Une vision de l’œcuménisme, ed. Trosly, La Ferme, 1999.

Finding Peace, ed. Continuum, New York, London 2003.

Leur Regard Perce nos Ombre– avec Julia Kristeva, ed. Fayard, Paris, 2011.

Living Gently in a Violent World – The Prophetic Witness of Weakness, Stanley Hauerwas & Jean Vanier, ed. IVP Books, Illinois (EUA).

Les Signes des Temps à la Lumière de Vatican II, ed. Albin Michel, Paris, 2012

Mental Health: The Inclusive Church Resource, with John Swinton, ed. Longman & Todd, 2014.

Jésus vulnérable, ed. Salvator, 2015 (em português: Jesus vulnerável, ed. A.O. 2017).

Cri du Pauvre, cri de Dieu, ed. Salvator, 2016.  

Un Cri se Fait Entendre – Mon Chemin Vers la Paix, Bayard, 2017 (edição portuguesa: Ouve-se um grito – o mistério da pessoa é o encontro, ed. Paulinas, 2018).

 

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Fausta Esperanza é jornalista, da redação internacional do L’Osservatore Roman, jornal oficial da Santa Sé; a moderação do debate é de Lurdes Ferreira; a sessão terá tradução simultânea em italiano e português.

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