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Jean Ziegler. Escritor Suiço
Jean Ziegler (1934-2026). Foto © ANF News

Evocação

Jean Ziegler (1934-2026): a coragem ao serviço dos direitos humanos

Foram vários os combates travados por Jean Ziegler. Todos entabulados em nome da democracia e dos valores que fundam a nossa civilização, designadamente a solidariedade e a justiça. Sociólogo, deputado federal pelo Partido Social Democrata, relator especial da ONU para o direito à alimentação, membro do Comité Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU e um dos mais famosos intelectuais suíços, morreu no dia 10 de Junho. Tinha 92 anos.

Os portugueses puderam conhecer, há 50 anos, uma das suas grandes preocupações, com a publicação de A Suíça Acima de Qualquer Suspeita. O livro, editado pela Perspectivas & Realidades, em 1976, apresentava-se como uma vigorosa denúncia de um país que enriquecia com as desgraças alheias. A obra valeu-lhe nove processos em cinco países e dois atentados. Regressaria ao tema com A Suíça Lava Mais Branco, publicado em Portugal em 1990, pela Editorial Inquérito. Não por acaso, Jean Ziegler foi considerado como “a vergonha da Suíça”, como recordava Alexander Thoele na entrevista que lhe fez para o SWI, serviço online internacional da Sociedade Suíça de Rádio e Televisão, em 25 de Abril de 2022.

“Uma vigorosa denúncia de um país que enriquecia com as desgraças alheias.”

 O rótulo não deixa de ser uma espécie de homenagem a um homem valente. Coragem foi o que não lhe faltou na luta contra o crime organizado. Em Lisboa, no Hotel Altis, no dia 9 de Fevereiro de 1999, Jean Ziegler considerou-o como a primeira ameaça aos valores da nossa civilização.

Na iniciativa promovida pela Fundação Friedrich Ebert, insistiu na absoluta urgência de evitar que a Europa se transformasse numa selva dominada por novos “senhores do crime”. Ao lado deles, os mafiosos sicilianos são quase ridículos, considerou. É que, como explicava, os novos criminosos funcionam com recurso a um tipo de organização militarizada. Além de tropas próprias, dispõem de peritos em diversos domínios que os ajudam a contornar os obstáculos que possam impedir o livre curso das múltiplas actividades ilegais que desenvolvem.

A nova criminalidade, explicava Jean Ziegler, além de ser extremamente eficaz e violenta, estava a misturar-se com os circuitos legais e a penetrar no tecido político e social da Europa.

As conversas que manteve com autoridades policiais e judiciais de vários países e a exaustiva investigação que realizou durante quatro anos com uma equipa que incluiu um delegado do Ministério Público alemão e um especialista em Direito Penal da Universidade de Milão deram origem ao livro Senhores do Crime – As novas máfias contra a democracia (Terramar, 1999).

A responsabilidade decisiva no desenvolvimento dos quase seis mil cartéis criminosos que se espalharam por todo o continente europeu foi imputada à onda liberalizadora que o tinha varrido (e parece que continuará a varrer enquanto os Estados tiverem algo para escorropichar).

 

“A fome não é uma fatalidade”

Um dos dados mais eloquentes então apresentados por Ziegler era o que estimava que o capital financeiro em circulação era 32 vezes maior do que o conjunto de bens produzidos durante um ano. Como o sociólogo afirmava, o capital financeiro não tem nada a ver com o capital produtivo. O que sucede, acrescentava, é que o capitalismo especulador, na sua ganância sem limites de multiplicar permanentemente os lucros, acaba por destruir a democracia e os seus valores.

“Se a distribuição dos alimentos sobre a Terra fosse justa, haveria comida à vontade para todos.”

A introdução dos capitais criminosos nos circuitos legais e a lavagem de dinheiro eram, de resto, como Jean Ziegler então avisava, susceptíveis de evoluir de tal modo que deixaria de fazer sentido falar de uma diferença entre capitais legais e capitais criminosos.

Jean Ziegler também se empenhou firmemente na luta contra a fome no planeta.

No livro A Fome no Mundo Explicada ao Meu Filho (Terramar, 2004), construído segundo o modelo pergunta e resposta, o sociólogo apresenta-se simples e directo. À pergunta: “A fome não é uma fatalidade?”, responde claramente: “De modo nenhum! Se a distribuição dos alimentos sobre a Terra fosse justa, haveria comida à vontade para todos.”

Na entrevista já citada, o antigo relator especial da ONU para o direito à alimentação indicava dados da FAO, que estabelecem que “a cada cinco segundos uma criança com menos de dez anos de idade morre de fome ou das suas consequências imediatas”. O relatório que estava a citar assinalava ainda que “a agricultura mundial, tal como é agora, normalmente poderia alimentar 12 mil milhões de pessoas”. Hoje alimenta pouco mais da metade. O respeito pelo direito à alimentação quase duplicaria o número de pessoas nutridas. Para Jean Ziegler, “uma criança que morre de fome foi, na verdade, assassinada”. A fome “não é uma fatalidade”. Ela é humanamente provocada e pode humanamente ser eliminada.

 

A bolsa que controla o preço dos cereais

Jean Ziegler

Jean Ziegler em Munique, em 2015. Foto © Harald Bischoff/Wikimedia Commons

Com a autoridade que lhe advinha do facto de ter sido relator especial da ONU para o direito à alimentação, Jean Ziegler explicava em A Fome no Mundo Explicada ao Meu Filho o que ocorria, por exemplo, com os preços dos cereais.

“Não sei se sabes”, faz notar o sociólogo ao seu fictício interlocutor, “mas há especulação sobre os preços de quase todos os alimentos naturais que se compram no mercado livre”. Jean Ziegler fala depois de um edifício singular existente na cidade de Chicago, nos Estados Unidos da América. É aí, perto do lago Michigan, que se eleva um arranha-céus impressionante que se chama Chicago Commodity Stock Exchange, a bolsa das matérias-primas agrícolas.

Esta bolsa é dominada por meia dúzia de bancos, explica o autor do livro, sendo o comércio propriamente dito controlado por um pequeníssimo número de negociantes de cereais, “que são infinitamente poderosos” e “têm sucursais de compra e venda no mundo inteiro”. Para os caracterizar, o sociólogo aproveita as palavras de Thomas Sankara, presidente do Burkina Faso assassinado em 1987: “São uns predadores.”

Os especuladores da Bolsa de Chicago, prossegue Jean Ziegler, manipulam os preços como lhes convém. “As suas estratégias obedecem a um único princípio: conseguir o máximo lucro”. Quanto a saber se os diversos países de várias partes do mundo, empenhados em combater a tragédia da fome que mata e estropia as suas populações, são capazes de pagar os preços exorbitantes que lhes são exigidos, isso é totalmente indiferente para os senhores da Bolsa de Chicago. De facto, “o que eles querem é ganhar, todas as semanas, mais alguns milhões de dólares. Se se lhes fala dos supliciados da fome, eles respondem invariavelmente que para isso há a ONU e a Cruz Vermelha…”

Sobre o presente e o futuro, Jean Ziegler não se mostrou optimista na entrevista ao SWI: “Hoje é possível termos uma guerra na Europa. É um momento horrível de regressão. Talvez o Ocidente tenha cometido um erro.” Falando antes da reeleição de Donald Trump, o sociólogo considerou Vladimir Putin como “um perigo para a humanidade, não só para a civilização europeia, mas também para a paz mundial. Putin é um assassino em massa. E os chineses também oprimem os uigures”.

Jean Ziegler deplorava o “total desrespeito pelos direitos humanos” e manifestava-se contra os modelos de sociedade fundadas nos valores que estão nos antípodas do que as pessoas buscam. Infelizmente, diz ele, esses modelos que rejeitam a liberdade, a igualdade e a fraternidade estão a tornar-se cada vez mais poderosos. É preciso enfraquecê-los. Jean Ziegler costumava dizer que, para amar as pessoas, era preciso lutar contra aquilo que as oprime.

(A seguir, pode ver-se um curto vídeo sobre Ziegler: O optimismo da força de vontade)

 

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