Jerusalém e Gaza “quase à beira de uma guerra civil”, diz patriarca Pizzaballa

| 17 Mai 2021

Graffiti numa parede em Gaza: o patriarca Pizzaballa denuncia a “política de desprezo como antecâmara da violência”. Foto © Newtown grafitti_Wikimedia Commons

 

“Estamos a assistir a uma violência cega e nunca antes vista, estamos quase à beira de uma guerra civil”, diz o patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, para quem “a política de desprezo levadas a cabo por formações extremistas de direita – o desprezo é sempre a antecâmara da violência” é o que está por detrás da nova vaga de violência.

Neste domingo, o Papa Francisco voltou a referir-se ao tema, condenando a “inaceitável” morte de crianças no conflito entre Israel e Palestina: “Nestes dias, violentos confrontos armados entre a Faixa de Gaza e Israel aumentaram e arriscam-se a degenerar numa espiral de morte e destruição”, avisou, na sua alocução após a recitação da oração do Regina Caeli.

Francisco recordou ainda que várias pessoas ficaram feridas e “muitos inocentes morreram, entre eles também crianças”. “Isto é terrível, é inaceitável. A sua morte é um sinal de que não se quer construir o futuro, pelo contrário, querem destruí-lo”, afirmou, citado pela Ecclesia.

“O crescendo de ódio e de violência que atinge várias cidades de Israel é uma grave ferida para a fraternidade e  convivência pacífica entre os cidadãos, que será difícil curar sem que se volte a abrir, imediatamente, o diálogo.”

O Papa pediu ainda o fim da lógica do “ódio e da vingança”, julgando que se pode construir a paz “destruindo o outro”: “Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e que os chamou a conviver como irmãos, entre si, apelo à calma, pedindo a quem tem responsabilidade que faça cessar o fragor das armas e percorra os caminhos da paz, também com a ajuda da comunidade internacional”.

Desde segunda-feira que há ataques do Hamas contra Israel, com foguetes, e ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, com bombardeamentos. Nos dias anteriores, tinha já havido confrontos entre palestinianos e militares israelitas, a ponto de, logo no domingo, 9, o Papa ter manifestado já a sua preocupação com a situação.

Até este domingo, morreram pelo menos 182 palestinianos na Faixa de Gaza, incluindo 52 crianças e 22 mulheres. Em Israel, há pelo menos 10 mortos.

 

“Crimes de guerra” e “despejos inaceitáveis”

Em declarações neste domingo à TSF, o director da agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos em Gaza, Matthias Schmale, condenou o que classificou como crimes de guerra. “Como trabalhador humanitário, diria que sim, há crimes de guerra a acontecer. O facto de pelo menos 13 crianças que iam às nossas escolas, terem sido mortas, sem qualquer motivo, é um crime de guerra. Para mim, matar civis é um crime de guerra”.

Também os patriarcas e líderes das igrejas cristãs de Jerusalém se mostraram “profundamente desanimados e preocupados” com a nova situação de violência armada em Jerusalém. “Esses acontecimentos, que ocorreram tanto na Mesquita de Al Aqsa como no (bairro) Xeque Jarrah, violam a santidade do povo de Jerusalém e de Jerusalém como a Cidade da Paz”, dizem, numa declaração conjunta publicada quinta-feira passada, dia 13.

Os líderes cristãos contestam ainda os despejos “inaceitáveis a que têm sido sujeitos os palestinianos. E acrescentam: “O carácter especial de Jerusalém, a Cidade Santa, com o actual status quo, obriga todas as partes a salvaguardar a já delicada situação da Cidade Santa”, diz o documento. “A crescente tensão, apoiada principalmente por grupos radicais de direita, põe em perigo a já frágil realidade em Jerusalém e nos arredores”, acrescenta o texto, apelando à intervenção da comunidade internacional para pôr fim às “acções provocadoras” – um apelo repetido também pelo Conselho de Igrejas do Médio Oriente.

Para o patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, que vive há 30 anos na Terra Santa, “o que estamos observando hoje é o resultado de anos de política de desprezo e também de abandono”, diz, em declarações à agência SIR, da Conferência Episcopal Italiana, e que podem ser lidas em português no boletim informativo da Unisinos.

Pizzaballa denuncia também casos de agressão contra algumas famílias [cristãs], não por motivos religiosos, mas por serem árabes. “Fui chamado pelas paróquias que me pediram para fazer alguma coisa, promover encontros com judeus e muçulmanos, a fim de acalmar a situação. Entre as pessoas há tanta surpresa e grande preocupação por uma violência que explodiu de forma muito rápida e inesperada, sinal evidente de um cansaço que já vinha se formando há algum tempo.”

O patriarca considera que é “importante que as comunidades e os líderes religiosos” ajudem a “reconstruir a confiança”, mesmo se esse é um trabalho longo. “Não devemos ter muitas ilusões esperando resultados rápidos. É um trabalho que parte de longe, das escolas, em primeiro lugar, ensinando convivência, respeito, tolerância e direito”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência”

Cartas de Luiza Andaluz em livro

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência” novidade

Preocupações com um homem que estava preso, com o funcionamento de uma oficina de costura para raparigas que não tinham trabalho, com a comida para uma casa de meninas órfãs. E também o relato pessoal de como sentiu nascer-lhe a vocação. Em várias cartas, escritas entre 1905 e 1971 e agora publicadas, Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima, dá conta das preocupações sociais que a nortearam ao longo do seu trabalho e na definição do carisma da sua congregação.

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This