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O Pe. Domingos Monteiro da Costa fala de uma Igreja que precisa de se mostrar ao mundo, como pede Jesus. Foto © Ponto SJ

Nos 50 anos de ministério

Jesuíta Domingos da Costa pede “um novo modo de ser Igreja”

| 13/08/2022

O Pe. Domingos Monteiro da Costa fala de uma Igreja que precisa de se mostrar ao mundo, como pede Jesus. Foto © Ponto SJ

O padre Domingos Monteiro da Costa fala de uma Igreja que precisa de se mostrar ao mundo, como pede Jesus. Foto © Ponto SJ

 

O padre jesuiía Domingos Monteiro da Costa celebra 80 anos de vida e 50 de sacerdócio, 47 dos quais dedicados à paróquia da Mexilhoeira Grande, no Algarve, onde é o principal responsável pela Aldeia de São José de Alcalar, um projeto inovador de apoio social, assim como um trabalho pastoral que lançou as bases para o aparecimento de uma paróquia gerida e liderada por um diácono leigo e a sua esposa.

Numa extensa entrevista de vida concedida ao portal Ponto SJ, Domingos da Costa, mesmo sendo jesuíta, conta que teve sempre o trabalho pastoral em vista, numa abordagem diferente daquela que era a realidade da Companhia de Jesus na altura. “Eu queria era ser um seminarista diferente, manter-me pobre. Até pelo exemplo contrário que tinha: o sr. abade convidava os seminaristas para o pequeno almoço a seguir à missa e eu, que era acólito, nunca me convidou para nada”, lembra.

Depois de ordenado, em 1972, foi para o Algarve depois de uns tempos de experiência na Alemanha, e encontrou uma paróquia abandonada. “Nós viemos enviados pelo provincial [jesuíta] só para ver o terreno, não trouxemos tralha nenhuma e só nos deram dez contos para o começo. O bispo, como não conseguiu ninguém para a paróquia da Mexilhoeira Grande, passou por lá e deixou-nos um bilhete debaixo da porta. Foi no dia 2 de outubro de 1975 e dizia o seguinte: «Se hoje passarem pelo apartamento antes das 15h apareçam na sacristia da paróquia da Mexilhoeira que eu estou lá numa reunião.» Vimos o bilhete, fomos ao encontro e aí se resolveu o nosso futuro”, recorda.

Em 1976, lembra ainda, foi chamado a tribunal. Havia eleições e, no fim das missas, andava a explicar às pessoas que “era preciso votar”, e quais os partidos que existiam, pois as pessoas eram analfabetas. Foi chamado por causa de suspeitas de que estaria a orientar as pessoas, mas nada foi provado.

A sua nova paróquia “não contava socialmente”, já que o pároco anterior tinha sido preso e expulso. “Não havia catequese, jovens, casais, homens na igreja; havia 40 a 50 velhinhas, que rezavam o terço no meio da missa. Ninguém tinha Bíblia católica. As Testemunhas de Jeová cobriam este espaço todo com visitas, mas depois começaram a perder peso. Cheguei a dizer que era melhor ser bom Testemunha de Jeová do que mau católico. Para termos credibilidade temos que ser melhores do que os outros na oferta que fazemos”, alerta.

E foi o que fez. Observando a pouca resposta social que havia na altura naquela região, começou por construir um jardim de infância para as muitas crianças que havia na altura, e aos jovens, que não chegavam a concluir o 9º ano, contava-lhes: “Diziam-me no tempo da formação que eu não podia ler livros para não perder a vocação, vocês leiam isso tudo. Fortalecerão muito mais a vossa fé ao perceberem que a Igreja, depois de tantos disparates que fez, continua viva dois mil anos depois. Só mesmo por ser divina, senão não aguentava.”

Depois veio a preocupação com os idosos e a elevada taxa de suicídios que havia na época. “Quando fazia funerais, ouvia as pessoas: ‘Enforcou-se’, ou ‘Foi ao canal e afogou-se’. O suicídio, diziam que era o destino, a vontade de Deus. E eu perguntava: “Um Deus que determina pessoas para se suicidarem?!” Comecei a ver que todos aos anos havia dois ou três suicídios de pessoas isoladas nos sítios do interior. E disse: ‘Tem de haver uma solução.’ Adaptei a residência paroquial para lar de idosos e acabaram os suicídios”, garante.

Sobre a Igreja, lamenta que os cristãos não sejam “educados para ler a realidade”. “Somos educados para fazer comunhões, para os sacramentos e depois vamos embora, por isso é que as igrejas estão vazias. As igrejas não estão vazias do mundo, daqueles que já cá não vinham, mas dos que estavam cá e abandonaram”.

Gostava que os bispos “fossem eleitos nas suas próprias dioceses”, para que “cada um se cobrisse com a mantas que tem”, que os bispos fossem às paróquias ouvir as pessoas e não nomeassem párocos “tapa-buracos”, e considera que a Igreja já ultrapassou crises bem piores que a dos abusos. “Acho muito bem que, com os meios de comunicação social, estamos todos expostos, para sermos elogiados ou sermos marginalizados. É não termos medo do mundo, foi ao mundo que Jesus Cristo nos enviou”, conclui.

 

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