A Companhia de Jesus disponibilizou-se esta quarta-feira, 26 de março, para assumir vários tipos de iniciativas, entre as quais reparações de natureza económica, para com cerca de 20 mulheres que se dizem abusadas pelo padre e artista Marko Rupnik. O teor da carta foi confirmado pela advogada Lara Sgro que representa pelo menos cinco das mulheres.
Num comunicado enviado à Associated Press (AP), Johan Verschueren, um alto responsável dos Jesuítas, que, além de conselheiro geral, é Delegado para as Casas e Obras Interprovinciais da Sociedade de Jesus em Roma, revelou ter enviado uma carta a cerca de duas dezenas de alegadas vítimas de abusos daquele padre, na qual a Companhia de Jesus diz acreditar que “um processo de cura e reconciliação interior é possível, desde que haja também um caminho de verdade e reconhecimento” da parte da instituição.
Na missiva, Johan Verschueren lamenta que Rupnik se tenha recusado a seguir um caminho de verdade e reparação e que a igreja institucional se tenha recusado, ao longo dos anos, a ouvir as reivindicações de quem se diz vítima ou proporcionar justiça.
A carta, caracterizada pelo responsável jesuíta como um “gesto de mão estendida”, visa “saber aquilo de que as vítimas precisam agora” e como pode a Companhia “atender a essa necessidade”. Em circunstâncias deste tipo, a ação da Igreja tem assumido várias modalidades, desde assistência económica, ajuda espiritual ou psicológica, compensação financeira ou até mesmo ajuda para encontrar trabalho.
“Qualquer caminho para a reparação dependerá totalmente da pessoa convidada. A concretização disso virá depois”, disse Verschueren, acrescentando que os Jesuítas também precisam de aprender com as vítimas para que tais abusos não se repitam.
A advogada das vítimas, por sua vez, considerou a decisão da Companhia de Jesus um “gesto claro, forte e concreto” de reparação. Ao mesmo tempo, pediu ao Dicastério do Vaticano para a Doutrina da Fé, que tem a investigação de Rupnik de novo nas suas mãos, desde outubro de 2023, que processe finalmente Rupnik e “restaure a dignidade das vítimas”, sem mais atraso. “A justiça simplesmente tem de ser feita”, reiterou Laura Sgro.
Não foram adiantados os critérios que presidiram à constituição da lista de vítimas a quem foi enviada a carta, sendo que várias fontes têm referido um número bem superior a duas dezenas.
Em que medida existe alguma relação entre esta iniciativa da Companhia de Jesus e a perceção existente de que o caso Rupnik dá sinais de estar a “enrolar” no Vaticano, ou se se trata de mera coincidência, é algo que os desenvolvimentos, nos próximos meses, ajudarão a perceber.
De facto, depois de se saber que a investigação sobre o caso foi completada naquele departamento da Cúria Romana, o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Victor Manuel Fernández, disse recentemente aos jornalistas que estava a ter dificuldade em arranjar juízes externos para julgar as acusações contra Marko Rupnik.
Como refere a jornalista Nicole Winfield, na sua peça na AP, “o caso é altamente sensível, dadas as sugestões de favoritismo para o amigo do Papa, e levantou questões sobre o que fazer com as dezenas de basílicas ao redor do mundo que apresentam os mosaicos característicos do artista”.
“Fizemos uma lista (de possíveis juízes) e começamos a conversar com eles porque é preciso encontrar juízes que tenham certas características para uma matéria tão mediática”, disse Fernández.
Como recorda a Associated Press, até agora, Rupnik não respondeu publicamente às alegações e recusou-se a responder aos seus superiores jesuítas durante a investigação, antes de ser expulso da Companhia, em 2023. Por sua vez, os apoiantes do clérigo, no seu atelier de arte, o Centro Aletti, mas não só, denunciam aquilo que designam por “linchamento” mediático, de que Rupnik estaria a ser vítima.










