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Jesuítas, azulejo, ciência, Museu Nacional Machado de Castro

Exposição até domingo, em Coimbra

Jesuítas: evangelização, ciência e globalização

| 22/09/2022

Jesuítas, azulejo, ciência, Museu Nacional Machado de Castro

Azulejos didácticos utilizados nas lições no Colégio de Jesus, de Coimbra, que reproduziam desenhos dos Elementos de Euclides publicados por André Tacquet. Foto © António Marujo/7Margens

 

Podemos olhar para um azulejo e ver nele a ilustração ou, mesmo, uma página de um livro. O conjunto de azulejos que ainda se pode ver, até ao próximo domingo, 25 de Setembro, na exposição A Companhia de Jesus – Evangelização e Ciência (Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra) é isso mesmo que traduz, ilustrando operações de geometria ou matemática, ou conceitos de astronomia, por exemplo.

Estes pequenos quadrados de cerâmica, azulejos didácticos, eram utilizados nas lições no Colégio de Jesus e reproduziam desenhos dos Elementos de Euclides publicados por André Tacquet, explica um dos painéis informativos na exposição. As ilustrações seguiam ainda as instruções dadas em 1692 pelo padre geral da Companhia, Tirso González, no sentido de promover o estudo da Matemática na província jesuíta da Lusitânia.

Os azulejos revelam outra coisa: a forma como os jesuítas entendiam (e entendem) desde a sua fundação – já lá vão quase cinco séculos – o papel do ensino em geral e da ciência em particular. A divulgação e investigação científica são, para eles, uma componente essencial da evangelização e é também disso que esta mostra fala.

Evangelização e ciência, juntas, deram também um importante contributo para a globalização: “Durante cerca de dois séculos (entre 1540 e 1773), a Companhia de Jesus assegurou os níveis credibilizados do diálogo político e intercultural entre os dois hemisférios e as longitudes em jogo a partir do século XVI”, diz um dos textos de enquadramento. “Sempre a partir da sua rede colegial, os jesuítas montaram uma formidável engrenagem científica, com uma capacidade de domínio e projeção que lhes permitiu, muitas vezes, serem os grandes interlocutores em patamares de difícil conciliação ou serem embaixadores e diplomatas em causa externa.”

O mesmo texto recorda as áreas científicas em que os jesuítas se embrenharam, tão diversas quanto a Astronomia, Música, Matemática, Geometria, Física, Náutica, Hidrografia, Cartografia, Geografia, Óptica, Perspectiva, Arquitectura – entre outras.

Jesuítas, Museu Nscional Machado de Castro

Um aspecto da exposição com o quadro (à esqª) Martírio de Francisco Aranha, mártir na Índia, em 1583. Foto © Arlindo Homem/DGPC

 

A exposição insere-se na comemoração dos 400 anos da canonização de Inácio de Loiola e Francisco Xavier, ocorrida em 1622. No próximo domingo, no âmbito das Jornadas Europeias do Património e assinalando o encerramento da exposição, o padre jesuíta Francisco Montellano falará às 16h sobre a formação e a ciência na Companhia de Jesus; e uma hora depois, a directora do Machado de Castro, Maria de Lurdes Craveiro, orienta uma visita guiada à exposição.

É esta responsável que descreve o itinerário que a exposição percorre: Inácio de Loiola e os Exercícios Espirituais, “matriz do pensamento jesuítico, que tanto deve às correntes anteriores da devotio moderna”, a que se seguem várias publicações internas: Constituições, organização dos estudos da “imensa rede colegial que sustentava todo um périplo espiritual de cunho interventivo” e o monograma da Companhia – IHS – que “remete para a imagem e o exemplo de humildade de Jesus, e que aparece aqui em vários objectos e diferentes formatos, materiais, técnicas e funções.

A segunda parte apresenta peças oriundas do Colégio de Jesus, de Coimbra, especialmente relacionadas com a ciência e, em concreto, a Matemática. Os azulejos didácticos é aqui que se situam.

 

O caranguejo e o príncipe da eterna juventude
Jesuítas, relicário, Museu Nacional Machado de Castro

O relicário representando a cruz devolvida a Francisco Xavier por um caranguejo no Mar das Molucas. Foto © António Marujo/7Margens

No centro da mostra, destaca-se um relicário com um caranguejo que, segundo a lenda, teria devolvido a Francisco Xavier (representado ao lado) uma cruz que ele perdera no Mar das Molucas – e essa peça é a marca da exposição. Um outro quadro, representando o Martírio de Francisco Aranha, mártir na Índia, em 1583, remete também para a globalização do cristianismo e da ciência protagonizada pelos jesuítas. Mas essa ideia está presente em outras obras que também se podem referenciar, como sejam a Senhora do Pópulo, os 40 Mártires do Brasil, ou das 11 Mil Virgens. Em todas elas, a dimensão da presença global jesuítica cruza-se ainda com a ideia e as representações do martírio e com o factor do poder emocional que as relíquias exerciam sobre a devoção dos crentes.

“Transversal a toda esta engrenagem, o ciclo pintado da vida do polaco Santo Estalisnau Kostka, jesuíta morto precocemente (1550-1568), vai ao encontro de idêntica estratégia propagandística ligada aos ciclos da vida de Inácio de Loyola e Francisco Xavier (mais comuns) e constitui a maior novidade desta exposição”, refere Maria de Lurdes Craveiro. Kostka é, entre os jesuítas, o “príncipe da eterna juventude”, refere um outro texto da mostra. Ele e o italiano Luís Gonzaga, que também morreu jovem aos 23 anos, são “representados muito frequentemente juntos e ligados ao espaço dos noviciados das casas da Companhia, como exemplos de vida contemplativa e entregue a Cristo”.

Podemos ver uma das telas aqui expostas, a do Êxtase de São Estanislau Kostka, como exemplo disso mesmo: os rostos do jovem noviço e dos que o acompanham como que destacados do corpo e do hábito, surgindo como pontos de luz ou máscaras etéreas em corpos terrenos.

O jovem Estalisnau, beatificado em 1605 e canonizado em 1726, tem sido inspiração para o “estímulo pedagógico nos colégios da Companhia”, acrescenta ainda a directora do Museu Machado de Castro. O ciclo de oito telas apresentadas na exposição (provavelmente incompleto, diz Lurdes Craveiro) terá sido pintado poucos anos depois da beatificação, talvez cerca de 1625. “Mais do que a sua qualidade plástica, importa, assim, considerar a sua função espiritual e didáctica, no que deverá ser o único exemplar pintado que resta em Portugal”, para lá dos quatro registos azulejares pertencentes à Capela do Noviciado de Arroios, observa ainda a responsável.

Jesuítas, Museu Nacional Machado de Castro

O Êxtase de São Estanislau Kostka (c. 1625), o “príncipe da eterna juventude”. Foto © António Marujo/7Margens

 

Além das que são do acervo do Machado de Castro, as peças provêm do Museu de S. Roque, Diocese de Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e de uma colecção privada.

Resume Lurdes Craveiro: “A uma escala planetária, o seu desempenho fê-los religiosos e missionários, estrategas políticos e intermediadores de conflitos, embaixadores e diplomatas, homens de ciência e de acção humanitária, heróis e mártires. Professar na Companhia de Jesus significava, assim, um repto que implicava intervenção, audácia, conhecimento e abnegação.”

 

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