Nas vésperas da COP30 – que terá lugar em Belém do Pará, no Brasil, entre os dias 10 e 21 de novembro – a Companhia de Jesus lança uma campanha global que inclui diversas iniciativas tendo em vista a promoção da justiça climática. Além disso, os próprios jesuítas estarão presentes na cimeira, com uma delegação que “procurará influenciar negociações com argumentos técnicos, políticos, financeiros e jurídicos”.
Intitulada “Jesuítas pela Justiça Climática: Fé em Ação na COP30”, a campanha – à qual os jesuítas em Portugal também se associam – deseja “alertar para a importância dos assuntos que serão debatidos e sensibilizar as comunidades para a necessidade de políticas urgentes para um tema tão complexo quanto urgente”, informa a Província Portuguesa num comunicado enviado ao 7MARGENS.
Esta campanha vem na sequência de um apelo do provincial geral, padre Arturo Sosa, que em maio escreveu uma carta a todos os que colaboram na missão da Companhia sobre a quarta preferência apostólica universal, que visa o cuidado da Casa Comum.
Na altura, o responsável reconheceu o caminho feito, mas pediu um envolvimento maior de todos na luta contra as alterações climáticas, a inclusão dos pobres e dos marginalizados nesta dinâmica, e uma colaboração com outras organizações, que extravasasse o universo da Companhia.
Agora que se aproxima esta reunião internacional, um dos fóruns mais importantes para debater e traçar políticas neste âmbito, o objetivo é que todos os jesuítas se mobilizem para defender quatro objetivos concretos: o cancelamento das dívidas dos países pobres, considerando que dívidas injustas e impagáveis não devem comprometer os recursos para os esforços de adaptação e mitigação das mudanças climáticas; o fortalecimento do Fundo de Perdas e Danos (LDF), alocando recursos suficientes para lidar com os graves efeitos destas mudanças do clima; o estabelecimento de metas claras para uma transição energética justa que busque reduzir as emissões de CO2; e o estabelecimento de metas claras para desenvolver um sistema alimentar global, baseado na soberania alimentar e em práticas agroecológicas, um sistema que promova métodos culturalmente adaptados de produção, processamento, distribuição e consumo de alimentos.
A presença da comitiva jesuítica em Belém terá sobretudo como missão ajudar a construir pontes. “Envolver-se com dados e propostas viáveis — não apenas com slogans — para que nos tornemos uma voz credível à mesa de negociações”, sublinha o padre Roberto Jaramillo, sj, responsável do Secretariado Jesuíta para a Justiça Social e Ecologia, citado no comunicado.
Para os que não estarão na COP 30, o apelo é para que “procurem informar-se, aprofundem os conhecimentos sobre estes temas e acompanhem os trabalhos que vão decorrer no Brasil durante os dez dias”. Para tal, a Companhia de Jesus desenvolveu vários materiais que podem ser encontrados no site www.ecojesuit.com, com documentos para conhecer, subscrever e promover a divulgação, podcasts para ouvir (entre os quais o podcast Fé e Ecologia), bem como uma campanha de oração para acompanhar o encontro através da partilha espiritual. Além disso, ao longo da COP, as redes sociais da Província Portuguesa darão alguns ecos do que está a acontecer.
ZERO e Oikos unem-se para fazer cinco apelos
Uma coisa é certa: “não estamos a fazer o suficiente” pelo planeta, pelo que “uma ação global coordenada e onde cada esforço conta é cada vez mais urgente”, alertam também as organizações não governamentais portuguesas ZERO e Oikos num comunicado conjunto a propósito da COP30.
O comunicado baseia-se em cinco apelos, começando pela exigência de que “a União Europeia e todos os países aumentem imediatamente a ambição das suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) e traduzam os resultados do primeiro balanço global das Nações Unidas em medidas concretas, alinhadas com o limite de 1,5°C, para fechar as lacunas de ambição e financiamento”.
As ONG apelam também a que se crie um Mecanismo Global de Transição Justa, que “assegure uma transição equitativa, abrangendo todos os setores e países, protegendo empregos, direitos sociais, comunidades vulneráveis e povos indígenas, e promovendo energia renovável e sistemas agrícolas e industriais sustentáveis”.
Segundo as duas organizações, é necessário “alinhar o financiamento climático” com o objetivo de impedir um aumento da temperatura global superior a 1,5°C.
“A ZERO e a Oikos apelam a que o financiamento público e privado seja substancialmente aumentado, transparente e previsível, garantindo a justa distribuição entre mitigação, adaptação e perdas e danos, de forma a permitir que os países em desenvolvimento atinjam os seus objetivos climáticos”, escrevem.
As ONG portuguesas falam ainda em “transformar o sistema energético global”, salientando que “é necessário acelerar a eliminação dos combustíveis fósseis, triplicar a capacidade de energias renováveis, melhorar a eficiência energética e assegurar o acesso universal a energia limpa, confiável e acessível, respeitando princípios de justiça e equidade”.
O quinto apelo prende-se com a defesa dos direitos humanos, da participação cívica, da liberdade de expressão e da igualdade de género para que “sejam transversais em todas as decisões climáticas, garantindo que a sociedade civil, os movimentos sociais e as comunidades indígenas possam participar ativamente e influenciar a ação climática global”.
Sobre o envolvimento de Portugal, as organizações consideram que o país “com a sua relação preferencial e de longa data com o Brasil tem condições para facilitar a interação entre a União Europeia e a Presidência da Conferência, desejando-se que a ministra do Ambiente e Energia se envolva ativamente em dossiês de negociação”.
O comunicado conjunto assinala, por fim, que a “janela de oportunidade para travar a crise climática está a fechar” e a prova é que já se sentem “os seus efeitos devastadores”, nomeando as “inundações, incêndios, secas e ondas de calor extremas” como exemplos, que “alertam que o planeta atingiu os seus limites”.
“Já não é tempo de negociação, é a hora da implementação”

António Guterres falou aos líderes que vão participar na COP30, lembrando que os combustíveis fósseis continuam a receber subsídios bilionários e apoio político © UNFCCC/Kiara Worth
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, discursou já nesta quinta-feira, 6 de novembro, na Cimeira de Líderes que antecede a COP30, e a sua mensagem revelou-se alinhada com a das organizações portuguesas. “Já não é tempo de negociação, agora é a hora da implementação. E que ela aconteça mais rápido e de forma que reflita a vulnerabilidade do clima, que sirva aos países em desenvolvimento para que sejam equipados com justiça climática”, afirmou.
Apontando para os últimos dados científicos da Organização Meteorológica Mundial, OMM, o chefe das Nações Unidas realçou que, no ano passado, as emissões globais atingiram um novo recorde, que este ano continua a aumentar. E insistiu que o limite de 1,5 °C é “uma linha vermelha para a humanidade”, garantindo que a ONU “não desistirá” dessa meta.
Ao mesmo tempo que reconheceu que a revolução da energia limpa já está em curso e oferece uma oportunidade sem precedentes, Guterres lembrou que os combustíveis fósseis continuam a receber subsídios bilionários e apoio político. Mas “investir em combustíveis fósseis é apostar contra a humanidade, e contra a economia”, alertou, denunciando que “o que ainda falta é coragem política”.
Assim, defendeu António Guterres, é preciso “agir mais rápido e juntos” e “esta COP deve impulsionar uma década de aceleração e resultados concretos”. Ao mesmo tempo, “os países em desenvolvimento devem sair de Belém munidos de um pacote de justiça climática que proporcione equidade, dignidade e oportunidades”, acrescentou.
“O desafio é imenso, mas as escolhas são claras. Ninguém pode negociar com a física, mas podemos escolher liderar – ou ser conduzidos à ruína. Escolham fazer de Belém o ponto de viragem. Apoiem a ciência. Defendam a justiça. Defendam as gerações futuras”, concluiu.










