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Beirute. Líbano

Jesuítas limpam destroços em Beirute e lançam campanha de apoio em Portugal

| 19/08/2020

Beirute. Líbano

Aspecto da destruição em Beirute, após a explosão de 4 de Agosto, no porto da cidade. Foto © Mehdi Shojaeian/ Wikimedia Commons

 

Os jesuítas portugueses lançaram a campanha Ajudar o Líbano, com o objectivo de apoiar as populações atingidas pelas explosões em Beirute que, até ao momento, causaram mais de 170 mortos, cinco mil feridos e cerca de 300 mil desalojados. A iniciativa pretende responder aos apelos de ajuda que chegam de quem está no terreno, entre eles vários jesuítas, incluindo o português Rui Fernandes, e responde também ao apelo do Papa Francisco, de que os cristãos apoiem o país neste momento de profunda necessidade.

Os donativos, que serão recolhidos na página indicada acima e entregues à Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), serão depois enviados à Rede Xavier para a Missão e o Desenvolvimento. Será esta plataforma internacional de ONG dos jesuítas a responsável por aplicá-los no terreno, em articulação com as entidades locais, informa o PontoSJ, portal dos jesuítas em Portugal.

As explosões no porto de Beirute, dia 4 de Agosto, destruíram parte da cidade e deixaram milhares de pessoas a necessitar de ajuda urgente. A tragédia veio somar-se a uma grave crise económica e política que já se vivia no país, agravada nos últimos meses pela pandemia da covid-19.

A Companhia de Jesus tem várias comunidades e serviços em Beirute. Não houve feridos graves entre os jesuítas na cidade, mas as instalações da Companhia de Jesus foram muito afectadas, de acordo com outra notícia do PontoSJ.

Em declarações à Rádio Renascença, o padre Rui Fernandes recorda o “impacto enorme” que mudou a vida de muitas pessoas num segundo. “A destruição foi quase total, e a partir daí foi um desenrolar de pequenos quadros difíceis: começar a ver pessoas muito feridas, começar a ouvir as vozes de vizinhos dos andares de cima, mães à procura dos filhos.”

Duas semanas depois, o cenário ainda não permite esquecer. “Visualmente, há muitas cicatrizes. A hemorragia ainda não está estancada, porque olhamos à nossa volta e ainda vemos muitos edifícios a ruir; a banda sonora continua a ser a de vidros a serem varridos, pedaços de casas a ser arrancados para que se possa limpar e as pessoas possam tentar minimamente ocupar as casas. É, assim, um ambiente de estaleiro de obras improvisado”, explica, nas extensas declarações à Renascença.

 

Resposta imediata entre a população
Líbano.

Líbano. Protestos contra o Governo em Beirute, em Outubro de 2019, quando o custo de vida e a crise económica eram já galopantes, antes da pandemia e da explosão. Foto © Shahen books/ Wikimedia Commons

 

O grau de destruição é muito grande, sublinha ainda Rui Fernandes no Ponto SJ, e a tragédia agravou ainda mais a situação política e social já tensa que se vivia no país. Contudo, o jesuíta português, há ano e meio no Líbano para fazer a tese de doutoramento, destaca também a grande disponibilidade e generosidade entre as pessoas para ajudar.

“Está a ser garantida a assistência a muitas pessoas, que nesta zona ficaram desalojadas, perderam familiares ou são vítimas da crise financeira gravíssima que o país já estava a atravessar, e agora estão ainda mais vulneráveis”, acrescentou, nas declarações à RR. “Há aqui toda uma rede de associações que fazem a distribuição de alimentos e asseguram as necessidades básicas.”

“A resposta foi imediata, talvez porque [os libaneses] se habituaram a viver situações de guerra nos últimos 40 anos ou por uma questão de temperamento.” Mesmo na rua, “quem estava bem ou com ferimentos ligeiros passou a cuidar dos outros”, conta, explicando que esse continua a ser o ambiente geral na cidade.

A Comunidade de São Gregório, onde reside o P. Rui Fernandes, é a mais próxima, entre as casas dos jesuítas, do local das explosões, tendo sido por isso a mais afectada pela destruição. Ao lado, o Colégio São Gregório, frequentado por mais de mil crianças, sofreu também bastante com as explosões, tendo acontecido o mesmo à universidade em que estuda.

Na altura da tragédia, Rui Fernandes estava perto, a estudar na biblioteca de uma congregação feminina vizinha dos jesuítas, onde celebra missa todas as manhãs. Agora, os jesuítas mobilizaram-se também para apoiar onde é preciso e “tanto são voluntários para dar pão e água, como de vassoura na mão ou voluntários engenheiros que estão a tentar avaliar as estruturas dos edifícios”.

 

“Tenho aqui uma sanduíche, coma”

Há outros gestos que impressionam o padre Rui: “Toca-me muito ver as pessoas a ajudarem-se. Pessoas que não se conhecem de lado nenhum a entrar numa loja e a perguntar ‘precisa de alguma coisa?’ ou ‘tenho aqui uma sanduíche, coma’. Se for preciso ir despejar o lixo ou tirar sacos de vidros, vão.”

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A solidariedade não mobiliza só os cristãos, nem os crentes de outras religiões, porque há um sentimento de cidadania transversal à sociedade libanesa. “Há grupos de voluntários que se mobilizam e nas ruas tanto se vê escuteiros católicos, de rito latino, como escuteiros maronitas, melquitas, sunitas ou xiitas a trabalhar. Não é propriamente uma resposta institucional organizada, das Igrejas, mas parte muito da iniciativa particular.”

O acidente de 4 de Agosto pode mesmo obrigar os jesuítas a repensar o trabalho e as estruturas que têm em Beirute. Para já, estão na linha da frente da ajuda e o JRS, Serviço Jesuíta aos Refugiados, continua a trabalhar – agora mais solicitado, tentando dar respostas às dezenas de milhares de desalojados. A Comunidade de Sção Gregório está a pensar criar “uma espécie de cozinha aberta, para ajudar os vizinhos”, porque aquele foi um dos bairros mais afetados”.

Tendo sido um dos responsáveis pelo LabOratório, uma iniciativa de formação litúrgica e musical, Rui Fernandes está a fazer um doutoramento em estudos islâmicos, não no sentido clássico do estudo do Alcorão, mas sobre “a experiência religiosa no quotidiano a partir do hip hop”, para mostrar “como é que as pessoas fazem a experiência de Deus” no dia-a-dia.

A tragédia veio mesmo acentuar a pertinência da investigação: “Claramente o hip hop já começa a responder e a reagir. Ainda há dias saiu aqui uma música nova, de hip hoppers libaneses, precisamente sobre a explosão.”

 

Antecipar eleições e afirmar neutralidade activa
Béchara Boutros Raï

Cardeal Béchara Boutros Raï, patriarca dos maronitas no Líbano. Foto © Piotr Rymuza/Wikimedia Commons

Enquanto a sociedade reage para enfrentar as feridas das várias tragédias que se abateram sobre o Líbano, a vida política conhece novos desenvolvimentos. O Governo já era fortemente contestado mesmo antes da explosão e vários sectores – políticos, sociais, religiosos – começam a pedir eleições antecipadas.

O cardeal Béchara Boutros Raï, patriarca de Antioquia dos Maronitas, foi um dos que veio defender essa ideia. Domingo, na homilia da missa, pediu a organização de “eleições parlamentares antecipadas sem esperar por uma nova lei eleitoral e formar um novo governo, como pede o povo”.

Exortando os líderes políticos a promoverem mudanças, “porque o povo quer” um governo que rompa com o passado” e “salve o país, não a classe política”, o cardeal afirmou: “Não há governo de unidade nacional sem verdadeira unidade e não há governo de consenso sem consenso sobre as reformas.”

Na segunda-feira, 17, aprofundando a sua proposta, o patriarca apresentou oficialmente o Memorando do Líbano e da neutralidade activa: “Hoje estamos numa espiral permanente de guerra e a neutralidade é a única saída”, afirma no texto, citado pelo Vatican News.

No documento, Boutros Raï defende o “não alinhamento” do país com “conflitos políticos ou guerras” e a “não interferência” externa de terceiros. Quer ver também o país a apoiar as “causas dos direitos humanos e da liberdade dos povos”, bem como a desempenhar um papel no fortalecimento da paz e da estabilidade da região, criando “um espaço de diálogo entre religiões, culturas e civilizações”.

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