A partir de 18 de Novembro

Jesuítas procuram vítimas de abusos sexuais

| 5 Nov 21

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

Infância. Abusos. Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons.

 

A Província Portuguesa da Companhia de Jesus (PPCJ) decidiu criar um Serviço de Escuta, que entrará em funcionamento no próximo dia 18 de Novembro, Dia Europeu da Protecção das Crianças contra a exploração e o abuso sexual. Este serviço destina-se a “acolher, escutar e apoiar pessoas que possam ter sido vítimas de abusos sexuais cometidos nas instituições da Companhia de Jesus em Portugal, seja por jesuítas, colaboradores, funcionários ou voluntários, independentemente da data dos factos”. 

No anúncio da medida, feito no Ponto SJ, portal da Companhia de Jesus, os jesuítas afirmam que o serviço pretende atender “às necessidades de cada uma das possíveis vítimas, minimizar o seu sofrimento e procurar reparar, de algum modo, o mal que sofreram, na certeza de que não há nada que apague a dor causada por um abuso sexual”.

Numa declaração sobre a iniciativa, o provincial dos jesuítas, padre Miguel Almeida, afirma que esta decisão tem como fundamento “o desejo de acolher quem possa ter passado por este sofrimento numa tentativa de atender às suas necessidades e reparar o mal de que foi alvo”. Os jesuítas, acrescenta o seu máximo responsável em Portugal, estão “conscientes de que não há nada que apague a dor e o sofrimento causado por um abuso sexual” e por isso assumem o compromisso de “tratar cada pessoa e cada situação com o máximo de proximidade e seriedade possíveis”, o que significa fazer desencadear “todos os mecanismos processuais adequados e necessários, no foro civil ou canónico”. 

O fundamento de tal decisão, explicam ainda os jesuítas, corresponde ao “desejo da Igreja Católica de colocar as vítimas no centro da sua atuação em matéria de abusos sexuais e de curar as suas feridas, na medida em que isso seja possível”. 

Reconhecendo “que pode haver pessoas em sofrimento na sequência de experiências tão duras e devastadoras”, os jesuítas comprometem-se a “criar todas as condições de confiança e segurança para que as vítimas possam revelar a sua história”. E asseguram que “todos os casos relatados ao Serviço de Escuta serão analisados e tratados”. 

Nenhuma denúncia por averiguar

Sofia Marques, coordenadora do Serviço de Escuta – que tinha já a mesma função no Sistema de Proteção e Cuidado (SPC) de Menores e Adultos Vulneráveis, implementado nas obras da Companhia de Jesus em Portugal desde 2018 – acrescenta, sobre as intenções da nova estrutura: “Queremos também identificar as necessidades de cada vítima e procurar apoiá-la no que ela precisar, seja ao nível psicológico, espiritual, jurídico ou outro.” Cada eventual vítima, diz, encontrará um serviço “em que pode confiar e lhe dá a garantia de que nenhuma denúncia que chegar fica por averiguar ou tratar”.

O contacto do Serviço de Escuta pode ser feito por correio electrónico (escutar@jesuitas.pt), carta (Estrada da Torre, 26 – 1750-296 Lisboa), telefone (de segunda a sexta-feira, entre as 9h30 e as 18h, através do número 217543085), ou presencialmente junto da coordenação do Sistema de Protecção e Cuidado. Os jesuítas garantem ainda que é possível fazer denúncias anónimas e que o serviço não tem custos. 

A equipa desta estrutura inclui pessoas com formação específica para ajudar a identificar as necessidades psicológicas, espirituais ou outras de cada possível vítima, bem como as respostas mais adequadas a cada uma. E serão essas pessoas também a acompanhar as vítimas ao longo dos processos que possam vir a ser desencadeados pela denúncia, seja canónico ou civil.

“Vivemos um contexto internacional, onde o drama dos abusos sexuais cometidos no seio da Igreja continua a marcar a agenda mediática e a suscitar desconfiança e perplexidade, dentro e fora dos meios eclesiais”, escreve o padre Miguel Almeida na sua declaração. “Queremos participar neste desejo sincero da Igreja de cuidar de cada pessoa ferida por este flagelo, na certeza de que o passo que agora damos é necessário e inadiável.”

Uma cultura de morte, diz o Papa

Esta decisão dos jesuítas surge quando o Papa Francisco insiste, numa mensagem enviada a uma conferência sobre protecção de menores, que é necessário apostar numa “formação renovada” dos padres que trabalham com menores para “erradicar a cultura da morte” que advém de “todas as formas de abuso sexual, de consciência ou de poder”.

Citado no Público, o Papa acrescenta que é preciso “criar uma cultura capaz de evitar que tais situações não só não se repitam como também não encontrem espaço para serem encobertas e perpetuadas”.

A mensagem foi dirigida à conferência que decorre em Roma e na qual participam eurodeputados, deputados italianos e membros da Polícia Postal de Itália. 

Pedindo que seja erradicada a “cultura da morte” dos abusos, o Papa acrescenta que o abuso é um “acto de traição da confiança” que “condena à morte quem o sofre” e que a prevenção deve ser um “processo permanente de promoção de uma confiança sempre renovada e certa na vida e no futuro, com a qual os menores devem contar”.

 

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Fui um dos que, convictamente e pelo amor que tenho à Igreja Católica, subscrevi a carta que 276 católicas e católicos dirigiram ao episcopado português para que, em consonância e decididamente, tomassem “a iniciativa de organizar uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja”.

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Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

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