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Eugénia Abrunhosa

“Jesus chorou”

“Jesus chorou”

by | 28 Mar 20

A Ressurreição de Lázaro, de William Blake (1757-1827)

 

Esta frase do capítulo 11 do Evangelho de São João (Jo.11,35), faz parte do episódio da ressurreição de Lázaro e remete para o momento em que Jesus se encontra com Maria, irmã de Lázaro. Comentando a frase, escreve o teólogo Jean-Michel Castaing: “(…) este versículo é mais eficaz do que todas as bibliotecas de Teologia dogmática reunidas para persuadir os crentes.”

Jesus está com os discípulos, “para além do Jordão”. Mesmo sabendo que Lázaro se encontra muito doente, não vai vê-lo, ficando mais dois dias. Depois diz aos discípulos, que interpretam mal as suas palavras: “(…) Lázaro, o nosso amigo, dorme; mas vou despertá-lo.” E seguem para a Judeia.

Lázaro está sepultado há quatro dias. No diálogo que mantém com Marta, esta está desolada por Jesus não ter estado presente, mas sabe que o seu irmão Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, embora isso não a console. Jesus elucida-a: “Eu sou” – e estas palavras bastariam; mas acrescenta: “a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá (…).”

O encontro com Maria é diferente. Esta ajoelha-se aos pés de Jesus, numa postura tradicional do discípulo em relação ao Mestre e, chorosa, lamenta a morte do irmão e a ausência de Jesus. Então surgem no texto três verbos significativos relativos à atitude de Jesus: “(…) comoveu-Se… perturbou-Se…  Jesus chorou (…).”

Neste encontro com Maria, Jesus revela a sua condição humana e chora a morte do amigo.

Aproximam-se do túmulo de Lázaro:  Jesus levanta os olhos para o céu e dá uma ordem, em altos gritos (para a multidão ouvir):

“Lázaro, sai para fora.” Surge uma figura toda ligada.

“(…) Desligai-o e deixai-o ir.”

Lázaro é desligado do temor, angústias, egoísmos, ambições… atravessa a morte e vai a caminho para o Pai.

Juan Masiá escreve (El que Vive): “Lázaro não sai do túmulo para voltar de novo a esta vida.” Deixai-o ir (Jo. 11, 44) significa: “(…) deixem-no sair desta vida e entrar na vida de Abba…deixai-o que siga atravessando a morte para entrar na vida. Lázaro está ascendendo para Abba.”

Este episódio prepara a Paixão e a Ressurreição de Jesus. Dos judeus que viram e ouviram o que se passou junto ao túmulo da Lázaro, um grupo irá crer em Jesus; outro, vai informar os príncipes sacerdotes do Templo e fariseus. E é dada a sentença de morte a Jesus. (Jo. 11, 45-54).

É na casa de Betânia (que significa a casa do pobre, mas neste contexto exprime o despojamento espiritual), que uma mulher, a discípula de Jesus, Maria, ungirá Jesus com “uma libra de perfume de nardo puro” (Jo. 12, 1-3). Ele é o Messias, o Ungido. Após a Paixão, levantar-se-á das trevas e surgirá na sua gloriosa Ressurreição. Lázaro representa o homem liberto da morte, por Jesus Cristo, que o despertou para a Vida.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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