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Entre Margens

Jesus Cristo em férias vai a banhos

| 01/08/2025

 

No século passado, as pessoas ainda dedicavam uma parte do ano para “ir a banhos”. Conforme as suas possibilidades, entre junho e setembro, deslocavam-se temporariamente para a praia, fluvial ou marítima, ou para termas.

Ali procuravam reconforto no descanso e o tratamento para algumas maleitas de que sofriam.

Com o aperto do calor “estiavam”, ou seja, paravam num lugar calmo e refrescante.

Actualmente há quem regresse desses dias mais cansado, por força dos ruídos que descontroladamente dominam nos espaços comerciais, dos eventos com acústicas desproporcionadas e em horários absurdos, que subvertem o tempo de férias, que deveria ser de reparação.

Existe um termo antigo que, de forma mais abrangente, descreve as férias verdadeiras: Jubileu.

O Jubileu é um acto ancestral de descanso, reflexão e ajuda aos outros.

As férias são um tempo valioso para descansar e recarregar as energias, mas também oferecem uma oportunidade única para servir e aprofundar a nossa fé através da oração, pois estamos libertos de obrigações e ritmos profissionais ou escolares que nos ocupam os dias e noites.

Ajudar os outros é uma forma poderosa de viver os ensinamentos de Jesus. Em Mateus (25:40), Jesus diz: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”

Durante as férias podemos dedicar tempo para trabalho voluntario, visitar doentes e idosos, ou simplesmente oferecer o nosso tempo e habilidades para aqueles que precisam. Esse ato de servir não só beneficia aqueles, mas também nos enriquece espiritualmente, fortalecendo o nosso carácter e a nossa ligação com Deus.

Além do serviço aos outros, as férias são um momento ideal para intensificar a nossa vida de oração. S. Paulo encoraja-nos a orar sem cessar (1 Tessalonicenses 5:17). Com a pausa nas actividades diárias, temos a oportunidade para refletir sobre a vida, agradecendo as bênçãos recebidas e procurando orientação para o futuro. Podemos criar um hábito de meditação diária, ler passagens bíblicas e pedir a Deus sabedoria e força para enfrentar os desafios que virão.

Unir a ajuda ao próximo e oração durante as férias transforma-nos em instrumentos de paz e amor de Deus no mundo. Que possamos utilizar esse tempo de descanso para crescer espiritualmente e fazer a diferença na vida ao nosso redor.

Maria lava os pés de Jesus

Maria lava os pés de Jesus em casa de Simão, o fariseu. Escola flamenga. Barroco séc. XVII. Museu de Saragoça.

No judaísmo, onde o Cristianismo teve a sua génese, o conceito de ajudar os outros e dedicar-se à oração também ocupa um lugar central, especialmente durante os períodos de descanso e reflexão, como as férias.

A ideia de tzedakah (justiça e caridade) é fundamental no judaísmo. A Torá e outros textos sagrados enfatizam a importância de ajudar os necessitados, um princípio que pode ser especialmente praticado durante o tempo livre das férias. Levítico (19:18) diz: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Esse mandamento inspira os judeus a envolverem-se em atos de bondade e apoio comunitário. Alguns amigos judeus aproveitam as suas férias para participar em ações de voluntariado, doar para instituições de caridade e ajudar aqueles que estão em necessidade.

A oração no judaísmo ou tefilá, é um aspecto central da vida religiosa judaica, para despertar o amor oculto no coração e unir a Deus. Com uma estrutura regular de orações diárias, as férias proporcionam uma oportunidade para aprofundar essa prática.

Momentos de descanso permitem mais tempo para meditação e reflexão espiritual. A oração não é apenas uma prática de pedir a Deus, mas também um momento de gratidão e introspeção. Nos Salmos (145:18), está escrito: “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” Este versículo destaca a importância da sinceridade e devoção na oração.

A integração de ajudar os outros e dedicar-se à oração pode ser vista em várias tradições e festas com férias judaicas: durante o Rosh Hashaná e o Yom Kipur, os judeus são encorajados a fazer uma reflexão profunda sobre suas ações e a realizar atos de caridade. Esses períodos são usados para pedir perdão, agradecer e tomar resoluções para o novo ano.

Em resumo, no judaísmo, as férias são uma oportunidade não apenas para descansar, mas também para se comprometerem com práticas que reforçam os valores de ajuda ao próximo e oração, seguindo os princípios da tzedakah e da tefilá. Esses atos ajudam a fortalecer a comunidade e a conexão espiritual com Deus, proporcionando um período de renovação tanto física e espiritual.

Em Betânia, Jesus procurou refúgio das perseguições que lhe moviam e também descanso. Esta localidade era procurada por gente pobre que não podia ficar noutros locais de peregrinação, porque não fica muito longe de Jerusalém. Por ser uma região muito seca, quer os romanos, quer os judeus, não construíram aí grandes tanques rituais – ou como tal conhecidos até há pouco, quando os trabalhos arqueológicos revelaram uma estrutura de Mikvê junto à tumba de Lázaro, provavelmente utilizada antes dos peregrinos se deslocarem para Jerusalém.

Cristo utilizava Betânia para paragem nas suas deambulações missionárias, para ensinar entre os pobres e doentes que ali estavam; e fazer coisas maravilhosas como a ressurreição de Lázaro. Ainda que não haja evidências de ser um local privilegiado de banhos rituais, Jesus teve o seu banho simbólico em Betânia, com o perfume de Maria que lhe lavou os pés.

E os cristãos, que somos parte em Cristo, o que fazemos?

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo

 

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