Jesus Cristo salvou-nos de quê?

| 19 Abr 2023

“Somos salvos de quê? Como resposta a esta questão desenvolveram-se ao longo da história várias teorias da “expiação”. Pintura: Chagall, Ressurection (1952) – pormenor

 

Com a vida, paixão, morte na cruz, e ressurreição de Jesus Cristo somos salvos – esta é uma das afirmações centrais do cristianismo. Mas somos salvos de quê? Como resposta a esta questão desenvolveram-se ao longo da história várias teorias da “expiação”. Pretendo argumentar brevemente que algumas dessas teorias, muitas vezes veiculadas acrítica e dogmaticamente nas comunidades cristãs, são imorais e, por isso, não podem ser verdadeiras. No entanto, no final deste texto proponho que há uma teoria bem mais simples e plausível do que as tradicionais para responder à questão “Jesus Cristo salvou-nos de quê?”.

Uma dessas teorias da expiação mais conhecidas é designada como teoria da “satisfação” ou “substituição penal” e tem raízes, entre outros, em Santo Anselmo (na obra Cur Deus homo, 1098), bem como em Lutero e Calvino. A ideia é que o pecado dos seres humanos constitui um dano infinito contra Deus. Ora, tendo em conta a gravidade da ofensa e desonra contra Deus, merecemos uma punição infinita pelos nossos pecados, ou seja, a morte e a separação eterna de Deus. É aqui que Jesus Cristo nos salva: Ele salva-nos ao aceitar livremente ser punido no nosso lugar. Assim, quando Cristo morreu pelos nossos pecados, Ele pagou a dívida de punição que os pecadores deviam a Deus. Com isso Cristo fez com que aqueles pecadores que aceitem esse dom fossem poupados do castigo que eles mereciam. Em suma, o nosso pecado é expiado pela morte substitutiva de Cristo.

O problema é que esta teoria tradicional da expiação não é plausível do ponto de vista ético ou moral. O próprio Immanuel Kant, na obra A Religião nos Limites da Simples Razão, aponta para problemas éticos nessa teoria da expiação ao assinalar que é moralmente errado fazer com que os inocentes sejam punidos pelos culpados; nas palavras de Kant: “Só o culpável, não o inocente, pode pagar, ainda que o último fosse tão generoso que a quisesse assumir em vez daquele” (p. 83).

Um dos mais influentes filósofos da segunda metade do século XX, David Lewis, no seu artigo “Do We Believe in Penal Substitution?” (1997), argumenta igualmente que os cristãos que aceitam esta teoria tradicional da expiação são inconsistentes. Pois, por um lado, eles sustentam que a pessoa inocente de Cristo pode receber a punição pelo pecado que os seres humanos merecem; mas, por outro lado, eles concordam com o nosso sistema de justiça criminal de que uma pessoa inocente não pode receber a punição de um criminoso, por mais que esta pessoa inocente esteja disposta a fazer a substituição. Pelo menos nunca ouvimos cristãos razoáveis a defender que, assim como Cristo morreu pelos nossos pecados, também uma mãe amorosa que deseja cumprir a pena de prisão do seu filho deveria ter a permissão para fazê-lo. Além disso, esta teoria da substituição penal apresenta-nos uma imagem de Deus irada, que só pode ser apaziguada com sacrifício violento e sangrento, o que é contraditório com um Deus infinito em amor que perdoa incondicionalmente.

 

A “teoria do resgate” e a do “exemplo moral”

Uma outra teoria tradicional da expiação é conhecida como “teoria do resgate” ou “Christus Victor”, tendo raízes na patrística (com Orígenes, Atanásio, e Gregório de Nisa). O ponto de partida é que os seres humanos, devido ao pecado original, são escravos de Satanás, do pecado, da morte. Por isso, a paixão e morte de Cristo serviu para libertar a humanidade da escravidão de Satanás, da corrupção e da morte que são as consequências do pecado. A vida de Cristo foi então um pagamento em troca do qual os seres humanos foram libertados da escravidão. Ou seja, Deus concordou em entregar o seu Filho ao poder de Satanás em troca dos seres humanos que ele manteve cativos. Assim, Jesus Cristo salvou-nos, dado que ele nos resgatou (caso aceitemos esse dom) do domínio do Satanás, das suas cortes e dos efeitos do pecado.

Esta teoria tem sido em geral rejeitada porque é difícil levar a sério a ideia de que Deus pode estar em competição ou ter obrigações para com Satanás. Afinal, de acordo com o teísmo clássico, Deus é o ser maximamente perfeito e soberano sobre tudo o que existe. Dessa forma, Deus tem o poder de simplesmente remover os humanos do poder de Satanás (sem que para isso tenha de “negociar”). Além disso, se o principal mecanismo de expiação, de acordo com esta segunda teoria, é libertar os humanos completamente do poder do pecado, a evidência empírica indica que isso não foi alcançado (afinal, os humanos continuam a pecar e agir muitas vezes de forma errada). Por isso, essa teoria parece implausível.

Nos parágrafos anteriores, vimos que as duas tradicionais teorias da expiação têm graves problemas e, dessa forma, é improvável que sejam verdadeiras. Então, Jesus Cristo salvou-nos de quê? Há uma teoria bem mais simples e plausível para responder a essa questão, designada como “teoria do exemplar moral”, com raízes no filósofo medieval Pedro Abelardo, mas também em Kant (que se refere a Jesus Cristo, no livro A Religião nos Limites da Simples Razão, como o arquétipo e o ideal moral da humanidade). A ideia é que Cristo é um exemplo de uma vida moral perfeita e virtuosa que vale a pena ser imitada. Dessa forma, Cristo salva-nos e expia o pecado humano ao influenciar os humanos a viver uma vida moralmente boa. A morte de Cristo mostra a profunda depravação humana, inspirando a humanidade não apenas a querer ser melhor, mas também a arrepender-se dos seus pecados para abraçar uma vida virtuosa com os outros e com Deus. Ou seja, Jesus Cristo é um paradigma de exemplaridade moral que desperta admiração e nos inspira a ser virtuosos.

É precisamente nesta ideia de exemplaridade que a filósofa católica Linda Zagzebski, no seu recente livro Exemplarist Moral Theory (Oxford University Press, 2017), desenvolve uma teoria ética das virtudes muito influente nos dias de hoje. De acordo com Zagzebski, a fundação de uma teoria ética ou moral não deve residir em conceito abstratos, mas sim em indivíduos concretos que admirámos, após reflexão crítica, por causa da sua exemplaridade moral. Essa identificação de exemplares morais por referência direta permite-nos ter definições dos conceitos morais fundamentais. Por exemplo, uma virtude é um traço que admirámos em alguém exemplar, um dever é um ato que alguém exemplar exige de si mesmo e dos outros em determinadas circunstâncias, uma boa vida é a vida que as pessoas exemplares desejam, e uma ação correta é aquela que alguém exemplar faria nas diferentes circunstâncias. Para os cristãos, Jesus Cristo é a pessoa exemplar paradigmática central. Por isso, uma verdadeira ética cristã deveria estar fundada na pessoa de Cristo, no seu exemplo e imitação, e não no seguimento acrítico e dogmático de mandamentos ou regras.

 

Domingos Faria é professor auxiliar no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

 

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