AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Jesus Cristo tinha uma agenda liberal?

| 28/07/2021

Dizer apenas que todas as vidas são importantes é uma tirada lapalissiana. É óbvio que sim, mas o problema é que nem todas as vidas estão em risco devido a fenómenos sociais como o racismo, a xenofobia, a violência sobre mulheres e crianças, o abuso sexual e o tráfico de pessoas, já para não falar nesta economia que mata, no dizer do Papa Francisco.

“Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas das crianças são importantes.” Foto: migrantes no Mediterrâneo © FCEI

 

Expressões e movimentos como o Black Lives Matter, Me Too e outros, que se destinam a chamar a atenção do público para determinados crimes ou descriminações que persistem mesmo nas sociedades democráticas, tendem a ser olhados com desconfiança por alguns sectores da sociedade, com condescendência por outros ou até com animosidade.

Recorro-me de um pequeno texto de Stephen Mattson, autor americano comprometido com a justiça social, que leva os cristãos a um exercício oportuno, pondo-os a olhar para o exemplo do Mestre Jesus Cristo:

“Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas dos samaritanos são importantes.
Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas das crianças são importantes.
Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas dos gentios são importantes.
Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas dos judeus são importantes.
Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas das mulheres são importantes.
Em vez de dizer que todas as vidas são importantes, Jesus disse que as vidas dos leprosos são importantes.

Apesar de Jesus ter estendido o seu amor sacrificial a todas as criaturas, ele saiu de seu caminho para ajudar intencionalmente grupos específicos de pessoas: os alienados, os maltratados e aqueles que enfrentam a injustiça. Portanto, dizer que as vidas dos negros são importantes e trabalhar contra o racismo sistémico é uma das coisas mais parecidas com o que Jesus fez.”

Dizer apenas que todas as vidas são importantes é uma tirada lapalissiana. É óbvio que sim, mas o problema é que nem todas as vidas estão em risco devido a fenómenos sociais como o racismo, a xenofobia, a violência sobre mulheres e crianças, o abuso sexual e o tráfico de pessoas, já para não falar na economia que mata, no dizer do Papa Francisco. Existem grupos sociais e comunidades debaixo de opressão sistemática. É por isso que a mensagem do evangelho afastada do contexto cultural se torna estéril reduzindo-se a chavões religiosos.

Sem se incomodar com o status quo, Jesus foi muito específico ao abordar questões sociais, raciais e políticas para ir ao encontro dos que eram abusados, violados e oprimidos, sem nunca deixar de pregar uma mensagem universal de salvação.

Mas alguns sectores cristãos preferem a apatia e ignorância pelo desconforto que sentem face a questões complexas e controversas sobre raça, etnia, história e cultura. Então, a estratégia adoptada é rejeitar qualquer tipo de diferenciação cultural ou étnica de identidade. Todavia os escritos paulinos sublinham as questões culturais associadas a judeus, gentios, escravos, livres, homens e mulheres daquele tempo em vez de os ignorar. No fundo, o que S. Paulo diz é que essas diferenças existem e que Jesus importa para todos eles enquanto criaturas de Deus e amados por ele, e por isso presta atenção aos privilégios, desvantagens, estereótipos, tratamento, direitos, valor social e expectativas.

Mattson reforça:“Envolver-se na justiça social é uma tradição cristã inspirada por Jesus e não por causas liberais, agendas populistas, plataformas mediáticas, legisladores ou modas da corrente dominante. É uma prática profundamente espiritual. Assim, o Novo Testamento pormenoriza o valor atribuído aos gentios, escravos e mulheres. Essas instruções contracultura eram radicalmente progressistas, a ponto de os evangelistas os colocarem por escrito para garantir que fossem implementadas na igreja nascente.”

Jesus Cristo não tinha uma agenda liberal, mas o evangelho parte daquele que se afirma como a Vida (“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, João 14:6) para todas as vidas, mesmo aquelas que são muito diferentes de nós.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This