Jesus e a Alegria do Amor

| 7 Jul 19

Antonio De Bellis, Cristo e a Samaritana; col. privada. Reproduzido da página do Ministério Italiano dos Bens Culturais (https://www.beniculturali.it)

O Concílio Vaticano II constituiu uma oportunidade para que alguns cristãos pudessem exprimir abertamente aquilo em que já acreditavam, mas que viviam como que em estado de tensão interior ou até com uma contradição traumática de difícil gestão. Cinquenta anos depois, há uma questão que continua a ser sentida e vivida como se não se tivessem passado já cinquenta anos: trata-se da rotura do matrimónio (entre leigos entretanto recasados) e da forma como isso é encarado pelos responsáveis da Igreja Católica. A oportunidade para eu pensar neste tópico pastoral aconteceu após ter lido o documento “Principais desafios pastorais da Pastoral Familiar da Diocese do Porto à luz da Amoris laetitia”.

Confesso que quando foram anunciadas, pelo Papa Francisco, a realização de duas assembleias sinodais (uma extraordinária para 2014 e uma outra ordinária para 2015) e, sobretudo, qual o tema que as ocuparia, pensei que o Papa Francisco acabara de dar um tiro no pé: há chagas, na Igreja Católica, que só serão curadas, não pelos homens, mas pela paciência incomensurável do Crucificado e flagelado… E lembrei-me da profundíssima chaga que a questão da regulação da natalidade abriu (Papa Paulo VI, Humanae Vitae, de 25-07-1968, nº 17) e que só um discreto silêncio diplomático permite que certas cristãs baptizadas tomem a pílula no sábado à noite e comunguem no domingo de manhã.

O documento, à medida que caminha para o fim, usa expressões que não são aconselháveis nem justas (“o divórcio é um mal”, nº 246); outras que são humilhantes (“aqueles que já envelheceram o vinho novo do noivado”, “já não têm aqueles fervores sensíveis nem aquelas ebulições”, nº 231; “aqueles que participam na sua vida de modo incompleto”, “marcados pelo amor extraviado”, “os que perderam a rota”, nº 291); outras, ou estão deslocadas ou não respeitam toda a complexidade da questão, da realidade (“jovens que não têm confiança no matrimónio e convivem adiando indefinidamente o compromisso conjugal”, nº 293; “situações de fragilidade ou imperfeição”, nº 296; “teoria do género”, nº 285-286).

Confesso que encontrei alguns “recursos”, sugeridos no capítulo VI da AmorisLaetitia(AL), que (sinceramente, não quero ofender ninguém; por favor, seja-me perdoada a franqueza…) são um poucochinho ridículas (“os esposos que têm uma boa experiência de ‘treino’ nesta linha podem oferecer os instrumentos práticos que lhes foram úteis…” “quando não se sabe que fazer com o tempo partilhado” “que criem… uma série de rituais compartilhados; é bom darem-se sempre um beijo pela manhã…”, nº 225-226).

É um texto demasiado longo, que entrega sobretudo aos padres e a comissões eclesiásticas e para-eclesiásticas, a tarefa de “discernir” e “curar”.

Por fim, termina de uma forma angustiante, com um apelo, em tom quase desesperado (talvez vindo directamente da enorme alma do Papa Francisco…), que muito me emocionou, e que ocupa os números 304-312 (“Peço encarecidamente que nos lembremos sempre…”) – o apelo ocupa oito páginas de um livro que tem mais de duzentas… São palavras úteis e profundas, que exalam um perfume teológico que só pecou por saber a muito pouco. Concretizando: como é possível que se tenha gasto o tempo e o dinheiro que se gastou para se produzir um texto que deixou sem conclusão definitiva a questão dos leigos divorciados-recasados?

Os avanços desta assembleia sinodal, em matéria de divorciados-recasados, foram decepcionantes. Tanto mais que há décadas que a ciência bíblica católica avançou imenso neste assunto (fruto do documento que mais anos demorou a ser promulgado pelo Concílio, a Constituição Dei Verbum, sobre a revelação).

A preocupação de Jesus nunca poderia ser o matrimónio, a sexualidade, o divórcio e respectivas normatividades religiosas, mas, sim, a incompatibilidade do Evangelho com a riqueza, a denúncia da exclusão social, o perdão e o amor extremos, a compaixão aflitiva para com os desgraçados.

Se se pronunciou sobre o divórcio (Marcos 10, 2-12; Mateus 19, 3-12; Mateus 5, 31-32; 1 Coríntios 7, 10-16; Efésios 5, 22-33; Lucas 16, 18) foi porque O provocaram a tal. Sobre isso não há dúvidas: Jesus pronunciou-se contra muita coisa relacionada com o divórcio, mas não esqueçamos que o divórcio, no Seu tempo, era legítimo e estava regulado pela Lei judaica (Deuteronómio 24). Quanto ao que Ele ipsis verbisdisse, qual o sentido exacto (as “novas normas e mandamentos” que Ele tinha em mente decretar) e em que contexto disse o que o Novo Testamento diz que disse, estamos completamente em branco: ninguém pode afirmar com toda a segurança nada acerca disso.

Jesus era contra o “adultério” e contra a esperteza dos judeus que usavam os buracos da Lei para se ligarem a outra mulher… só porque a anterior já não era do agrado (“juridicismo”). A sua visão não era jurídico-casuística (“é lícito?”), mas humano-existencial (“fidelidade”). Às perguntas legalistas, Jesus respondia remetendo o interlocutor para a vontade de Deus Criador (é por isso que se cita Génesis 1 e 2 em Marcos 10, 6ss).

Do jurídico, Jesus remete para o ético. Nunca replica com uma lei: reorienta a pergunta. Notemos, aliás, que em nenhuma passagem do Novo Testamento Jesus exige que os divorciados-recasados anulem as segundas núpcias, nem que “vivam como irmão e irmã”, como a Igreja Católica em Portugal e a Cúria Romana já o sugeriram (em João 4, 17ss, Jesus não obriga a Samaritana a regressar para junto do seu primeiro marido). Para Jesus, o Espírito e o “coração” do homem estavam acima da Lei, pois, para Ele, o homem estava acima do “sábado” (=Lei).

Nestas polémicas em torno do divórcio (Marcos 10, 2-12; Mateus 19, 3-12; Mateus 5, 31-32), as sentenças de Jesus devem ser lidas como indicações, sugestões, dedos que apontam para um fim em que os homens são convidados a “dar mais de si”: não eram “mandamentos”, “leis”. A prioridade de Jesus era a dignidade (“honra”) das pessoas e o Reino de Deus (que a sua maneira de estar revelava). O facto de haver “excepções” era a prova de que, para Jesus, o importante era a compreensão não legalista, a única que oferece um futuro às vítimas após um fracasso matrimonial: em nenhum momento Jesus diz algo que obriga a excluir alguém da comunidade de Marcos.

Em suma, para Jesus a lei suprema da indissolubilidade do matrimónio contra ventos e marés (que, ao lado do celibato obrigatório para os padres, é uma das grandes obsessões católicas…) não está contemplada no Novo Testamento. Em determinados casos admitiam-se divórcio e segundas núpcias (vejam-se as “excepções” em Mateus e 1 Coríntios). A Lei suprema é o “amor até ao extremo”, é Jesus.

O cardeal Walter Kasper (excelente teólogo), como vão ver – e na linha do documento sinodal – dá uma no cravo e outra na ferradura; até parece dar a entender que conhece as palavras que foram ditas pelo próprio Jesus (falha na “crítica histórico-literária” dos logiade Jesus): “… devemos ser honestos e admitir que, entre a doutrina da Igreja sobre o matrimónio e sobre a família e as convicções vividas por muitos cristãos, se criou um abismo.” (…) “Que poderá fazer a Igreja em tais situações? Não pode propor uma solução diferente ou contrária às palavras de Jesus. A indissolubilidade de um matrimónio sacramental e a impossibilidade de um novo matrimónio durante a vida do outro cônjuge paz parte da tradição de fé vinculativa da Igreja.” (O Evangelho da Família, ed. Paulinas)

Caso os responsáveis pela Igreja Católica estivessem realmente interessados em avançar nesta questão dos baptizados divorciados-recasados, deveriam começar por combater a iliteracia bíblica com que constroem a sua teologia. Nesse momento, iriam reparar que as citações do Antigo Testamento (Génesis 1, 27: relato sobre a criação da vida e do mundo e não relato da criação de “instituições”…;Génesis 2, 24; cf. AL, nº 62-63) implicadas nesta polémica levantada pelos fariseus e pelos discípulos da comunidade de Marcos, se bem esmiuçadas, não só não “proíbem” o divórcio (na verdade, não “proíbem” nada…), como permitem inclusivamente concluir que, para procriar, a Bíblia não exige previamente um matrimónio num templo, perante uma assembleia e abençoado por um eclesiástico (como, aliás, aconteceu no cristianismo até ao século XIV, entre nós)… 

Enfim. Para a alegria de Jesus e da sua comunidade, impõe-se urgentemente combater a iliteracia bíblica, “seguindo Jesus”, e não apenas “citando Jesus” à letra, como se isso fosse a Verdade mais que evidente (erro hermenêutico). A não ser assim, os divorciados-recasados irão ficar sentados… à espera da sentença da comissão diocesana, a quem coube o processo.

 

Paulo Bateira é médico e é leigo católico da diocese do Porto

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