Jesus e a saída da sociedade do cansaço

| 10 Jul 2023

[xiv domingo do tempo comum ― a ― 2023]

[peso jugo e carga / quem dará alívio? ― / em ti tudo é leve! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

1. Hoje, excecionalmente, começo por uma caricatura.
Devido à capacidade de enfatizar, por norma com humor,
e de exagerar características ou certas dimensões,
as caricaturas são um poderoso instrumento de intervenção.
Descansai, não vou comentar aquela que o prof. Pedro Brito
desenhou recentemente do primeiro-ministro, António Costa,
mas apresentar uma outra, relativa ao tempo que vivemos.
Imaginai um homem dobrado para a frente,
de braços caídos e olhos fechados,
vestido com camisa branca e de gravata azul.
Esse homem tem, ligado às costas, um fio elétrico,
em tudo semelhante aos cabos dos computadores,
mas sem qualquer ligação à tomada…
Por cima da cabeça dele, encontra-se o sinal da bateria.
Dito isto, como imaginais que a pilha se encontrará?
Precisamente no vermelho, com a carga na reserva.

2. Esta caricatura pode ‘realçar’ o estado de muitos,
neste momento do ano, a precisarem de férias.
Não obstante já se tenha concluído a ‘época de exames’,
faltam os ditos de ‘recurso’ ou de ‘melhoria de nota’
e as ‘entrevistas’ para certos candidatos ao ensino superior.
Todavia, os professores estão ainda submergidos em reuniões
e na burocracia exasperante dos ‘relatórios’ e das ‘avaliações’.
Além deles, muitas outras pessoas sentem,
como este homem da caricatura,
que estão cansadas, sem energia, no vermelho, digamos assim.
O tempo apresenta-se mais fresco, sim,
mas que bom seria ir, por exemplo, até às praias de areias finas,
ou passear pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês, por exemplo.

3. A caricatura pode ter uma aplicação mais vasta.
É verdade, pode caricaturar «a sociedade do cansaço»,
expressão que corresponde ao título de um livro,
da autoria de Byung-Chul Han, publicado pela Relógio D’agua.
Nascido em Seul, na Coreia do Sul, e a lecionar na Alemanha,
Han é um dos filósofos mais lidos na atualidade.
Como sabereis, é autor de numerosos livros,
normalmente de agradável leitura e breves na sua extensão,
como este, que tem apenas 64 páginas.
Creio que seja uma boa sugestão de leitura para férias.

4. Segundo Han, o mundo ocidental está a vacilar
por se ter tornado uma sociedade cansada, exausta.
O cansaço é por ele considerado,
não enquanto natural consequência de quem trabalha, corre ou anda de bicicleta,
mas como uma doença, que ataca sobretudo do ponto de vista neuronal.
Daí as depressões e bipolaridades, os hiperativismos e desgastes profissionais,
com toda a gama de perturbações, que atingem o índice da atenção.
Estamos aqui a celebrar numa igreja de hospital
― da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos.
Aliás, bem perto da Casa de Saúde de S. João de Deus
― onde, ao longo desta semana,
vários seminaristas do Seminário Conciliar fizeram voluntariado.
Por conseguinte, há médicos que diagnosticam tais ‘distúrbios’,
causados pelo stress e pela azáfama à qual nos submete
― como ‘escravos’ que hipotecaram a liberdade ―
o neoliberalismo capitalista, a economia que «mata» (Papa Francisco).
Com isto, desejo sublinhar que vivemos num ambiente social
com graves patologias que afetam a qualidade da vida mental.

5. O excesso de positividade e de concorrência,
tal como a exacerbação de expectativas, pessoais e da sociedade,
têm levado populações inteiras à exaustão e ao colapso.
Por causa disso, há pessoas a viver em permanente fadiga,
correndo inclusive o risco do suicídio,
que atinge altos índices, por exemplo, na Coreia do Sul.
Conta Han que muitos adormecem em todo o canto e esquina (não só na igreja!),
e que os meios de transporte público parecem dormitórios ambulantes.
Infelizmente, alguns escolhem as pontes sobre o rio que atravessa Seul
para, em desespero total, se atirar e colocar termo à vida.
Numa delas, entretanto denominada «Ponte da Vida»,
colocaram, em estruturas eletrónicas como sucede nos estádios,
mensagens e fotografias (de boa comida, v.g.), que apelam ao gosto pela vida,
e se acendem à medida que as pessoas percorrem os corredores laterais.
Tudo na tentativa de demover quem quer que pense em suicidar-se.

6. Byung-Chul Han conta que, neste livro,
coloca a sociedade como que ao espelho do filme «Melancholia»,
de Lars Von Trier ― outra boa sugestão para ver em férias! ―
Dele colhe as ideias de uma sociedade afogada no narcisismo,
que perde do horizonte a relação com os outros,
incapacitada, pelo enfraquecimento do desejo, de criar relações humanas.
Sucumbe-se naquilo que ele designa por ‘agonias’:
do Eros, do pensamento, dos afetos, enfim, do sentido…
Mitificada, a ‘liberalização’ acaba por revelar-se um ‘veneno’:
Ao contrário de todo o naufrágio na exibição autocentrada, até da carne,
― diz ele ― «é a fragância do tempo que nos permite subsistir»:
Fragância que não se adquire na voragem dos ‘caçadores de informações’,
a vaguear no campo da batalha digital, à busca do ‘like’,
mas noutros campos, como outrora os cuidadosos agricultores.

 

7. Eis porque, reconhecendo-nos eventualmente cansados,
nos sabe bem ouvir da boca de Jesus palavras-de-bálsamo:
«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei» (Mt 11,28).
Jesus apresenta-se, hoje, como a saída da sociedade do cansaço!
Sim, Ele o diz a transbordar de benevolência:
«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11,28-30).

8. Porque insiste Ele na ‘suavidade’ do seu jugo e na ‘leveza’ da sua carga?
Provavelmente porque teria em conta a relação que nutria com Deus.
Os lábios de Jesus soltam a suavíssima oração, que escutámos,
depois de ter experimentado a incredulidade
e a insensatez de muitos habitantes da Galileia,
não obstante tenha multiplicado palavras poderosas e prodígios,
a fim de lhes revelar o Pai que conhecia
e lhes propor o ‘regime do amor’ em que viviam.

9. A nova praxis fundada no amor,
que nutre de sapiência e filial amabilidade a relação com o Pai,
é bem diversa da interpretação que os rabinos faziam da Torah, a Lei de Deus.
Devido ao seu rigorismo, ela tornou-se um jugo pesado,
a ponto de Jesus os denunciar na sua hipocrisia:
«Atam fardos pesados e difíceis de carregar
e os põem sobre os ombros dos homens;
entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los» (Mt 23,4).
Jesus, pelo contrário, ensina uma nova interpretação da Lei,
a partir da sua vida amorosa com o Pai,
concretizada na humildade e mansidão
para com os discípulos e as multidões,
sem impor a ninguém jugos pesados ou cargas insuportáveis.
Guardando distância de muitos escribas e fariseus (cf. Mt 23,2),
troca a cadeira de Moisés pela montada dum pequeno jumento (cf. Mt 21,5; Zc 9,9).
E, desprovido de arrogância e violência, garante numa bem-aventurança:
«Felizes os mansos, porque hão de herdar a terra» (Mt 5,5; cf. Sal 37,11).

10. Jesus interpreta a Torah com a sua vida, tornando-a fonte de liberdade.
É desta fonte que precisamos de libertar a vida, inclusive o tempo livre.
Deus liberta-nos das cadeias do tempo pelo Espírito que vivifica a nova ‘ordem’.
E permite que a nossa vida atinja a plenitude pelo Espírito que ressuscitou Jesus.
S.Paulo di-lo claramente aos Romanos:
«Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós» (Rom 8,11).

11. Se desejarmos alimentar a relação com Deus,
neste regime de amabilidade, que não hipoteca a liberdade,
no final de cada dia poderíamos rezar assim:
«Senhor Jesus Cristo, que sois manso e humilde de coração
e ofereceis aos que Vos seguem
um jugo suave e uma carga leve,
acetai os desejos e as ações deste dia que terminou,
e fazei que possamos descansar durante a noite,
para continuarmos fiéis e constantes no vosso serviço»
(Completas. Oração final de quarta-feira).
E quando as palavras nos rarearem, ou não soubermos rezar,
não nos falte aquele olhar, que sempre poderemos oferecer,
segundo a canção «Romaria», composta por Renato Teixeira
e gravada, em 1977, pela ‘insuperável’ Elis Regina:

«Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar».

É que, como tantos romeiros de Barcelos, Viana do Castelo e Ponte do Lima,
poderemos ir em breve, na peregrinação arciprestal (da parte norte),
ao santuário de Nossa Senhora Aparecida, não do Brasil, mas de Balugães.
Mais: se alguém desejar ir além dessa ‘apresentação do olhar’,
aprenda a rezar, por exemplo, com Gilberto Gil, na canção:
«Se eu quiser falar com Deus»:

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais  VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado Domingo, dia 9 de julho, XIV Domingo do Tempo Comum na liturgia católica, 2023.

 

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