Jesus morre por amor de nós e não por sacrifício

| 29 Mar 2024

Agnus Dei. Cordeiro de Deus

“No quarto evangelho, Jesus é apontado por João Baptista como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29;36), e até morre na mesma hora em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo, durante a Páscoa judaica (João 19:14).”  Pintura: Dei, de Francisco de Zurbarán. Óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid

 

As ideias que têm sido difundidas acerca do significado da morte de Jesus, desde os primórdios do Cristianismo até aos dias de hoje, têm marcado profundamente o pensamento ou as conceções que temos acerca de Deus, e até o modo como nos relacionamos com Ele. A morte sangrenta de Jesus numa cruz provocou sem dúvida  uma profunda crise nos primeiros discípulos e seguidores de Jesus. Será após o evento pascal da ressurreição que as primeiras comunidades cristãs irão reinterpretar a morte de Jesus de uma maneira sacrificial, munindo-se certamente da linguagem usada no Templo de Jerusalém. No quarto evangelho, Jesus é apontado por João Baptista como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29;36), e até morre na mesma hora em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo, durante a Páscoa judaica (João 19:14).

É necessário ressalvar, desde já, que esta linguagem de sacrifício, típica das práticas judaicas do Templo de Jerusalém, com a qual os escritores judeus do Novo Testamento estavam bem familiarizados, linguagem de sacrifício e expiação, é compreensivelmente usada por estes com frequência.

Entre os pais da Igreja, pensava-se que a morte de Jesus fora necessária para  resgatar a Humanidade do Diabo, satisfazendo assim as suas exigências, uma vez que, quando Adão e Eva pecaram, aquela ficou cativa deste. Mais tarde, em plena cultura medieval, Anselmo de Cantuária defendia outra teoria, objetiva: o ser humano ao pecar ofendeu a honra infinita de Deus, e ao fazê-lo, a sua culpa tornou-se infinita sendo assim necessária uma satisfação infinita que só a morte de Jesus podia reparar. Abelardo, um monge e teólogo do século XII, defendia outra tese, aliás, subjetiva: Jesus morreu como demonstração do amor de Deus, e a Sua vida terrena tinha tido como propósito  conduzir a Humanidade em direção ao seu aperfeiçoamento moral e à transformação da sua vida interior. Já os reformadores do século XVI, com as suas teorias da substituição penal, advogavam que Jesus tivera de ser punido em nosso lugar para satisfazer as exigências da justiça de Deus, a fim de que os pecados da Humanidade pudessem ser justamente perdoados.

Talvez tenhamos de desmontar essas imagens negativas de um Deus que necessite de enviar o Seu amado Filho a fim de expiar os nossos pecados. O grande hino cósmico e cristológico registado pelo autor da Carta aos Efésios no primeiro capítulo (Efésios 1:3-13) expõe-nos uma leitura extraordinária que o filósofo e teólogo medieval John Duns Scotus soube tão bem captar. A encarnação de Deus em Jesus e a redenção do universo jamais poderiam ter sido uma resposta ao pecado humano, à finitude da natureza humana. Elas fazem, antes de mais, parte do plano de Deus, muito antes da fundação do universo, do início de todas as coisas. O hino cristológico, ao afirmar que Deus “nos escolheu nele (em Cristo), antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4), deixa, pois, bem claro que o motivo para a vinda de Jesus jamais teve a ver com os nossos pecados ou falhas. A única motivação, como o aponta e muito bem Richard Rohr, é o amor infinito e incondicional de Deus e a Sua auto-revelação.

O que no Calvário foi revelado foi certamente o amor eterno e incondicional de Deus. Em Jesus, na Sua agonia e morte sangrenta na cruz, cada gota de sangue vertido é o grito de paixão deste Deus que se dá livremente e se faz chegar a cada um de nós em amor.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo XII do Tempo Comum B. ⁠Hospital de Santa Marta⁠, Lisboa, 22 de Junho de 2024.

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Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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