Jesus, o Nazareno: o Filósofo esquecido de Jerusalém

| 27 Out 2023

Crucifixo, Páscoa, Jesus

“Preso, acusado, condenado e executado a pedido das autoridades judaicas. Porquê?” Foto © Albin Hillert/WCC-COE.

 

Clarifico desde já: Não estou a falar no Cristo, o Messias, o Profeta. Refiro apenas o homem, o jovem, que diz de si próprio ser o Nazareno. O rapaz que passava horas no templo a conversar com os “doutores” e de quem admiravam o conhecimento e a sabedoria. Do homem que, como Sócrates em Atenas, andava “por ali”, com gente atrás que gostava de o ouvir e a quem ele falava. Do homem calmo, tranquilo, pacífico, que só se terá exaltado uma vez, como descrito no episódio da expulsão dos “vendilhões” do templo.

O homem que disse coisas, na linguagem que lhe era dada e que era a língua falada pelos judeus. Uma língua pré teórica, não conceptual. Falava e dizia contando histórias, alegorias, explorando casos concretos. A língua do seu tempo e do povo onde nasceu e viveu.

Um homem que, desde miúdo, frequentava o templo, conhecia bem a doutrina judaica, e com quem os “doutores”, os “escribas”, mantinham uma relação tensa e de provocação: “a Lei diz (…) e tu Mestre, o que dizes tu?” a ver se o “apanhavam”…

Um homem que pensou Deus, o Homem, a relação do homem com Deus. E que disso deu pública conta nas suas conversas com quem o ouvia.

Este texto exprime uma dupla perplexidade.

Jesus era judeu. Aprendeu no templo, judaico. O Deus dele era o Deus judaico. Diz-se. As autoridades judaicas prenderam-no, acusaram-no, conduziram-no ao representante do Império Romano e pediram a sua morte. Mesmo que este não visse culpa. Mesmo que este lavasse daí as mãos. Preso, acusado, condenado e executado a pedido das autoridades judaicas. Porquê?

Na História da Filosofia é um ausente. Não é tratado como alguém que pensou, que construiu ideias, que com essas ideias traçou caminhos ao mundo. A Filosofia permanece grega e depois há uma religião…

Quero desde já enunciar um par de respostas (mesmo incipientes) a estas duas perplexidades.

Jesus, no seu pensamento e na sua mensagem, rompe claramente com a doutrina judaica, em pontos chave.

O Deus de Jesus não era o Deus judaico. O Deus judaico era transcendente: A Entidade que é O Criador. A origem e o fundamento da Lei. O Ente que ditava a regulação de vida humana. O Deus judaico era o Juiz. O Deus judaico era quem ditava a Lei. Legislador, Lei, Juiz.

O Deus do Judaísmo era só um. Monoteísmo. Um só, é certo. Mas o Deus de Israel. O Criador que tinha o seu “Povo Eleito”.

O Deus de Jesus era assimilado à figura do Pai. Não do Pai de Israel. O Pai de Todos, o Pai universal. Como Pai, Deus é Amor. Não amor pelos “meus”, a minha tribo, o meu povo, o “povo eleito”. Mas de todos os povos, de todos os seres humanos, de todas as pessoas. Assimilado às ideias de “Pai” e “Amor”, Deus é “Perdão”.

Como “Pai”, “Amor” e “Perdão” este Deus faz de nós, todos, “Filhos de Deus”. Filhos do mesmo Deus, do mesmo Pai. Irmãos. Iguais.

Um só Deus. Universal. Para todos os homens/mulheres. Seres Humanos. Pessoas. Igualdade. Fraternidade. Universais. Deus de Todos, Deus para Todos.

Com base nesta construção da ideia de Deus, Jesus constrói uma nova ideia de homem, além das identidades do tribalismo, do “povo eleito”, das dicotomias da época: tribo A ou tribo B, judeu ou estrangeiro, puro ou impuro, homem ou mulher, cidadão ou escravo, “nosso” ou inimigo.

Jesus elevou-se acima dessas marcas identitárias. Dirigiu-se a todos, judeus ou estrangeiros, homens ou mulheres, adultos ou crianças, doentes ou sãos, puros ou impuros, ricos ou pobres, e nesses todos viu o ser humano, a pessoa, sob a categoria de “o próximo”, o “semelhante”. Uma só marca de identidade. Universal. Igual: igual dignidade, iguais direitos. Jesus construiu, e fundou, “o Ser Humano”, a “Pessoa”.

Onde está este novo Deus? Como lhe prestamos culto? Como o “servimos”? Olhando e servindo os nossos irmãos. Cuidando deles. Do “próximo” Do “semelhante”. Do “irmão”.

Deus torna-se imanente. Deus está no “outro”. Deus está no olhar do “outro”. O que fizeste ao doente, ao preso, a criança, ao pobre, ao que tinha fome e sede, “a mim o fizeste”. Deus é o terceiro pólo de uma relação transitiva: Eu, Deus, o Outro. Deus é uma seta a apontar para o Outro.

Por isso “a minha” casa é a casa de Todos. É a casa para todos. Todos iguais, todos com a mesma dignidade. Todos com a mesma liberdade. Já “Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, todos vós sois um só em Jesus…” Não quer a casa dos crentes, dos ricos, dos pobres, dos da nossa tribo, da nossa cidade, dos puros,…

A “Casa” é uma casa comum. De Todos (Seres Humanos, Pessoas).

Ainda: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus… Pela primeira vez na História alguém diz claramente: Deus não é o poder civil. Deus não é o Estado.

Em síntese:

– Uma nova construção da ideia de Deus.
– Uma nova construção/visão universal: Ser Humano, Pessoa
– Um novo “lugar” onde Deus habita: imanente ao Ser Humano. Habita o semelhante, o próximo. O irmão.
– Uma nova ideia de culto: Servir o outro. Cuidar do Próximo. Amar o irmão.
– Antecipou a ideia de laicidade. Deus não é do domínio do Estado.

Um Filósofo maior. Ideias fundamentais que abriram caminhos.

Vinte séculos mais tarde (1948) a ONU proclamou a Declaração Universal dos Direitos  Humanos. Carta dos Direitos do Homem, do Ser Humano, da Pessoa.

 

Nelson Carvalho é professor de Filosofia no ensino secundário, mestre em Filosofia Contemporânea (Universidade de Coimbra) e foi presidente da Câmara Municipal de Abrantes entre 1994-2009.

 

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