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[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos

| 05/10/2026

 

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. Acabamos por criar um deus à nossa imagem: austero, distante, vigilante e pronto a castigar. No entanto, Jesus vem precisamente desmontar essas representações. Se, como afirma o Evangelho de João, quem vê Jesus vê o Pai (João 14,9), então o verdadeiro rosto de Deus deve ser procurado na vida, nas palavras e nos gestos de Jesus. Afinal, ninguém jamais viu Deus; foi o Filho quem O deu a conhecer (João 1,18).

Cristo Pantocrator

Cristo Pantocrator, Mosteiro de Santa Catarina no Sinai, ícone encáustico do século VI. Wikimedia Commons

Esta questão não é apenas teológica. É também profundamente humana. A imagem que fazemos de Deus influencia inevitavelmente a forma como nos vemos a nós próprios e como nos relacionamos com os outros. Se imaginamos um Deus elitista, que ama apenas os “perfeitos”, viveremos sob o peso permanente da insuficiência. Se imaginamos um Deus severo e castigador, facilmente olharemos para a nossa vida através da mesma lógica. Se pensamos que Deus só se aproxima dos que são “moralmente irrepreensíveis” (se é que tais pessoas existem), acabaremos por esconder as nossas fragilidades, os nossos fracassos, as nossas dúvidas, e desesperar de qualquer possibilidade de relação com Ele, e até mesmo de redenção.

Não são poucos os que vivem a fé desta forma. Alguns carregam culpas antigas das quais nunca se conseguem libertar. Outros interpretam cada sofrimento como um castigo divino ou cada sucesso como uma recompensa merecida. Muitos aproximam-se de Deus mais por receio do que por confiança. Em qualquer desses casos, a religião corre o risco de se transformar numa fonte de ansiedade espiritual em vez de um caminho de liberdade.

Ao contemplarmos Jesus, descobrimos, porém, um Deus muito diferente daquele que tantas vezes herdámos de leituras marcadas pelo medo. Encontramos alguém que acolhe os pecadores, que se deixa tocar pelos impuros, que se aproxima dos marginalizados e que faz da compaixão o centro da sua missão. Não por acaso, o próprio Jesus afirma que o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lucas 19,10) e que Deus não enviou o seu Filho ao mundo para o condenar, mas para que o mundo seja salvo por Ele (João 3,17). A Boa Nova consiste precisamente nisto: Deus não está contra a Humanidade, mas profundamente a seu favor.

Neste sentido, Jesus salva-nos também de uma concepção excessivamente jurídica da fé, em que a relação com Deus se reduz ao medo do castigo ou à lógica da recompensa. O Evangelho aponta noutra direcção. Basta recordar as parábolas da misericórdia (Lucas 15,1-32), especialmente a do pai que corre ao encontro do filho perdido antes mesmo de este acabar de lhe pedir perdão. O abraço antecede qualquer explicação. A reconciliação surge antes da reparação. Jesus revela-nos um Deus cuja justiça não é vingança, mas amor que restaura; não é exclusão, mas reencontro. Como disse o Papa Francisco, Jesus é o rosto da misericórdia do Pai. A misericórdia não surge como um atributo secundário de Deus, mas como a expressão mais profunda do seu ser.

Isto não significa ignorar a realidade do mal. O mal existe e manifesta-se de muitas formas na história humana: na violência, na injustiça, na doença, na solidão e em tantas outras feridas que afectam a criação. A sua origem última permanece envolta no mistério. As narrativas bíblicas das origens (Génesis 2-3) não procuram explicar historicamente como o mal entrou no mundo, mas ajudam-nos a compreender que existe uma fractura profunda na condição humana. Contudo, a revelação cristã não se detém na constatação dessa ferida; aponta para a acção de Deus que trabalha incessantemente para a curar.

O prólogo do Evangelho de João afirma que o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós (João 1,14). Deus não responde ao sofrimento humano permanecendo distante dele. Em Jesus conhece a amizade e a alegria, mas também a rejeição, a dor e a morte. Como afirma a Carta aos Hebreus, Jesus é capaz de compadecer-se das nossas fraquezas porque partilhou plenamente a nossa condição humana (Hebreus 4,15).

Diversos teólogos contemporâneos aprofundaram esta intuição. Karl Rahner insistiu na proximidade radical de Deus à existência humana, enquanto Jürgen Moltmann viu na cruz a expressão da solidariedade divina para com o sofrimento do mundo. Apesar das diferenças de linguagem, ambos convergem na mesma convicção fundamental: Deus não permanece distante da história humana, mas participa nela.

Também a esperança cristã nasce desta concepção de Deus. A ressurreição de Jesus abre um horizonte novo para toda a criação. Aquele que venceu a morte torna-se primícias de uma Humanidade renovada (1 Coríntios 15,20) e sinal daquilo que Deus pretende realizar em tudo o que existe. Como escreve São Paulo, a criação inteira aguarda a sua plena libertação (Romanos 8,22-23), enquanto o Apocalipse culmina com a visão daquele que proclama: «Eis que faço novas todas as coisas» (Apocalipse 21,5).

Assim, Jesus salva-nos de nós mesmos. Salva-nos das falsas imagens de Deus que construímos a partir dos nossos medos, inseguranças e experiências humanas de poder. Salva-nos da tendência para o antropomorfizarmos, atribuindo-Lhe vícios e modos humanos. Ao longo dos Evangelhos, o Nazareno desmonta continuamente essas representações e revela-nos um Deus que procura os perdidos, acolhe e perdoa os pecadores, e se aproxima daqueles que sofrem.

Uma das maiores dificuldades da fé cristã talvez consista, precisamente, em aceitar este Deus revelado por Jesus. Muitas vezes preferimos as imagens que podemos humanamente compreender e controlar, mesmo quando são mais severas ou mais sombrias. Jesus desafia-nos a abandonar essas projecções e a acolher um Deus sempre maior do que as nossas ideias acerca d’Ele.

Ao revelar o verdadeiro rosto do Pai, Jesus revela também a verdade da própria condição humana. Descobrimos que não fomos criados para viver sob o signo do medo, mas da confiança; não sob a lógica da condenação, mas da reconciliação; não sob o peso da culpa, mas da esperança.

A Boa Nova consiste precisamente nisto: Deus é infinitamente mais belo, mais próximo e mais misericordioso do que alguma vez imaginámos. E talvez uma das formas mais profundas de salvação consista justamente em reconhecermos, em nós mesmos, a vacuidade dos ídolos que adoramos, quer dizer, esses deuses que construímos à nossa imagem, para acolhermos o Deus verdadeiro que Jesus nos veio dar a conhecer. Se Jesus, como o próprio afirmou de si mesmo, é a Verdade, e se essa verdade liberta, então a fé na sua Pessoa e Palavra tem o potencial de varrer dos nossos corações todos os medos, mistificações, projecções que deformam e falsificam Deus em nós. É nessa descoberta que começa a salvação e é nela que a esperança cristã encontra o seu fundamento.

 

Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investigador no Centro de História (ULisboa) e na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião.
Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt

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