Ideias para não repetir as anteriores

JMJ pode ter catequeses com leigos e uma assembleia de jovens da ONU ou do G-20

e | 4 Out 2022

Catequeses que possam ser feitas também por leigos e fóruns com os jovens a ser protagonistas e não apenas receptores de uma mensagem. ideias para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que o bispo Américo Aguiar gostaria de pôr em prática já em Lisboa, se isso for possível. E porque não modelos de debate reunindo uma espécie de assembleia geral das Nações Unidas ou dos países do G-20, de onde surjam orientações sociais e políticas? O 7MARGENS ouviu vários protagonistas sobre o que podem ser modelos complementares de organização da JMJ, a partir da ideia lançada por Luigino Bruni, de que os jovens de hoje se querem envolver na política, na economia, no ambiente e nas artes.

jmj lisboa bandeiras gabinete coordenador geral foto antonio marujo 7M

Bandeiras dos anteriores países onde se realizou já a JMJ: a de Lisboa não tem de se limitar a repetir êxitos das jornadas anteriores. Foto © António Marujo/7Margens. 

 

Pedro Carvalho, representante do Comité Organizador Diocesano (COD) de Aveiro, já participou em três Jornadas Mundiais da Juventude: “Na primeira como jovem, na segunda em casal, e na terceira como família”.  A esta última, em Madrid, em 2011, já levou o seu primeiro filho, “na altura com apenas cinco anos”, conta ao 7MARGENS.

Filho esse que, hoje, já tem idade para se inscrever na JMJ de Lisboa, mas nem por isso estava com muita vontade de o fazer. “Acabou por decidir ir, mas mais por influência do seu melhor amigo, que até é de outra paróquia”, partilha. “Falar-lhe da minha experiência nas jornadas, dizer-lhe que aquilo é uma festa, que vai conhecer gente de todo o mundo… realmente não é isso que o ‘pesca'”, reconhece Pedro.

“Os jovens de hoje são completamente diferentes daquilo que nós éramos quando participámos nas Jornadas: estão preocupados com o clima, com a economia, com a sua própria segurança… E nós somos desafiados a apresentar uma proposta de JMJ também ela diferenciadora” considera o responsável pelo COD de Aveiro, “que não seja mais uma Jornada para os jovens, mas sim com os jovens”.

E este maior envolvimento dos jovens deve começar já no próprio caminho de preparação para a Jornada, que tem de ir muito “além de catequeses” e deve ser “um tempo transformador na Igreja em Portugal, com os jovens como protagonistas”.

Pedro Carvalho comentava deste modo ao 7MARGENS as ideias do director científico d’A Economia de Francisco que, em entrevista no final desta iniciativa, em Assis, sugeria: “Esta ideia de organizar os jovens por aldeias temáticas pode ser aproveitada para Lisboa e A Economia de Francisco deveria ser uma das aldeias, sem dúvida. E acho que temos de mudar a forma como organizamos a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), porque hoje a juventude é diferente do que era no século XX. A juventude reúne-se em torno de um processo, de uma mudança social, e não apenas porque é bonito estarmos juntos, cantarmos e dançarmos. Isso já não é suficiente. Eles são muito mais maduros do que no passado…”

Na entrevista, Bruni exemplificava: “Pensemos na ativista ambiental Greta Thunberg, no movimento Fridays for Future… Os jovens querem compromisso e não apenas cantar e dançar. Por isso, temos de envolvê-los na política, na economia, no ambiente, nas artes. Temos de estar atentos e perceber que o mundo mudou, a Igreja também está a mudar, e a juventude mudou mesmo muito. Temos de organizar a JMJ ao nível da juventude de hoje, não da juventude de há dez anos. Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total.”

 

Uma assembleia da ONU feita pelos jovens

O Papa Francisco no seu discurso em 2015. ONU

O Papa Francisco em 2015 perante a assembleia geral da ONU: e porque não os jovens idealizarem uma assembleia com propostas para o mundo?. Foto: Direitos reservados.

 

“Concordo”, diz Américo Aguiar, o bispo auxiliar de Lisboa que preside ao Comité Organizador Local (COL) da JMJ Lisboa 2023. E o Papa também já referiu que não se deve ter a tentação de repetir esquemas anteriores. “Há um esqueleto que se vai ajustando ao sentir e à sensibilidade das gerações onde a JMJ vai acontecendo”, afirma o responsável do COL, em entrevista ao 7MARGENS, nesta segunda-feira, 3, em Lisboa. O preenchimento desse esqueleto, acrescenta, fica depois ao critério de cada local, mas o que foi bom numa jornada pode não ser igual noutra.

O bispo diz que as JMJ têm de ir passando progressivamente do modelo do jovem passivo, que ouve catequeses durante alguns dias, para o modelo do participante. Esta é uma geração habituada à interacção, diz, e isso deve ser também assumido pela Igreja, que tem muitas vezes uma linguagem “encriptada”, que os jovens não acompanham. Por isso, uma possibilidade é a organização de fóruns, por exemplo a propósito dos temas sugeridos pelas encíclicas do Papa Laudato si’ (sobre o cuidado com a casa comum) e Fratelli tutti (sobre a fraternidade humana) e pel’A Economia de Francisco. Isso poderia acontecer com encontros em vídeoconferência durante os próximos meses de preparação da JMJ, reunindo jovens de todo o mundo, com uma segunda fase já durante a jornada em Lisboa, colocando jovens de todo o mundo a debater ideias e a propor um documento sobre os vários temas discutidos.

Para já, são ideias, diz o bispo, mas que podem trazer questões concretas ao debate: “Como é que estamos disponíveis para termos menos conforto para que os jovens de todo o mundo tenham o mínimo do que lhes é devido para viver com dignidade?” Neste sentido, acrescenta, o Papa Francisco tem insistido na necessidade de os organizadores – COL e o Dicastério do Vaticano para os Leigos, a Família e a VIda – preverem que haja uma atenção especial a jovens mais pobres, de algumas comunidades (indígenas, por exemplo) ou alguns países.

O Papa tem convocado à novidade, diz ainda Américo Aguiar. Por isso, acrescenta outras duas ideias que podem eventualmente vir a ser testadas já em Lisboa, embora isso dependa também do Dicastério vaticano: ao lado das catequeses dos bispos (que decorrem nos primeiros dias da JMJ) pode haver outras dadas também por leigos; e pode haver uma assembleia geral das Nações Unidas ou de estruturas como o G-20 feitas pelos jovens reunidos em Lisboa.

Admitindo que esta é a primeira jornada dos “nativos digitais”, o bispo diz que isso marca também um diferente modo de apreender a realidade, que inclui actualmente as dificuldades dos jovens em constituir família, ter emprego ou habitação (ou residências universitárias) – ou, num grau ainda maior, as dificuldades dos jovens brasileiros que vivem em favelas.

 

Trabalhar não para os jovens, mas com os jovens

Estudantes em greve pelo planeta: os jovens querem ter voz e participar. Foto © Greve Climática Estudantil.

 

Pedro Carvalho diz que, na diocese de Aveiro, prepararam “uma proposta disruptiva” para fazer do caminho até à JMJ “um laboratório de sonhos”. “Queremos despertar o talento dos jovens nas mais diversas áreas, e mostrar-lhes que acreditamos neles e em toda a sua capacidade”, afirma.

Foi isso que aconteceu quando convidaram uma jovem para ser a apresentadora e moderadora de um encontro temático de preparação para a Jornada, e outra para fazer a sua própria versão do tema Remar, Remar, dos Xutos & Pontapés, e apresentá-la num outro encontro. “Dizemos-lhes ‘precisamos de ti’ e damos-lhes autonomia para fazerem como acham melhor. O resultado tem sido fantástico”, garante o representante do COD de Aveiro.

“Além disso, estamos a trabalhar na criação de espetáculos de dança e teatro de rua para serem mostrados na diocese , mas também ao mundo, durante a semana da juventude, para que os jovens se sintam protagonistas da própria jornada”, revela o responsável. E, para envolver o maior número de jovens possível, “a ideia é fazer um espetáculo itinerante com um núcleo residente e depois ir integrando jovens de diferentes paróquias, principalmente das periferias”.

Em resumo, “nós temos de ser mediadores dos talentos dos jovens e da energia deles. Trabalhar não para eles, mas com eles… É difícil, mas não é impossível”, conclui Pedro Carvalho.

Nuno Camelo, 45 anos, representante do COD de Évora, é da mesma opinião. “Temos de fazer coisas com os jovens”, diz, e acrescenta: “Nós não estamos cá para resolver problemas aos jovens, estamos cá para lhes dizer que a solução está ao seu alcance.”

Nuno reconhece que, na sua diocese e respetivas paróquias, tem encontrado dois problemas: de um lado, “a dificuldade de algumas estruturas em dar responsabilidades aos jovens, como se eles estivessem sempre a brincar e a fé fosse feita de coisas e pessoas sérias”; do outro, “a dificuldade que muitos jovens sentem em assumirem compromissos e entrarem nos processos por mais tempo”.

Ainda assim, considera que o caminho de preparação para a JMJ Lisboa 2023 já tem estado a operar transformações, até porque ela “vai ser o momento alto, mas não podemos esquecer-nos do que está antes e do que vem depois”.

O saldo da peregrinação dos símbolos da JMJ pela diocese, por exemplo, é bastante positivo. “Com os símbolos, aprendemos a comunicar melhor uns com os outros e percebemos que os jovens podem até não conseguir ainda comprometer-se com a ida à Jornada em agosto, mas estão disponíveis para se envolverem agora”.

O segredo é “chegar aos jovens através dos meios onde eles estão”, convocando-os e informando-os “rapidamente e em tempo real” através das diferentes redes sociais e também através do contacto direto.

 

29 grupos, nenhum africano

Exposição fotográfica virtual #The World We Want (O mundo que queremos), celebrando os 75 anos da ONU. Foto © Nur’Din Musa, Nigéria

Junto da comunidade estudantil da Universidade de Évora, composta por jovens oriundos de cerca de 70 países diferentes, tem também sido feito um trabalho para que estes influenciem as suas comunidades de origem “e possam trazer outros jovens à JMJ, bem como ajudar no seu acolhimento”, explica Nuno Camelo. “Estamos particularmente preocupados em conseguir assegurar que também os mais pobres possam participar… A verdade é que já começámos a receber pedidos de jovens que gostariam de vir aqui passar os dias nas dioceses [na semana que precede a JMJ] e, dos 29 grupos que nos sondaram, nenhum é do continente africano”, refere o representante do COD de Évora. “Mas pela ligação que temos com os países africanos de língua portuguesa, a JMJ poderia ser uma oportunidade de irmos ao seu encontro e a universidade uma boa porta de entrada para tornarmos esta jornada mais inclusiva, sendo que procuraremos suportar as suas inscrições.”

Nuno Camelo é particularmente sensível a esta questão, ele que nunca foi a nenhuma JMJ, precisamente porque a família “não tinha condições financeiras”. Consciente também de que “o Alentejo nunca teve contingentes muito expressivos” nas jornadas, e apesar do grande esforço de comunicação e envolvimento que tem sido feito, um dos seus receios é que ainda haja “muitos jovens que não se tenham apercebido de que isto está a acontecer”. “Todo o mundo está em pulgas, mas alguns dos nossos se calhar continuam a saber pouco e não se sentem convidados a participar”, afirma.

É também por isso que um dos principais objetivos de outro COD, o de Coimbra, é “que nenhum jovem da diocese possa dizer que não ouviu falar da JMJ”, como diz Raquel Monteiro, 45 anos, que integra aquele comité, alertando para a importância de se ter em consideração a existência de dois grupos diferentes entre os jovens. “Há alguns jovens muito conscienciosos, muito cientes do que os rodeia, que distinguem muito bem o bom do mau, que querem tomar bons partidos, e que estão preocupados com o ambiente, a economia, a política… Mas depois também existe um grupo que está completamente alheado disto tudo”.

Nesse sentido, Raquel defende que “é preciso ir aonde não somos esperados”, até porque “nós, católicos, não estamos muito habituados a sair da nossa zona de conforto… É fácil divulgar as coisas na nossa paróquia, na paróquia do lado, ou na assembleia de catequistas. Mas nós estamos noutra era, em que muitas famílias já não mandam as crianças à catequese; portanto não nos adianta de muito divulgar só na paróquia, se a maior parte dos jovens não está lá.”

Assim, em Coimbra, houve um esforço de comunicar “para fora”. “Fizemos cartazes para todas as escolas” e “estivemos presentes na Queima das Fitas, com um vídeo de quase dois minutos a passar no ecrã gigante do recinto”, conta a responsável do COD daquela diocese. Além disso, aproveitando as pessoas que se tinham candidatado ao coro da JMJ e que não o puderam integrar, foi criado um coro diocesano, para dinamizar musicalmente a caminhada de preparação e os Dias nas Dioceses, que antecedem a JMJ em Lisboa O projeto tem sido um sucesso e neste momento conta já com 70 pessoas. “O elemento mais novo tem 10 anos e o mais velho tem à volta de 60, e há casos de famílias inteiras a participar”, conta, orgulhosa, Raquel Monteiro. Em julho, realizaram o primeiro concerto, intitulado “Há pressa no ar”, que encheu uma das maiores salas da região centro, o grande auditório do Convento São Francisco, e foi mais uma forma de envolver os jovens (e não só) neste processo, e de chegar a muitos outros.

A verdade, sublinha Raquel Monteiro, é que “ao mesmo tempo que vejo muitos jovens alheados de muita coisa, também vejo que eles estão em busca de uma espiritualidade, e nesse aspeto eles parecem-me mais maduros do que nós éramos, porque andam ativamente à procura”. “E eu sinto que a JMJ tem tudo para acender essa chama, por isso espero que, enquanto Igreja, consigamos aproveitar esta oportunidade”, afirma, e que “depois da Jornada, haja um novo ânimo, uma nova alegria, para pensarmos a nossa Igreja local de forma diferente, mais próxima”.

 

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