No espírito da “Laudato Sí’”

JMJ 2023 quer ser ecológica e ajudar a criar “um novo parque verde”

| 4 Out 21

Compromissos ambientais também devem envolver os jovens. Foto © MCGC.

 

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023 quer deixar, antes de mais, “um legado muito Laudato Si’: quisemos que qualquer investimento para o espaço fosse um investimento ecológico”. Um “novo parque verde” nascerá do lugar onde se desenrolam os actos principais da JMJ, garante o responsável da organização, o bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar. Os actos principais da Jornada, que terá lugar de 1 a 6 de agosto de 2023, decorrerão no Parque do Tejo e do Trancão, abrangendo uma área (parte da qual será revitalizada) entre os concelhos de Lisboa e Loures, como o 7MARGENS noticiou em primeira mão em Janeiro de 2019, depois de, em Dezembro anterior, ter noticiado a realização do acontecimento em Lisboa, antes do anúncio oficial.

Também na logística a Jornada pretende ser na perspectiva da Laudato Si’, a encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. “Não chega só ter um discurso a louvar a encíclica” e por isso haverá o mínimo de papéis e de plástico: “embalagens que se comam”, soluções para fornecimento de água que evitem o uso de plástico e guiões 100% digitais são algumas das hipóteses em estudo.

A preparação do acontecimento é exigente também para colocar as 21 dioceses católicas portuguesas a trabalhar em conjunto, o que em Portugal não é uma experiência comum, diz Américo Aguiar. A própria organização não pode ser uma entidade central, defende o bispo, mas deve dar protagonismo aos comités organizadores diocesanos (COD). “Há centenas de leigos a colaborar no Comité Organizador Local [nacional] e uma dúzia de padres; mas os padres são assistentes.”

Desde Janeiro, os comités diocesanos promovem iniciativas a cada dia 23. “O foco principal não é rezar o terço ou ter uma celebração de culto, mas fazer encontros diversificados no tema e nos destinatários. No Verão de 2023, 1,8 milhões de portugueses terão idade para ser peregrinos na JMJ, por isso o convite tem de chegar a todos, ninguém se pode sentir esquecido ou ignorado.”

 

“Não estamos sozinhos”

Jovens festejam o anúncio de Lisboa como próximo anfitrião da JMJ. Foto @JMJ2023 Lisboa

 

João Costa, 24 anos, que trabalha em Faro (sul) na manutenção de espaços verdes, integra a equipa diocesana de pastoral de juventude e é um dos responsáveis do COD do Algarve. Em 23 de Junho, véspera da festa de São João Baptista, o comité organizou uma oração na praia, usando os símbolos da água e do baptismo.

“Ir às periferias geográficas, sociais, às prisões, aos hospitais, aos sítios que não têm jovens tem de ser um foco do nosso trabalho”, diz. “Não vejo a Igreja como uma família que se dá sempre bem, sem opiniões diferentes, mas que acolha quem pense ou viva de maneira diferente, como os homossexuais”, acrescenta, E isso tem de ser feito num “caminho de diálogo e respeito”.

João, que participou na JMJ de Cracóvia (Polónia), em 2016, recorda a importância de sentir que “não estamos sozinhos, que há milhões à procura do encontro pleno com a pessoa de Jesus e com tantos outros jovens”.

O mesmo diz Ondina Matos, 47 anos, enfermeira, que foi directora do Departamento da Pastoral de Juventude (2010-2016) da diocese de Aveiro (centro litoral) e participou em seis JMJ: Roma 2000, Colónia 2005, Sidney 2008, Madrid 2011, Rio de Janeiro 2013 e Cracóvia 2016. Apesar das “vivências muito diferentes”, em todas viveu uma forte “experiência de fé”, pelo facto de haver “muitos outros que fazem o mesmo caminho”.

O antropólogo Alfredo Teixeira, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP), recorda que a JMJ foi concebida como um mega-evento que pretende gerar um “processo de identificação” e “um conjunto de dinâmicas centradas no acontecimento”.

João Costa recorda-se bem da homilia do Papa em Cracóvia: “Não devemos ser jovens de sofá, mas capazes de calçar as sapatilhas e pôr-se a caminho do encontro com outros” jovens ou de pessoas em situações difíceis como os refugiados. “Não podemos andar a preparar a JMJ de uma Igreja universal e ignorar os problemas do nosso mundo”, diz.

Mafalda Pinto, 27 anos, engenheira alimentar, está no outro extremo de Portugal, na zona de Bragança (nordeste, junto à fronteira com as regiões de Zamora e León), onde integra um grupo de jovens ligado aos Padres Marianos. Esteve na JMJ de Madrid (2011) e no Panamá (2019).

“Madrid foi uma experiência muito marcante”, recorda, até porque se envolveu a recolher fundos para apoiar a viagem de jovens que não tinham meios de participar. E em Cuatro Vientos, na noite da vigília, recorda o momento em que começou a chover e como, após a chuva, se fez um silêncio impressionante no momento da adoração.

“Na JMJ de Madrid fizemos uma experiência de fé; agora trata-se de a aprofundar, através de acções junto de pessoas que necessitem, fazendo a experiência do Jesus misericordioso”, diz. Da JMJ de Lisboa, espera conseguir “aprofundar a fé e a oração, e aprender mais a ir ao encontro dos idosos ou de quem precise”. E deseja também que a Jornada tenha também um papel de sensibilização ecológica e que, no final, não fiquem toneladas de desperdícios plásticos, como em Cuatro Vientos.

 

“Os jovens são o presente”

 

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Jovens podem voltar à Igreja pela questão ambiental. Foto direitos reservados

 

Ondina Matos espera que a JMJ de Lisboa possa “tocar outros jovens”, com uma preparação que “envolva a sociedade civil”. Mas o que deseja mesmo é que ela ajude a dinamizar a pastoral juvenil em Portugal: “É importante perceber que os jovens não são o futuro da Igreja, porque são presente; a Igreja tem de apostar claramente no que quer que os jovens sejam no futuro, quando forem família ou trabalharem. Será mau se a JMJ se limitar a juntar muita gente e todo este esforço se esvair a seguir.”

“Decisivo é o que está para lá do acontecimento”, acrescenta Alfredo Teixeira e que implica perceber se a mensagem cristã “é relevante para os contextos de vida dos adolescentes e jovens adultos”.

Nesse aspecto, observa, a Igreja Católica “continua com muitas dificuldades”. Os inquéritos mais recentes – internacionais e portugueses, neste caso coordenados pelo professor da UCP – mostram que há “um claro distanciamento” das gerações mais jovens em relação à Igreja. De acordo com o European Social Survey (2016), cerca de 80% das pessoas nascidas em 1960, em Portugal, tinham uma pertença religiosa; entre as que nasceram em 1990 já só 50% assumem essa pertença. Já a prática de culto passou, nas mesmas datas, de cerca de 42% para 20%.

“Entre os que permanecem com ligação forte à religião, acentuam-se tendências mais conservadoras e securitárias”, adverte o antropólogo, o mais importante investigador do tema em Portugal. Isso relaciona-se, diz, com a forma como se maneja a “identidade de resistência à incerteza que é a marca fundamental da experiência social dos jovens: há os que ‘surfam’ na incerteza e fazem dela um modo de vida, adaptam-se a ela, não fazem planos de futuro e, ao contrário dos pais, não são marcados pelo desejo de sucesso profissional; outros fecham-se mais sobre si próprios, construindo contextos de integração murados em relação a esta agressividade própria”.

Talvez o grande contraste é que o mundo juvenil católico “é hoje muito mais homogéneo do que era há 20 ou 30 anos”. À ideia da paróquia para todos, em que havia dinâmicas transversais, a lógica de movimentos que hoje predomina é “algo já construído, como um pronto a vestir, com a força de poder oferecer uma espiritualidade própria, mas também, ao mesmo tempo, uma porta mais estreita”.

“É difícil encontrar nas linguagens e dimensões mais expressivas da JMJ a diversidade necessária do que são hoje as culturas juvenis”, afirma, em campos como a música, a criação literária ou na mobilização por causas como a sustentabilidade. “Há todo um universo de questões que não estão suficientemente presentes” e o que já apareceu parece ser “muito próximo de uma linguagem pietista de algumas sensibilidades católicas juvenis”. Pelo contrário, diz Alfredo Teixeira, a JMJ deveria ser “um evento que pudesse garantir a enorme pluralidade das culturas juvenis e estabelecer pontes com esses mundos”.

 

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