JMJ – Um pau de dois bicos

| 11 Ago 2023

 

“Deixa-me preocupado que, estando a Igreja global num processo sinodal, não tenha eu registado uma palavra sobre o assunto nestas jornadas. Nem pelos que o recebiam nem por ele próprio Papa.”  Foto ©️ Jesus Huerta JMJ Lisboa 2023

 

Terminou a Jornada Mundial da Juventude de 2023 em Lisboa. Os jovens (um milhão de jovens, vamos admitir) regressam agora às suas localidades cansados, eufóricos, esperançosos em uma Igreja que escuta as suas “preces”. Muitos deles experimentando sensações nunca antes vividas. Ouviam-se testemunhos de que era a primeira vez que tinha viajado para fora do país, ou de avião, vindos de experiências de guerra ou de perseguições religiosas. Um sem número de histórias.

Os jovens voltam agora para as suas paróquias e vão ver que, na realidade nas nossas Igrejas, não é esta a dinâmica, esta euforia permanente, esta partilha e interação permanente e isso pode provocar grande frustração.

Também pode acontecer que algum padre ou bispo tente manter algumas destas dinâmicas; pode parecer aquela criança que, tendo um irmão mais novo que ele seis ou sete anos, para parecer mais próximo adote atitudes e comportamentos mais “infantilizados”.

Penso que é perceção geral que as nossas paróquias são pequenas para os jovens. Ritos muito repetitivos, pouco cativantes, párocos a correr de um lado para o outro, falta de espírito de comunhão, muito controladoras de comportamentos e maneiras de ser; um espaço nobre que poderia cativar os jovens, como sejam os movimentos com dimensão nacional e internacional, estão a ser absurda e preocupantemente descurados.

Muitos cristãos, ao ouvirem aquelas curtas e singelas mensagens do Papa Francisco (“Perguntem, não se cansem de perguntar, porquê”) podem recordar toda uma linguagem ouvida por aqueles que assumiram e viveram compromissos em movimentos como a JOC (Juventude Operária Católica), pelo seu fundador Joseph Cardijn. A JOC, nascida na Bélgica em 1925, mas que em dez anos se espalhou por todo o mundo e que tem a felicidade de formar ainda muitos jovens sinceros, desinteressados, puros, audazes! Sim, um verdadeiro sacerdócio leigo, nas palavras do fundador. Movimento este que motivou o surgimento de muitos outros dos vários ambientes de vida, de entre eles a LOC/MTC- Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos, sua legitima herdeira de princípios.

E agora, está tudo dito?

Uma das grandes preocupações deve ser não confundir o todo com a parte. O próprio Papa Francisco não disse tudo. Em vários dos discursos focou apenas algumas ideias fortes e deixou o resto para que possam ser lidos posteriormente.

Deixa-me preocupado que, estando a Igreja global num processo sinodal, não tenha eu registado uma palavra sobre o assunto nestas jornadas. Nem pelos que o recebiam nem pelo próprio Papa.

Todos, todos, todos, diz o Papa Francisco de forma veemente. Este apelo de que devemos ser uma Igreja aberta onde caibam todos, como é interpretado por aqueles que se consideram como os de dentro?

Será que vai haver capacidade para abater, ou pelo menos mitigar as barreiras identificadas em reflexões de preparação do Sínodo? A rigidez hierárquica, rotineira, as regras formatadas no “porque sempre foi assim”? A pouca novidade na comunicação e pouca sensibilidade de abertura às novas realidades? Pouco acolhimento, falta de formação sobre o verdadeiro sentido da fé? Pouca simpatia pelos movimentos organizados de leigos, porque acham que saem fora do seu controlo? Os próprios párocos por vezes deixados à sua sorte quando apostam em encontrar soluções para os problemas mais agudos? E muitos outros exemplos há por aí.

Muito se fala sobre ir ao encontro das periferias e não deixar ninguém para trás. Projetando esta necessidade de ser Igreja em caminho e sujar as mãos quando necessário. Onde encontramos em Portugal alguém, algum hierarca, que com conhecimento aborde as coisas do mundo do trabalho, a precariedade, os grupos explorados de migrantes clandestinos, as questões da habitação no seu acesso e na forma como se vive em bairros sociais, o empurrar cada vez mais as pessoas para novas periferias devido aos preços dos centros das cidades e a um tipo de economia que mata, etc.?

Que remédios ou que clamor tem a Igreja para propor perante a falta de meios económicos, de habitação, de salários daqueles injustiçados da vida? Esses que o Papa Francisco nos diz dever ser a prioridade da Igreja Católica?

Uma das grandes virtudes desta Jornada Mundial da Juventude é que nos deixa pano para mangas para continuar a reflexão sobre o futuro da Igreja em Portugal. Será que vai ter uma outra virtude tão mais necessária, de motivar mais cristãos leigos, para essa caminhada comprometida de futuro? Bebamos um copo de água e prossigamos. A luta “lá fora” espera por nós. Por todos!

 

Américo Monteiro é coordenador nacional da LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos).

 

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