Panfletos contra a guerra colonial distribuídos em Fátima, uma carta entregue discretamente a um ex-secretário do Papa João XXIII, padres angolanos a pensar “ocupar” a nunciatura do Vaticano em Lisboa durante a visita de Paulo VI a Fátima… A questão da guerra e da paz esteve muito presente em Fátima desde o início e levou Joana Lopes ao santuário. A então activista católica desiludiu-se do catolicismo, prosseguiu a intervenção cívica e era autora do blogue Entre as Brumas da Memória. Morreu quinta-feira, 5 de Fevereiro. Uma evocação do seu percurso através de dois textos.
As guerras de Fátima à volta da paz
Texto de António Marujo
A única vez que Joana Lopes foi a Fátima foi em 1967, na altura da visita do Papa Paulo VI. O objectivo era ela e José Manuel Galvão Teles, membros da então Junta Central da Acção Católica (um organismo coordenador desses movimentos de leigos católicos) entregarem ao antigo secretário do Papa João XXIII, Loris Capovilla, uma carta dirigida a Paulo VI. Nela se descrevia a situação política em Portugal, marcada pela guerra colonial e pela falta de liberdade. [José Manuel Galvão Teles morreu em Março de 2023]
“O objectivo foi conseguido”, recordava em 2017. Pouco tempo depois, conforme combinado em Fátima, o cartão recebido do Vaticano a dizer “Missão cumprida”, assinalava isso mesmo. Mas já alguns dias antes da visita do Papa, como recorda no livro Entre as Brumas da Memória (edição Âmbar), Joana Lopes tinha ido, com Nuno Teotónio Pereira e o mesmo Galvão Teles, à nunciatura do Vaticano, falar com monsenhor Maximilien de Furstenberg, então representante do Vaticano em Lisboa. “Era ainda uma tentativa de que o Papa não viesse” ou, pelo menos, que tivesse em conta a situação política do país, explica, recordando o gesto.
Joana Lopes, doutorada em Filosofia na Universidade Católica de Lovaina e que trabalhou como engenheira de sistemas, directora e administradora na IBM, afastou-se entretanto da Igreja, desiludida com o silêncio dominante na hierarquia católica sobre a ditadura e a guerra colonial. Mas, quando foi à audiência na nunciatura, “o ponto era ainda que Portugal estava muito isolado, o que para a oposição ao regime era positivo”. Vindo Paulo VI a Fátima, “isso avalizaria o regime e era essa a ideia que queríamos transmitir.”
Perante o anúncio da visita, feito pelo próprio Papa em Roma, no dia 3 de Maio, os grupos da oposição católica mobilizaram-se num conjunto de iniciativas. Uma delas, recorda Joana Lopes, foi esse documento, com dezenas de assinaturas, entregue em Fátima. Nuno Teotónio Pereira fez uma fotocópia da carta, mas “escondeu-a tão bem que a perdeu”, o que constituía um desgosto para ele, contava ela.
A paz, uma mensagem “primordial”

Joana Lopes a celebrar o 25 de Abril de 1974. Foto: Direitos reservados.
A questão da guerra era uma das que mais mobilizava os católicos na oposição à ditadura. E foi um dos argumentos centrais das movimentações à volta da visita de Paulo VI. O próprio Papa anunciara que viria a Fátima como “peregrino da paz” e, na sua homilia da missa em Fátima, repetiu a palavra “paz” por dez vezes.
Outro dos episódios foi a preparação de uma “ocupação” pacífica da nunciatura (a representação diplomática do Vaticano em Lisboa) por parte de um grupo de padres angolanos exilados em Portugal. Entre eles, estavam Joaquim Pinto de Andrade (que participara na fundação do MPLA), Alexandre do Nascimento (que chegaria a cardeal e arcebispo de Luanda) e Zacarias Kamuenho (que viria a ser arcebispo de Lubango). Nascimento acabou por decidir não participar, o que abortou a iniciativa, pensada para envolver todos – ou ninguém.
Apesar dessas movimentações, Joana Lopes recorda, no seu livro, que muitos militantes católicos ficaram desiludidos com a visita de Paulo VI e acabaram por se afastar da Igreja. Bruno Cardoso Reis, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, que tem estudado a história do fenómeno de Fátima, considera que os grupos de militantes católicos foram aqueles que, no curto prazo, mais derrotados saíram com a viagem do Papa a Portugal.
“Eles eram a vanguarda das reformas propostas pelo Concílio Vaticano II e as distâncias do Papa em relação a Salazar não foram suficientes. Por isso, muitos desistiram”, diz o investigador. Apesar dessas polémicas e dos equívocos, Paulo VI veio dar ao santuário “uma centralidade renovada e consagrar uma viragem na mensagem primordial de Fátima, no sentido da paz”, diz o investigador, coautor do livro Fátima – Lugar Sagrado Global (ed. Círculo de Leitores). Essa viragem ia “no sentido de alinhar não pelo diapasão do combate aos totalitarismos, sobretudo o comunista, mas do combate à guerra tout court”, escrevia Bruno Reis, num estudo publicado na revista História (Outubro 2000), sobre os primeiros cinquenta anos de Fátima.
Em 1973, um outro episódio à volta de Fátima e da guerra foi a distribuição de panfletos contra o conflito que Portugal mantinha em Angola, Guiné e Moçambique. Os folhetos foram distribuídos a partir de um grupo informal de católicos que se reunia em Lisboa, designado “Terceiros Sábados” (sobre essa rede, pode ler-se este texto).
Salvar os seus, não o Império

Mensagens do Correio de Nossa Senhora, com a carta da mãe de um militar que tinha estado na Guiné em destaque; muitas das cartas depositadas em Fátima fazem pedidos pela paz. Foto © António Marujo
Vinha do início a relação da mensagem de Fátima com as questões da guerra e da paz. Na Enciclopédia de Fátima, Manuel Linda (actual bispo do Porto) escreve que, “a par da penitência, da conversão e da reconciliação”, pode dizer-se que a paz é um tema “absolutamente nuclear no fenómeno de Fátima”.
Os acontecimentos da Cova da Iria dão-se durante o ano de 1917, já em plena Grande Guerra de 1914-18. Desde 1916, milhares de jovens portugueses vinham sendo mobilizados para as frentes de combate, em França e na Flandres. As populações confrontavam-se com “a precariedade da vida perante a situação de uma guerra que as pessoas aceitavam, mas perante a qual procuravam uma protecção de natureza religiosa e divina”, diz o historiador António Matos Ferreira, num estudo no livro A Senhora de Maio (edição Temas e Debates/Círculo de Leitores).
Nos primeiros relatos dos videntes, a visão promete, em 13 de Outubro, que a guerra acabaria “nesse dia”. Depois, Lúcia corrige a informação, dizendo que a pressão das pessoas para saber dos seus filhos, maridos ou familiares a levou a dizer isso, em vez de “em breve”. De qualquer modo, nas seis vezes em que as crianças relatam ter visto Nossa Senhora, as perguntas sobre a guerra, o seu eventual fim e o regresso dos rapazes portugueses foram uma constante, a provar que o tema era uma preocupação maior das populações.
De tal modo assim foi que a guerra acabou por ser um outro factor de oposição do catolicismo popular à I República. “Ao contrário do que aconteceu em França, com a união sagrada em torno da guerra contra a Alemanha, o que se passa em Fátima, com as perguntas e afirmações sobre o fim da guerra, agudiza o conflito” entre católicos e República, comenta Bruno Reis.
O que acontecia na Cova da Iria era também um desafio ao regime, tendo em conta o facto de haver uma manifestação pública religiosa (não autorizada pela Lei de Separação) e de se falar da defesa da paz, observa o investigador. A mensagem de paz da visão de Fátima acaba por pôr em causa o esforço de guerra do Governo republicano de Afonso Costa, acrescenta. A ponto de Tomás da Fonseca, que viria a ser um grande crítico de Fátima, falar do fenómeno como uma “conspiração jesuítica e alemã”.
Na década de 1930, a Guerra Civil de Espanha e, depois, o início da Segunda Guerra Mundial, viriam a marcar de novo o discurso fatimita sobre a questão – neste caso, aliado também à questão do anticomunismo. O Papa Pio XII, que atravessa o período da Segunda Guerra Mundial, não queria deixar o argumento da paz apenas entregue à esquerda política, observa Bruno Reis. Por isso, uma das suas iniciativas é organizar, em 1951, um congresso sobre a paz, presidido por Giovanni Montini, o futuro Papa Paulo VI.
Com a guerra colonial em que Portugal entra a partir de 1961, Fátima convoca de novo a questão da paz. O santuário era, já, uma “escola popular de nacionalismo católico”, como diz Bruno Reis. Mas ninguém controlava completamente o fenómeno, que acabava por ser uma manifestação de um problema sério: as pessoas iam a Fátima rezar para que os seus mais próximos voltassem sãos e salvos da guerra (ou que nem sequer partissem…). E isso traduzia uma coisa simples, observa ainda o investigador: as populações católicas estavam preocupadas “com a salvação dos seus entes queridos e não com a salvação do Império”…
(texto publicado inicialmente no Expresso, em Abril de 2017).
Uma antifascista da resistência
Texto de Helena Pato

Joana Lopes empenhou-se na renovação da Igreja em Portugal, desiludindo-se do catolicismo depois. Foto: Direitos reservados.
Militante antifascista, teve assinalável intervenção como “católica progressista” durante a Ditadura [do Estado Novo]. Actualmente é uma cidadã de causas, com persistente e intensa actividade cívica e política. Desenvolveu uma carreira científica de grande amplitude, afastando-se do papel reservado às mulheres no século XX. Doutorou-se em Filosofia e deu aulas na Faculdade de Letras de Lisboa, mas acabou por ser atraída pela Informática e, após especialização, exerceu a sua actividade profissional nesta área, durante a maior parte da vida activa. Foi engenheira de sistemas na IBM, directora e membro do Conselho Executivo da Companhia IBM Portuguesa e a primeira mulher a fazer parte da Comissão Executiva da Administração dessa empresa.
Até ao fim da década de 60, participou activamente em múltiplas organizações e iniciativas dos chamados «católicos progressistas», ao mesmo tempo que se empenhava numa tentativa de renovação da Igreja Católica em Portugal. Goradas as expectativas criadas pelo Concílio Vaticano II, muitos padres e leigos portugueses, com grande intervenção cívica e no seio da Igreja, abandonam-na e Joana Lopes foi um deles.
Enfrentou a PIDE, a Censura, ajudou a fundar instituições culturais e cívicas, e participou em movimentos de Oposição contra o fascismo. Depois da Revolução e até à actualidade, tem-se destacado pelo seu envolvimento em actividades e iniciativas de cidadania e políticas. É autora do blogue Entre as Brumas da Memória, onde diariamente escreve e divulga textos de cariz político, quer sobre acontecimentos do tempo da ditadura e do período revolucionário, quer relativos a combates actuais.
1. Joana Lopes nasceu em 11 de Outubro de 1938, em Lourenço Marques, cidade onde viveu até ao fim da instrução primária. Foi já em Lisboa que fez o ensino secundário, no colégio do Sagrado Coração de Maria. Frequentou depois, ainda em Lisboa, o primeiro ano da licenciatura em Matemática, mas iria optar pelo Instituto Superior de Filosofia da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, onde se licenciou e doutorou, em 1962, com uma tese sobre La notion de probabilité selon Rudolf Carnap.
Regressada a Portugal, começou por dar aulas num embrião da futura Universidade Católica, até ingressar como docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aí leccionou, entre 1965 e 1971, sobretudo Lógica, mas também Teoria de Conhecimento e outras cadeiras da licenciatura em Filosofia.
No fim da década de 60, nova viragem profissional: atraída por um curso de programação de computadores, que fizera por pura curiosidade, abandonou o ensino da Filosofia e, em 1970, acabou por entrar para a IBM, onde ficou vinte e cinco anos – primeiro como engenheira de sistemas, depois como directora (em vários níveis) e, finalmente, sendo a primeira mulher a fazer parte da Comissão Executiva da Administração da empresa. Em finais desse percurso, esteve três anos num Centro Internacional de Educação da IBM, em La Hulpe (Bélgica), como directora de um departamento.
Posteriormente, leccionou durante alguns anos em mestrados da Universidade Aberta e trabalhou como consultora freelancer no domínio das Tecnologias da Informação. Publicou então «Sistemas de Informação para a Gestão – Conceitos e Evolução», Universidade Aberta, 1997.

O Concílio Vaticano II foi mobilizador para gerações de católicos, muitos dos quais se desiludiram depois porque consideraram que a ideia de reforma não foi levada até ao fim. Foto: Direitos reservados.
2. Com uma educação católica na infância, foi militante e dirigente de movimentos católicos desde a adolescência. No entanto, só em Lovaina “acordou para a política”, na sequência do processo de independência do Congo Belga, que acompanhou de perto, e pelo contacto pessoal com dirigentes do MPLA, então residentes em Paris (precisamente na altura em que a guerra colonial tinha início em Angola).
Regressada a Portugal em fins de 1962, mergulhou imediatamente no mundo dos chamados «católicos progressistas» e manteve, nesse espaço católico de cidadania, uma colaboração a vários níveis. Participou activamente no Direito à Informação, publicação clandestina anticolonial lançada em 1963; foi membro fundador da Cooperativa Pragma (1964), encerrada pela PIDE três anos mais tarde; pertenceu ao Conselho de Redacção da revista O Tempo e o Modo e esteve ligada à Concilium, ambas da editora Moraes, e à criação dos Cadernos GEDOC (Grupos de Estudos e Intercâmbio de Documentação), 1969 – uma teia de instituições diversas em que se movia um conjunto de “católicos progressistas” que exerciam a oposição possível, tanto clandestina como legal.
Entre 1966 e 1968, integrou a Junta Central da Acção Católica (uma poderosa instituição que contava com mais de 100.000 filiados), empenhando-se no que foi uma tentativa de alguns leigos para fazerem vingar o seu «aggiornamento» no espírito do Concílio Vaticano II. A realidade iria mostrar-lhes que se tratava de uma perspectiva utópica, os conflitos com o cardeal Cerejeira foram aumentando e a tarefa não durou mais de dois anos. Estava-se, aliás, já em plena crise de descrença nas expectativas criadas pelo dito Concílio e em luta contra o compromisso dos bispos portugueses com a ditadura fascista. Assiste-se então a uma verdadeira debandada da Igreja, quer de (muitos) padres, quer de leigos (activíssimos), e Joana Lopes foi um deles.
Em 1968-1969, foi vice-presidente do Centro Nacional de Cultura, num ano em que este enfrentou muitos problemas com a censura e com a PIDE, e em 1969, Joana Lopes participou na campanha da CDE para as legislativas.
Entretanto, mantivera contactos com exilados políticos portugueses na Bélgica e regressou várias vezes a Lovaina, acabando por colaborar com a LUAR [Liga de Unidade e Acção Revolucionária] e por escrever, episodicamente e sob pseudónimo, em duas revistas publicadas no estrangeiro – Cadernos Socialistas e Perspectivas.

Depois do 25 de Abril de 1974, Joana Lopes . Foto: Direitos reservados.
3. No início da década de 70, integrou um grupo semiclandestino a que pertenceram alguns advogados, que vieram mais tarde a fundar o MES, e outros, futuros militantes e dirigentes do PRP/BR [Partido Revolucionário do Proletariado/Brigadas Revolucionárias]. Foi recrutada para este partido e executou várias tarefas entre 1972 e 1974 (nomeadamente na função de «correio», levando recados e materiais, entre Portugal e o estrangeiro, já que, por motivos profissionais, saía com frequência do país).
Pertencia ao PRP quando se deu o 25 de Abril e foi nesse partido que conheceu o médico Orlando Lindim Ramos, um destacado antifascista, com quem viria a casar e de quem tem um filho.
No Verão de 1974, deixou o PRP e investiu-se totalmente no combate político que tinha lugar no âmbito da Comissão de Trabalhadores da IBM. Mais tarde, integrou os GDUP (Grupos Dinamizadores de Unidade Popular), durante a campanha para as primeiras eleições autárquicas, realizadas em 1976, figurando na lista que concorreu à Câmara Municipal de Lisboa. Desde essa altura, nunca mais teve qualquer filiação partidária.
4. Em 2007, decidiu resumir a experiência dos católicos progressistas, a cujo universo pertencera, e publicou Entre as Brumas da Memória – Os Católicos Portugueses e a Ditadura, Editora Âmbar. Nesse ano, criou um blogue com o mesmo nome (Entre as Brumas da Memória), que mantém diariamente actualizado. Neste blogue, escreve e divulga, preferencialmente, textos de cariz político, com um peso significativo para os que se referem a partilha de memórias do tempo da ditadura e do período revolucionário que se seguiu, e também artigos ligados ao combate contra o austeritarismo.
Participou na campanha do referendo a favor da IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez), integrada no «Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim».
Entre 2008 e 2010, pertenceu à direcção do Movimento «Não Apaguem a Memória».
Em 2011 foi fundadora da IAC (Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida), e membro da respectiva Comissão de Auditoria. Durante vários anos, dinamizou e assegurou a actualização do site da organização.
Em 2016, foi promotora da criação do «Movimento Cívico para a Despenalização da Morte Assistida».
Nos últimos anos, a sua actividade política tem-se traduzido também na participação activa em movimentos a favor de diversas causas pontuais, destacando-se na mobilização que promove através do seu blogue e das redes sociais. Tem-se envolvido em diversas acções e campanhas políticas dinamizadas por grupos constituídos ad hoc, em que é significativo o seu carácter intergeracional.
Joana Lopes faleceu em Lisboa, aos 87 anos, no dia 5 de Fevereiro de 2026.
Dados biográficos facultados por Joana Lopes. Biografia da autoria de Helena Pato, publicada na página Antifascistas da Resistência, aqui reproduzida com autorização da autora, a quem o 7MARGENS agradece. Na página de Joana Lopes no Facebook, há vários testemunhos sobre ela.










