
Joana Lopes. Foto: Direitos Reservados.
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. Apesar de se assumir como ateia anos mais tarde, creio que tinha muito mais de cristão nas suas convicções e na sua atividade cívica do que certamente muitos cristãos. E, sobretudo, é mulher. Tudo isto me fez sentir que seria importante deixar esta evocação à sua memória, até porque o que mais faz falta por estes dias é gente com a coragem e a convicção dela na defesa do humanismo.
Começo este texto por dizer que, infelizmente, nunca conheci pessoalmente a Joana Lopes. Trocámos algumas impressões por mensagem nas redes ou em comentários a publicações mútuas, mas nunca tive o privilégio de conversar com a Joana olhos nos olhos. Porém, houve uma vez em que esteve quase para acontecer. Estávamos em 2024, ano em que colaborei com o Comissariado Cultural da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto na criação de um programa comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, a que demos o nome de “Equações da Liberdade”. O programa continha um ciclo de conversas e fiz questão de dedicar uma delas ao mote “Os movimentos operários e a ação católica progressista no combate à ditadura”. No painel figuravam os nomes de Luiza Sarsfield Cabral, Januário Torgal Ferreira e José Manuel Pureza. Figuraria também Joana Lopes que, por motivos pessoais e com pena, não pôde fazer-se presente.
Todos os que conheciam minimamente a biografia da Joana sabiam que fez parte do grupo de católicos progressistas que, imbuídos pelos ares do Concílio Vaticano II e já cansados da longa ditadura salazarista, tudo fizeram para que os ventos de progresso na Igreja quebrassem a promiscuidade da instituição com o regime e fizessem renascer o país para um novo tempo. Lembro que a Joana denunciou fortemente a guerra colonial, tendo inclusivamente participado a 31 de Dezembro de 1968 e a 1 de Janeiro de 1969 na vigília realizada na Igreja de S. Domingos, em Lisboa. Este foi um momento-chave, que aproveitava o decreto de Paulo VI que consagrou o 1º dia do ano como o Dia Mundial pela Paz. É revelador ler o que a Joana relata sobre essa vigília, sobretudo sobre as interferências e observações do cardeal Cerejeira que foram surgindo e que tinham muito pouco de católico e, muito menos, de cristão. Quatro anos mais tarde, mas na capela do Rato, uma nova vigília se repetiria, mais dura e mais carregada de cansaço do regime, mas igualmente importante nos objetivos a que se propunha a resistência. Contudo, não será menos relevante mencionar um dos pontos mais altos desta luta, que ocorreu a 13 de Maio de 1967, com a vinda de Paulo VI a Fátima. Nessa altura, Joana Lopes e José Manuel Galvão Teles, então membros da Junta Central da Ação Católica, conseguiram mobilizar-se para entregar ao antigo secretário do Papa João XXIII, Loris Capovilla, uma carta dirigida a Paulo VI, denunciando a guerra colonial e as condições em que vivia o país em ditadura (ver 7Margens). Não consigo dizer que efeitos teve a carta num momento imediato, mas é sabido que as relações entre o Vaticano e Portugal tremeram e que o Papa Paulo VI não deixou de se mobilizar diplomaticamente contra a guerra, tendo até recebido líderes políticos que faziam parte dos movimentos de libertação das colónias, como aliás já documentou o 7Margens.
A Joana participou ainda na revista o Tempo e o Modo e noutras revistas clandestinas, tendo relatado a sua experiência no livro Entre as Brumas da Memória, livro a que gostaria de ter acesso mas que não consegui ainda encontrar. O título do livro deu ainda mote à criação de um blog com o mesmo nome, a partir do qual complementou a memória descritiva desses tempos de resistência com novos testemunhos, trazendo também essa experiência até aos nossos dias, ao usar o mesmo espaço digital para mergulhar no debate público sobre os temas políticos e sociais do nosso tempo. Fez também parte de movimentos políticos por altura da resistência à ditadura e assumiu a sua intervenção cívica até aos últimos dias, expressando os seus posicionamentos de forma livre, sobretudo na sua oposição firme contra a austeridade imposta pela troika aquando da crise financeira, na defesa das lutas feministas e dos direitos individuais.
Conheci-a através do Facebook, onde já mais recentemente publicava não só os textos do seu blog como também nos deixava publicações livres, umas sobre a memória histórica vivida e testemunhada, outras sobre a cultura, e outras ainda sobre a situação política e social atual, estas últimas por vezes acompanhadas da sua crítica mordaz, sempre bem temperada com algumas notas de humor e com o sarcasmo que a caracterizavam. Tenho dito pela minha parte que esta mulher, extremamente culta, com um percurso original feito em filosofia mas que acabou a dedicar à informática (tendo sido inclusivamente docente na área e engenheira de sistemas na IBM), era um alento purificador neste mundo digital que valia a pena seguir. E digo-o sobretudo porque senti a sua ausência, desde logo quando as suas publicações diárias pararam a 16 de Janeiro deste ano. Quando tentei perceber, por mensagem, o motivo, soube pelo filho Ricardo que estava internada no Santa Maria, mas que daria novidades em breve. Não voltou para as dar. Uma semana e um dia depois, a 5 de Fevereiro, voltei a ter do Ricardo a triste mensagem de que a Joana Lopes tinha partido.
Enfim, fica o silêncio. Mas, e a vida, essa que tantos frutos deu? Creio que vale a pena ser lembrada! A Joana completaria, neste 11 de Outubro de 2026, os seus 88 anos. Desta vez, não segue a mensagem da minha parte mas segue esta tentativa de homenagem. Bem sei que a Joana não a lerá. Poderemos até questionar de que vale uma homenagem dirigida a uma pessoa morta que não a vai ler? Claro que, para os que acreditam que há qualquer coisa para lá do visível, como eu, existe uma espécie de materialização da existência que caminha sempre naquela esperança plantada no campo da dúvida, que se vai regando tanto quanto nos vai sendo possível prestar-lhe esse cuidado. Chamamos-lhe fé. Mas, antes sequer desta materialização além-fronteiras, creio sobretudo que fazer memória de alguém é, talvez, o maior sinal de eternidade de quem é lembrado. E homenagear uma pessoa morta, sobretudo porque é algo que só se pode fazer entre os vivos, é uma forma de tornar essa eternidade como algo minimamente palpável.
Os que seguiam a Joana ou os que liam/ouviam as raras entrevistas que dava, sabiam que atualmente se definia como ateia. A Joana desacreditou-se da Igreja e afirmava o seu ceticismo em relação a mudanças estruturais profundas na instituição. Com ela, muitos também se foram afastando com o tempo, sobretudo os desiludidos pelo que ficou por fazer no pós-Concílio Vaticano II. Como os compreendo, sobretudo em tempos de sinodalidade, conceito que a hierarquia frequentemente teima em subverter e que não chega a ser verdadeiramente posto em prática. A Joana, como muitos dos que se afastaram, deu o corpo às balas por um progresso que a instituição resistiu em assumir levar por diante, de forma harmoniosa com a sociedade à qual devia servir. Nas lutas que assumiu contra a ditadura, tentou levar esse progresso mais longe, humanizando a fé em nome da Paz entre os povos e em nome da Liberdade. Até porque, convenhamos, de que adianta ter fé sem ter consciência sobre o que esta implica na relação com os outros? De que adianta bater com as mãos no peito se achamos que há vidas que valem menos que outras? De que adianta ajoelhar perante um altar se não respeitamos a dignidade do próximo com a mesma convicção?
Tendo sempre a achar que até os mais ateus acreditam em alguma coisa e sou dos que pensa convictamente que há ateus mais cristãos do que muitos cristãos, dos quais me incluo. A Joana acreditou até ao fim dos seus dias que a luta pelo progresso era, como eu dizia acima, a esperança que valia a pena regar, quanto mais não fosse pela preservação do humanismo. Este foi o seu maior ato de fé até porque, na sua forma de estar, se manteve fiel aos seus princípios e estabeleceu-os, de forma ativa, como seu propósito de vida. Haverá algo mais cristão do que isto, mesmo que seja praticado por uma ateia?
José Manuel Pureza, por altura da sua morte, dizia que a “Joana Lopes atravessou fronteiras”. É verdade, até porque acreditou sempre naquilo que a “neutralidade dos camaleões” pretende esconder: que todos os nossos posicionamentos na vida em sociedade têm uma conotação política porque dizem respeito ao que esperamos para o coletivo. E o coletivo não tem fronteiras, nem de fé, nem de raça, nem de credo, nem de orientação sexual, nem de género, nem de vida. Este é o verdadeiro sentido de ser-se universal, de onde vem, aliás, a etimologia da palavra “católico”. Talvez aqui se perceba por que razão digo que muitos ateus acabam a ser mais cristãos do que muitos cristãos. Poderia dizer que também acabam a ser mais católicos do que muitos católicos. É que, na verdade, falta muitas vezes a alguns católicos este sentido de universalidade. E basta lermos o inexcedível trabalho da Cristina Inogés Sanz, publicado há dias no 7Margens, para percebermos como esta é uma realidade infelizmente cada vez mais comum.
Acabo este texto dizendo o óbvio: a Joana Lopes faz falta! E esta tentativa de homenagem serviu apenas para minimizar esse silêncio ensurdecedor que nos deixou. Fico-me pela imaginação que procura trazer respostas a esta insaciável curiosidade: o que diria a Joana de todos os acontecimentos deste 2026? É que tem sido tanto… O que diria das trapalhadas do imperialista americano que se prepara para nos arrastar para uma crise e, se calhar, para uma guerra? E da União Europeia, morna e subserviente? E quão mordaz seria sobre o amadorismo do ministro da Educação?
Enfim, Joana, cá continuarei a regar a minha esperança no campo da dúvida. É que ainda espero saber o que pensa disto e do que está para vir. Até lá, 88 cravos se ergam à sua memória entre os que celebram a sua vida!

“Até lá, 88 cravos se ergam à sua memória entre os que celebram a sua vida!” Foto: Joana no 25 de Abril. Direitos Reservados
Enfim, Joana, cá continuarei a regar a minha esperança no campo da dúvida. É que ainda espero saber o que pensa disto e do que está para vir. Até lá, 88 cravos se ergam à sua memória entre os que celebram a sua vida!
Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).
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