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Funchal, Rua do Pombal, João Cruz Nunes, Centro de Cultura Operária
Edifício onde funcionou o Centro de Cultura Operária da Madeira, situado próximo da casa dos padres do Pombal. Foto © Nicolau Fernandez

Do Estado Novo à democracia

João Cruz Nunes e os padres do Pombal: compromisso e resistência

O antigo padre João da Cruz Nunes marcou a vida da Igreja e da sociedade da Madeira com a sua comunidade dos “padres do Pombal”. A sua morte, ocorrida há um mês, foi então noticiada pelo 7MARGENS.

Pela importância do seu trabalho, do debate e das propostas que lançou, o 7MARGENS evoca neste texto e nos próximos dois dias a sua história e as marcas que ele deixou nos círculos e grupos por onde circulou. Este texto foi inicialmente publicado no Funchal Notícias.

Os títulos e subtítulos são da nossa responsabilidade. As outras duas partes deste artigo serão publicadas domingo, 7, e segunda-feira, 8 de Dezembro.

 

O início da comunidade do Pombal

Ficaram conhecidos como os «Padres do Pombal» e marcaram profundamente uma época da Igreja na Madeira. Desempenharam um importante papel na afirmação pessoal e social de uma geração de jovens e adultos durante a década de sessenta e a primeira metade dos anos setenta do século XX. Acabaram ostracizados pelo bispo de então, Francisco Santana, e como alvo privilegiado do bombismo flamista [da Flama, Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, movimento activo nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974, que reivindicou a independência do arquipélago com atentados bombistas – N.R.] e do partido que tomou conta do poder político na Região.

A comunidade dos «Padres do Pombal» – assim designada por os seus membros terem habitado uma casa localizada no número vinte e quatro da Rua do Pombal, na cidade do Funchal – foi inicialmente constituída por três sacerdotes: João da Cruz Nunes, João Arnaldo Rufino da Silva e Gabriel Lino Cabral. Mais tarde, no início da década de setenta, juntar-se-lhes-ia o padre Francisco Sidónio Figueira, regressado de Roma, onde estudara Psicologia, no Ateneu Pontifício Salesiano.

Nessa casa alugada, os três padres acabaram por criar, a partir de 18 de Agosto de 1966, um espaço de partilha, de solidariedade, de entrega aos outros, patente em pequenos gestos: a simples conversa, o ouvir música, a refeição em comum. Uma porta sempre aberta e por onde entraram muitos outros sacerdotes e inúmeros leigos, empenhados ou não na construção de um mundo mais justo e fraterno. Um local visitado por outros sacerdotes do Continente ou dos Açores que se deslocavam à Madeira e até por gente que, no pós-25 de Abril de 1974, viria a ocupar lugar de destaque na governação regional, como era o caso, por exemplo, de Luís Dantas – chefe de gabinete de Alberto João Jardim – que acompanhava sua mulher, Alexandra Dantas, colega do dr. Cruz no Liceu do Funchal.

Num texto produzido a partir da intervenção num jantar/debate de uma tertúlia de madeirenses em Lisboa, um dos seus membros, o dr. Cruz, como era conhecido, descreve “o Pombal” como “o local de encontro, de partilha e de reflexão sobre temas de carácter teológico, eclesial e social, tendo como objectivo a organização de uma acção pastoral diferente, inovadora, adequada aos novos tempos e mais eficiente na formação e transformação dos membros da própria Igreja”. Em declarações reproduzidas no livro Jardim, a grande fraude, uma radiografia da «Madeira Nova», o dr. Cruz afirmou: “Trabalhamos fora e dentro da Igreja. Fomos crescendo. Chegamos a ser à volta de 20 padres que se comprometeram e assinaram documentos e foram até falar com o bispo por causa da pastoral”.

José Martins Júnior, Diocese do Funchal, Madeira, Política, Padres, Clero,

José Martins Júnior falava dos padres do Pombal como “os quatro cavaleiros do apocalipse”. Foto © António Marujo

Martins Júnior, que foi contemporâneo de todos eles, numa publicação no seu blog Senso @Consenso, datada de 21 de Julho de 2016, dois dias após o falecimento do dr. Rufino da Silva – Lino Cabral falecera já em 6 de Julho de 2000 –, designou-os como “«Quatro Cavaleiros do Apocalipse» da segunda metade do século XX na Madeira. Homens de cultura, verticais na sua personalidade de «antes quebrar que torcer», numa incondicional entrega à transformação das mentalidades anquilosadas da ilha, modelos de comportamento cívico e eclesial. Pedagogos e mestres exímios, cada qual na sua área”.

Em comum, os aludidos padres tinham o facto de desempenharem funções de assistentes de movimentos de apostolado católicos. Lino Cabral, era, há já alguns anos, o assistente de todos os organismos agrários (rurais) da Acção Católica – começara por suceder ao padre Agostinho Jardim Gonçalves como assistente da JACF [Juventude Agrária Católica Feminina], quando este, em Setembro de 1960, foi chamado a exercer as funções de assistente nacional da JOCF [Juventude Operária] –, o mesmo sucedendo com o dr. Rufino da Silva, como assistente dos escuteiros, enquanto que Sidónio Figueira foi assistente da LEC (Liga Escolar Católica), por nomeação do então bispo da diocese, D. João Saraiva.

Por sua vez, o dr. João da Cruz regressara de Lisboa a 13 de Fevereiro de 1966, onde fora defender a tese de licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um trabalho com o título «Os falares da Calheta, Arco da Calheta, Paul do Mar e Jardim do Mar», esta última a freguesia de onde era natural. Partilhavam ainda o facto de serem todos professores. Rufino da Silva era professor de Música nos dois Seminários diocesanos e no Conservatório de Música da Madeira. Lino Cabral leccionava Religião e Moral na Escola Industrial e Comercial do Funchal (hoje Escola Secundária Francisco Franco) e Sidónio Figueira dava aulas de Português, inicialmente na referida Escola e mais tarde no Liceu (hoje Escola Secundária Jaime Moniz). Já João da Cruz era também docente de Português, mas igualmente de Francês, tendo começado no Liceu e posteriormente na Escola Preparatória da Calheta – e tinham sido ainda professores do Seminário.
Inicialmente, João da Cruz esteve para ser colocado no Liceu como professor de Religião e Moral, o que não aconteceu por oposição do então reitor, André Cymbron, tendo-o nomeado o novo bispo do Funchal, D. João Saraiva, assistente diocesano da JECF (Juventude Escolar Católica Feminina) e responsável pelo Centro Académico do Funchal, um organismo então dividido em dois espaços (masculino e feminino), ambos localizados na Rua dos Ferreiros, no Funchal.

Escassos meses volvidos, o bispo questionou-o se preferia trabalhar com a LEC que abrangia o sector dos professores ou com os organismos operários da Acção Católica. E o dr. Cruz assume a opção pelos «mais pobres» e torna-se assistente diocesano dos quatro organismos operários: JOC e JOCF e LOC e LOCF. Uma escolha que decorre da convivência mantida em Lisboa com um outro padre madeirense, Jardim Gonçalves que, em Setembro de 1960, rumara à capital portuguesa para assumir o lugar de assistente nacional da JOCF, mais tarde da LOC e da LOCF e de assistente europeu do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos e que, posteriormente, seria nomeado pela Santa Sé o primeiro Assistente Geral do MMTC, com sede em Bruxelas, cargo que desempenhou durante largos anos. Na dedicatória do livro que reproduz a aludida tese de licenciatura, o dr. Cruz não deixa margem para dúvidas (passo a citar): «Ao padre Jardim, amigo de sempre, que me ajudou a descobrir valores existenciais e a ganhar amor à classe operária».

 

Renovação da Acção Católica madeirense

Edifício onde funcionou a sede da JOC (Juventude Operária Católica), na Rua do Bispo, no Funchal. Foto © Nicolau Fernandez

A Acção Católica, criada em 1933 pelo Papa Pio XI, chegaria a Portugal em Novembro desse ano, pela mão do então Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, instalando-se vagarosamente na Madeira a partir do final de 1936. Nos seus primórdios assumiu-se, sobretudo, como um espaço de reflexão litúrgico-religioso e de prática caritativa, assistencialista, patente designadamente na efectivação de campanhas de angariação de fundos visando possibilitar a retirada de seis famílias que viviam em furnas no Toco, no Funchal, ou na colaboração prestada na recolha de fundos para a criação da Universidade Católica Portuguesa, ou ainda na dimensão litúrgica-religiosa, a celebração, na primeira sexta-feira de cada mês, de uma missa, na Sé Catedral, destinada à juventude operária, a que se seguia um pequeno-almoço oferecido aos participantes, na sede da JOC, sita à Rua do Bispo, vinte sete.

É na sequência da participação de algumas dezenas de militantes, no primeiro Congresso Nacional da JOC/F, realizado em Lisboa em 1955, e dois anos depois no Congresso Internacional em Roma, que se dá a abertura a novos horizontes e a introdução de uma maior dinâmica por parte dos movimentos, masculinos e femininos, suscitando uma outra atenção para a realidade social em que viviam as famílias operárias, desprovidas em grande parte de condições de vida e de trabalho minimamente dignas, contrastando com a emergente afirmação da Doutrina Social da Igreja que o Concílio Vaticano II haveria de consagrar em plenitude.

É também por esta altura (1956) que, por iniciativa do então bispo da diocese do Funchal, António Manuel Pereira Ribeiro, se dá a expansão da Acção Católica no meio rural madeirense, tendo sido incumbido de constituir as direcções diocesanas da JAC e da JACF o padre Jardim Gonçalves.
Um ano antes (1959), de ser nomeado assistente nacional da JOCF, Jardim Gonçalves organizou no Funchal um Encontro de Estudos dos diferentes movimentos da Acção Católica existentes na Madeira, cujas conclusões apontavam para a existência de um vasto conjunto de problemas que afectavam seriamente a vida das populações rurais e urbanas: desde o injusto (feudal e desumano) regime de colonia; inexistência de luz eléctrica em inúmeras localidades; escassez de água potável, de vias rodoviárias, de transportes e de saneamento básico; graves carências habitacionais, de acesso à saúde, à educação e a uma alimentação saudável, aliadas a um elevado consumo de álcool, em particular de vinho.

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro

Concílio Vaticano II: foi com ele que se deu origem, em Portugal, ao Centro de Cultura Operária. Foto: Direitos reservados

No decorrer do Concílio Vaticano II (iniciado em 11 de Outubro de 1962), é criado em Portugal o CCO (Centro de Cultura Operária), designação adoptada à semelhança do «Centre de Culture Ouvrière» de França (hoje, Culture et Libertè) – tinha como missão “elevar a cultura geral dos trabalhadores e prepará-los doutrinária e tecnicamente para o desempenho consciente das múltiplas tarefas que se exigem aos operários conscientes da sua missão e das suas responsabilidades” e beneficiou de apoio internacional, no qual o padre Jardim Gonçalves, em resultado das funções exercidas no Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos, desempenhou um papel essencial.

À semelhança do ocorrido a nível nacional, a realização do Concílio com o seu aggiornamento despoletou a adopção por parte dos diferentes organismos da Acção Católica na Madeira de uma nova dinâmica, sem dúvida mais interventiva e mais atenta à sociedade envolvente, caracterizada pela existência de inúmeras carências e de profundas injustiças, em muitos casos bem mais graves do que as verificadas no território continental.

Num texto incluído no livro A Madeira na História – Escritos sobre a Pré-Autonomia, João da Cruz caracteriza deste modo esses tempos: “A taxa de analfabetismo era elevadíssima, a educação confinava-se muito ao ambiente familiar e à catequese, o atraso grassava nas várias camadas da população, incapaz de reagir ao clima de medo, intolerância e dependência que se respirava. Estava-se sempre à espera que os mais importantes, os detentores do poder se dignassem olhar para os mais pobres e desfavorecidos. A dependência económica, social e cultural, o sentimento de impotência, a marca da escravidão, constituíam como que um estigma inerente à natureza das pessoas.

“E toda esta situação era cinicamente gerida por um poder político que procurava e encontrava um apoio imprescindível por parte do poder religioso. Era um conluio e promiscuidade escandalosos!”.

A consciência plena destas realidades e o apontar de caminhos para a sua superação foram exemplarmente expressos pelos drs. João da Cruz Nunes e João Arnaldo Rufino da Silva nos depoimentos prestados ao semanário Comércio do Funchal no âmbito de um inquérito sobre a “Situação da vida cultural da Madeira” que o «jornal cor-de-rosa» publicou, ao longo de vários meses, em 1967.

 

Papel do padre João da Cruz no desenvolvimento da cultura operária

João da Cruz Nunes: “A pobreza e o subdesenvolvimento da maior parte da nossa gente põe de lado o acesso ao ensino, à instrução e à sua promoção cultural.” Foto: Direitos reservados

João da Cruz Nunes (edição de 27 de Agosto de 1967) assume frontalmente que “a pobreza e o subdesenvolvimento da maior parte da nossa gente põe de lado o acesso ao ensino, à instrução e, portanto, à sua promoção cultural. A estrutura da nossa sociedade não possibilita à maioria da nossa população um despertar para os valores individuais e colectivos. Essa realidade será já de séculos e, remontando aos primórdios da colonização da ilha, compreendemos melhor essa situação”. E, de seguida, afirma: “O povo habituou-se a um género de vida que não lhe permite a iniciativa responsável. O «laisser faire» de hoje já não é de hoje. O regime de colonia (que ainda vigora normalmente!) está na base de toda a economia e sociedade madeirenses”. João da Cruz acrescenta que “a resignação é um grande defeito dos madeirenses”, que “a nossa insularidade coarctou-nos as iniciativas” e que “tudo isto permitiu uma espécie de obscurantismo, um apoio doentio e malfadado na tradição”.

Noutro passo do referido depoimento, o então assistente diocesano dos organismos operários da Acção Católica considera que “se deveria estudar urgentemente o problema do alcoolismo que creio afectar, profundamente, a capacidade intelectual de muitos madeirenses. A subnutrição de muitos, compensada com o uso do álcool, ou mesmo o próprio vício da bebida, reflecte-se grandemente no rendimento intelectual dos filhos”.

Daí a ênfase que coloca na importância da Cultura que no seu entender “visa a libertação do homem dos obstáculos que impedem a sua realização” e, sublinhando que, “se a «Cultura é o primeiro nome do Desenvolvimento», o conhecimento está acima de tudo – assim toma a prioridade o ensino”, advogando a necessidade da sua “democratização” porque “tem de haver todas as facilidades de acesso ao ensino em todos os graus, à cultura, portanto”, questionando: “como pode a maioria duma sociedade contentar-se com um simples aprender a ler e contar?”. E, ao referir-se à circunstância de “já não são poucas as nações onde a escolaridade obrigatória se prolonga até aos 18 anos”, o dr. Cruz dava nota de uma ambição que a Região, o País, só viriam a concretizar muitas décadas depois!

Nesse mesmo depoimento, João da Cruz alude aos objectivos culturais do trabalho dos organismos operários da Acção Católica, particularmente da JOC, realçando que graças à boa-vontade e generosidade de alguns jovens “têm-se organizado, ora a nível diocesano, ora a nível de secção, cursos para adultos (4ª classe), um curso de língua inglesa e de 1º ciclo liceal, cursos de formação humana, de regras de educação, de leitura e colónias de férias” e termina realçando o papel do já constituído em Lisboa, Centro de Cultura Operária. Um Centro que, adianta, procura transmitir aos trabalhadores “uma cultura de sentido universal que permita compreender os outros grupos sociais, as outras raças, as outras nações e sobretudo uma cultura comprometida que permita que cada um seja responsável e favoreça a participação dos trabalhadores na vida da sociedade”.

Edifício onde funcionou o Centro de Cultura Operária da Madeira, situado próximo da casa dos padres do Pombal. Foto © Nicolau Fernandez

Nesse mesmo ano de 1967, o dr. Cruz participa no Congresso Nacional da LOC francesa, partilhando em Paris o quarto habitado por Jardim Gonçalves, então já uma figura destacada da Igreja portuguesa e não só, pelas funções que desempenhava no plano nacional e internacional.

É ainda em 1967 que uma das principais vertentes da acção do Centro de Cultura Operária na Madeira dá os primeiros passos, através do ministrar de aulas, em regime pós-laboral, do primeiro ciclo do ensino liceal, inicialmente nas instalações do Centro Académico masculino do Funchal. Esta aposta na promoção educacional e cultural foi determinante para possibilitar a ascensão social de inúmeros jovens (rapazes e raparigas) que, de outro modo, nomeadamente por dificuldades económicas, mas também por começarem cedo a trabalhar, não teriam ido além da quarta classe. É que essas aulas, para além de serem ministradas à noite, eram gratuitas.

No ano seguinte, esta actividade passou a ter lugar na sede do já existente Centro de Cultura Operária da Madeira, situada também na Rua do Pombal, no número 13, num espaço cujo aluguer fora tratado por António Alberto Monteiro de Aguiar, militante dos organismos operários da Acção Católica e que seria o primeiro presidente do Centro de Cultura Operária.

Numa segunda fase, tiveram lugar no Centro de Cultura Operária, não só cursos de quarta classe para adultos, mas também aulas de alfabetização com base nos métodos do pedagogo brasileiro Paulo Freire, dinamizadas, sobretudo, pelo casal Liberato Fernandes e Clarisse Canha que, após o 25 de Abril de 1974, seriam fundadores da União do Povo da Madeira (UPM).

Quer as aulas da quarta classe quer as do primeiro ciclo liceal funcionavam em turmas mistas, ao contrário do que era a prática corrente no ensino durante a vigência do «Estado Novo». Aulas ministradas, não só por militantes e dirigentes dos organismos operários da Acção Católica, mas também por sacerdotes do grupo «Padres do Pombal» ou a eles ligados e ainda por outros cidadãos que colaboravam nas actividades do Centro de Cultura Operária. Desse grupo constaram nomes como o jornalista José Manuel Barroso, a advogada Maria Emília Sales Caldeira, o casal Arnaldo e Eugénia Capelo (ele empregado bancário, ela professora), as também professoras Zita Nunes e Elisa Brazão, a enfermeira Fernanda Pereira, as funcionárias da Câmara Municipal do Funchal, Conceição Pereira e Trindade Candelária, o ex-seminarista Casimiro Fernandes e os padres João da Cruz, António Ramos da Silva e Sidónio Figueira.

O casal Fátima Pestana e José João Vieira que fizeram parte do grupo inicial de 20 a 30 alunos que receberam preparação para se submeterem, como alunos externos e maiores, ao exame do primeiro ciclo liceal (actuais quinto e sexto anos) recordaram-nos que é ao Centro de Cultura Operária que devem a evolução profissional e social que conseguiram – Fátima que começara, muito jovem, a trabalhar no comércio de vestuário foi, mais tarde, funcionária da secretaria da Escola Jaime Moniz, enquanto o José João seria empregado bancário, tendo iniciado a vida laboral como empregado numa farmácia.

O mesmo sucederia com inúmeras outras pessoas que viriam, inclusive, a obter formação superior, como foram os casos, por exemplo, da enfermeira Conceição Remesso, que chegaria a ser chefe do serviço de obstetrícia do Hospital Nélio Mendonça, no Funchal, de Gorete Gonçalves que se formou em ciências da educação ou de Maria da Luz Fernandes em educadora de infância.

José Afonso, Música

Monumento a José Afonso, em Grândola: os discos de Zeca, Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire eram matéria de reflexão nos grupos católicos operários Foto © Wikimedia Commons 

Despertar consciências, consciencializar os militantes para a realidade envolvente, procurando empenhá-los na procura da transformação da sociedade em que estavam inseridos foi a outra grande vertente da actividade desenvolvida pelo Centro de Cultura Operária na Madeira.

É nessa linha que se inscrevem as múltiplas sessões de esclarecimento e de debate promovidas ao longo da sua existência. Em que não existiam temas tabu. Tudo era, poderia ser, objecto de debate, de discussão, de confronto de ideias. Fossem questões mais directamente ligadas à vida da Igreja, como as encíclicas papais ou a Teologia da Libertação, em voga na América Latina, ou à vida política portuguesa, ao regime ditatorial e à guerra colonial, ou tão somente a questões de âmbito económico, social ou cultural.

Um outro instrumento a que os movimentos operários da Acção Católica e naturalmente também o Centro de Cultura Operária recorriam, consistia na divulgação da canção de protesto e de intervenção e que, não raras vezes, servia de mote à reflexão política e social.

No texto da sua autoria que integra o livro já citado, A Madeira na História…, editado em Abril de 2008, o dr. João da Cruz escreve: “(…) audições em comum de discos de música de contestação faziam parte normal do nosso trabalho. Um dos primeiros discos utilizados foi o de Luís Cília, trazido directamente de Paris, no ano de 69. Ao lado deste e matéria de referência fundamental e de reflexão eram os discos do Zeca Afonso, do Adriano e do Manuel Freire. Tudo podia contribuir para a consciencialização social e política dos militantes”.

Em 1970, os organismos operários da Acção Católica editam, numa impressão a offset, um pequeno livro a que atribuem o nome de «Cancioneiro», uma colectânea contendo os versos de quarenta e seis canções populares e de intervenção e vinte e uma de cariz religioso que eram entoadas em assembleias, reuniões de estudo e nas celebrações litúrgicas organizadas pelos referidos movimentos e, algumas delas, também pela JARC (Juventude Agrária Rural Católica).

Trinta e três anos mais tarde, em Abril de 2003, Luís Sidónio de Castro, o último presidente da JOC na Madeira antes da sua dissolução em 1975, procedeu à reedição e num breve prefácio a que deu o título «Para que não se esqueça», sublinhou a importância da “reflexão e crescimento cívico, humano e, também, formação política e social, em que muitos destes versos eram cantados com incontível alegria e entusiasmo, lutando por um mundo melhor e mais justo”. A concluir esse curto texto, Sidónio de Castro escreveu: “Não esquecer esse tempo é também recordar as muitas amizades que se forjaram, os amigos que, por opção, ou por imposição, saíram da sua terra. De entre eles, merece que se destaque o nome do ex-padre Dr. João da Cruz Nunes que, enquanto assistente daqueles organismos da Acção Católica e, posteriormente, no arranque do Centro de Cultura Operária foi um conselheiro, um orientador, mas, e sobretudo, um AMIGO. Era uma homenagem que faltava”.

Óscar Romero

Mural de Tributo a Óscar Romero [Jamie Morgan (2001)], o bispo assassinado em El Salvador, que era uma das personalidades de referência no contexto internacional. Foto © Eric E. Castro / Wikimedia Commons

Numa outra passagem do seu depoimento, o dr. Cruz refere-se à importância que era dedicada à solidariedade internacional, nestes termos: “Nesta perspectiva de solidariedade internacional, todos os movimentos e acções que visavam a libertação dos povos e oprimidos, independentemente de credos, raças ou nações, constituíam objecto das nossas reflexões. Os movimentos revolucionários da América latina, sobretudo, e os sectores da Igreja conotados com a Teologia da Libertação eram tema de acompanhamento assíduo, e por vezes, eram exemplos apelativos à acção.

“No Brasil, onde vigorava então a ditadura militar, os bispos D. Hélder da Câmara e D. Óscar Fragoso eram das personalidades cujas intervenções mereciam especial atenção. E nos outros países latino-americanos, os exemplos também eram abundantes. Eram os casos de D. Óscar Romero de San Salvador, Ivan Illich do mosteiro de Cuernavaca, no México e de Camilo Torres na Colômbia. Como era natural naquela época, mereciam toda a atenção as experiências sócio-políticas do Chile, Cuba, Nicarágua, Argentina e Uruguai (e neste caso em especial o movimento dos Tupamaros).
“A nível europeu, os elementos de reflexão eram veiculados através da revista Concilium onde predominavam as figuras dos teólogos Yves Congar, Schillebeeckx e Hans Kung. Merecia ainda um acompanhamento especial a experiência dos padres operários em França.

“Propriamente e no que diz respeito à formação e cultura operárias, havia os contactos directos com a JOC Internacional e o MMTC, ambos sediados em Bruxelas e ligados às estruturas nacionais dos mais diversos países do mundo”.

Nesse ano de 1967, o dr. Cruz, em conjunto com os seus colegas e amigos, Rufino da Silva e Paquete de Oliveira, é responsável pela criação de um programa denominado O Homem e a Vida, cuja transmissão na Estação Rádio da Madeira era da responsabilidade do jornalista Armindo Abreu. Um programa, de periodicidade semanal, e que tinha como objectivo versar “temas da actualidade enquadrados numa linha de pensamento e orientação conciliares” e, cujos textos, não assinados, o Jornal da Madeira reproduziu à posteriori. Em cada número havia um tema central, tendo sido analisados assuntos diversos, como, por exemplo, a emigração, os meios de comunicação social, o diálogo ecuménico, a morte, a dor e a doença, o desenvolvimento, a cultura, o trabalho ou a deslocação a Fátima do Papa Paulo VI ocorrida em 1967.

 

António Henrique Sampaio foi militante da Juventude Operária Católica e redactor d’O Comércio do Funchal. As outras duas partes deste artigo serão publicadas domingo, 7, e segunda-feira, 8 de Dezembro.

 

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