João e Francisco Pereira de Moura, um fraternal compromisso social cristão

| 15 Mai 20

No aniversário da publicação da encíclica Rerum Novarum,
do Papa Leão XIII (15 de Maio de 1891), sobre a condição dos operários

Francisco Pereira de Moura. Foto: direitos reservados

 

Foi publicado recentemente o livro Testemunho de um Economista Social comprometido na humanização do mundo, editado pelo ITDC (Investment, Training and Human Development Consulting), com prefácio de D. Manuel Martins, no que seria um dos seus últimos textos.

Em boa hora aconteceu esta publicação porque João Pereira de Moura, já nonagenário, é uma figura invulgar da administração pública, da vida política e do cristianismo social, em Portugal, na segunda metade do século XX. Lançou e dirigiu, desde o início dos anos 1960, o Fundo de Desenvolvimento da Mão-de-Obra (FDMO) e o conjunto de serviços que o integraram, constituindo hoje o Instituto do Emprego e Formação Profissional; dirigiu também o organismo de planeamento e de estudos diversos, no ministério responsável pelo trabalho e segurança social.

Alguns destes estudos, realizados antes de 1974, estiveram na origem do subsídio de emprego, do salário mínimo nacional e de outras medidas. Despachou com elevado número de ministros, antes e depois de Abril de 1974, mantendo sempre a mesma linha de rumo vinculada a princípios humanistas, oriundos especialmente do pensamento social cristão, da Organização das Nações Unidas, da Organização Internacional do Trabalho, do Conselho da Europa e da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos. Deixou bem patente, com o seu testemunho, que a administração pública tem uma vinculação constitutiva ao bem comum. Por este e outros motivos fez questão de não aderir a nenhum partido político, respeitá-los todos, e nunca renunciar à política do bem comum, na procura das melhores soluções possíveis em cada momento.Testemunho Economista Social JPM

A sua inspiração por excelência foi o pensamento social cristão que o levou a promover a criação, no âmbito eclesial, de um grupo de profissionais do “seu” FDMO, designado Mater et Magistra, em referência à encíclica de João XXIII com o mesmo nome. Além disso participou em iniciativas diversas de intelectuais católicos e cooperou estreitamente com o patriarca D. António Ribeiro em várias iniciativas.

 

Conjugar o bem do país e a bem-aventurança eterna

O prof. Francisco Pereira de Moura (FPM), irmão de João, notabilizou-se especialmente como professor catedrático de economia no agora designado Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Aí viveu as crises académicas sabendo conciliar o rigor científico, o humanismo social dos diferentes saberes e o imperativo da democracia.

Este último levou-o a militar politicamente no Movimento Democrático Português, correndo riscos vários antes do 25 de Abril de 1974 e assumindo responsabilidades públicas a partir dessa data. Deu nas vistas o seu relacionamento de proximidade com o dr. Álvaro Cunhal, embora não se conheça nenhuma opção de Francisco P. de Moura pelo marxismo-leninismo. Seria muito relevante, para a história política do nosso país, a investigação sobre esse relacionamento e sobre as motivações mais profundas de FPM. Sabe-se que ele influenciou o pensamento económico de Álvaro Cunhal; e sabe-se também Por onde vai a Economiaque este líder político teve desabafos, historicamente relevantes, com quadros dirigentes dos organismos dirigidos pelo seu irmão João.

João e Francisco Pereira de Moura seguiram caminhos complementares e convergentes em dois objetivos finais: o bem comum do país; e a conjugação deste bem com a bem-aventurança eterna.

No que se refere ao bem comum do país, comprometeram-se efetivamente na vida política, tanto na vertente de serviço como na de poder: na vertente de serviço, JPM atuou especialmente na administração pública e, antes disso, no sector privado, enquanto Francisco se dedicou ao ensino universitário; na vertente de poder, JPM atuou em especial na melhoria possível dentro do regime, embora sem lhe aderir, consciente dos seus constrangimentos; FPM também atuou nessa melhoria, mas entendeu indispensável romper publicamente com o regime, inserindo-se nas correntes oposicionistas. Um e outro viveram fraternalmente o compromisso social cristão.

 

Acácio Catarino é consultor social

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