João Gomes (1934-2020): jornalista, católico e socialista

| 26 Mar 20

João Gomes. Foto © Fórum Abel Varzim

 

Foi quando, com um pequeno grupo, criou e dirigiu a revista Actos – Cristãos na Sociedade Nova, entre 1977 e 1979, que João Gomes aliou as suas condições de católico empenhado, jornalista e militante socialista. A revista procurava aliar um catolicismo aberto e comprometido com os novos ventos da democracia em Portugal, um jornalismo moderno e uma orientação político-social claramente à esquerda. João Gomes morreu quarta-feira em Lisboa, com 85 anos, e o seu funeral realizou-se nesta quinta-feira, 26 de Março.

Nesse tempo, seria mais difícil do que hoje haver católicos militantes no Partido Socialista ou, menos ainda, nos partidos políticos à esquerda deste. Mas a adesão de João Gomes a esses ideais políticos foi, para ele, uma consequência do seu trajecto na Juventude Operária Católica onde, depois de ser militante da organização desde cedo, desempenhou o cargo de presidente nacional entre 1958-59.

Foi, aliás, a direcção da JOC Internacional que ajudou o seu companheiro português. Desse modo, João Gomes pôde frequentar os estudos de jornalismo (então inexistentes em Portugal) na Escola Superior de Jornalismo de Lille (França), tornando-se o primeiro jornalista português com uma licenciatura na área, em 1966, como recorda José Pedro Castanheira no obituário que sobre ele escreveu no Expresso.

Antes disso, ainda ligado a círculos católicos da oposição ao regime, João Gomes envolveu-se na chamada Revolta da Sé, que tentou derrubar militarmente o regime de Salazar. À conta disso, esteve preso no Aljube e em Caxias, acabando absolvido por um Tribunal Militar. Voltaria a ser preso pela PIDE, a polícia política do regime, em 1967, enquanto dirigente da Pragma – Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária, outra iniciativa com a participação de católicos opositores ao regime.

Integrou também a Liga Operária Católica (LOC), que presidiu entre 1972 e 1974, e esteve na criação do movimento Base-Frente Unitária de Trabalhadores, do qual saíram vários membros da corrente católica da CGTP-Intersindical. Em 1996, esteve também na fundação do Fórum Abel Varzim – Desenvolvimento e Solidariedade, cujo nome evoca o do padre que se opôs também a Salazar e foi exilado na sua terra natal (Cristelo, perto de Barcelos).

João Gomes numa entrevista ao jornal Transformar, do Fórum Abel Varzim. Foto © Fórum Abel Varzim

 

Ainda antes da instauração da democracia, João Gomes foi um dos fundadores do PS e, depois, deputado à Assembleia Constituinte e Assembleia da República, director do Diário de Notícias e Portugal Hoje, além de ter desempenhado cargos de chefia nos jornais República e A Luta. No jornalismo, envolveu-se também em vários cargos associativos, incluindo o sindicato, o conselho técnico (hoje, Deontológico) e o Conselho de Imprensa.

Nascido em 30 de Junho de 1934, em Lisboa, João Joaquim Gomes era casado e teve dois filhos. Vários antigos companheiros da JOC preparam uma pequena homenagem depois de terminado o estado de emergência e de confinamento social.

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