Morreu quinta-feira, 2 de Julho, no Hospital de Aveiro, o padre João Gonçalves Gaspar, anunciou a Diocese numa nota oficial. Tinha 95 anos. O seu funeral será neste sábado, 4, na sé de Aveiro, após o que seguirá para o Cemitério Central da cidade.
Secretário de vários bispos de Aveiro, membro da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia de Aveiro, assessor cultural da Câmara Municipal e membro do Conselho da Universidade de Aveiro, João Gonçalves Gaspar recebeu em 1988 o título de monsenhor.
Membro da Academia Portuguesa da História, publicou inúmeros livros, nomeadamente sobre património, pessoas, tradições e cultura da região de Aveiro. Entre eles, está a biografia que escreveu a vida de Santa Joana Princesa (1452-1290), como é conhecida a filha do rei Afonso V e da infanta Isabel de Coimbra, embora ainda só e4steja beatificada e não canonizada: a terceira edição de A Princesa Santa Joana e a sua época (1452-1490) foi publicada em 2012.
O antigo presidente da Câmara de Aveiro, Alberto Souto de Miranda, tinha preparado em 24 de Maio um texto sobre João Gaspar, para um livro cuja publicação está prevista para Dezembro, por altura do aniversário natalício do padre e historiador. É esse texto que a seguir se reproduz, com autorização expressa do autor, a quem o 7MARGENS agradece.

Estátua de Santa Joana Princesa, padroeira da cidade e da diocese: foi também com a intervenção de João Gaspar que a diocese “aprovou” a obra de arte. Foto © António Jorge Pires Ferreira, cedida pelo autor.
Monsenhor João Gonçalves Gaspar é o nosso cronista-mor. Não do reino dos céus – por cujas crónicas evangélicas foi seduzido e professou –, mas do reino dos homens, sobretudo dos daqui do burgo, com sotainas da Igreja ou com gabões seculares, sejam nobres brasonados ou gente do povo marnoto, sejam eméritos pelas virtudes e devoção católica ou notáveis agnósticos e ateus, todos merecedores do reconhecimento do seu olhar objectivo.
Monsenhor João Gaspar é um historiador comprometido com a sua fé, mas não transigiu com a metodologia da investigação histórica, que não concede viés doutrinários, apagamentos oficiais dos vencidos pelos vencedores, versões romantizadas, narrativas verosímeis sem factos.
Ganhou, por isso, o respeito de todos, crentes e não crentes, que, ao longo da sua longa e interpelante vida, foram aprendendo através dos seus escritos e admirando o seu exemplo, de formiguinha dos arquivos paroquiais e civis, de consultor e analista dos documentos originais, da exegese persistente, da actualização dos nossos historiógrafos, que conheceu e com quem ombreia.
Com a sua pesquisa incessante e a sua obra bibliográfica prolífica, contribuiu, como poucos, para forjar a nossa identidade.
É um homem leal, afável, cumpridor. Não foi por acaso que D. João Evangelista de Lima Vidal, costados de Eixo, sua terra natal, D. Domingos da Apresentação Fernandes, D. Manuel de Almeida Trindade, D. António Marcelino, D. António Francisco dos Santos e D. António Moiteiro confiaram nele, como eminência companheira, não parda mas discreta, de voz assisada e sensata, mesmo nos momentos mais difíceis para a história da Diocese.
Conheço-o desde que me conheço. D. Domingos era padrinho da minha irmã, D. Manuel era padrinho do meu irmão. Monsenhor João Gaspar esteve sempre presente nas últimas décadas, na Paróquia, na Diocese – cuja História magistral ele escreveu –, mas, também, na “civitas”.
A sua influência no Conselho Cultural do Município de que fez parte, com Girão Pereira, foi determinante. A sua voz foi sempre respeitada e, pedindo quase desculpa por se pronunciar, impunha-se pela autoridade do seu saber e pela razoabilidade das suas posições.
Tive sempre o privilégio da sua deferência pessoal. Recordo a época em que tomei a iniciativa de substituir a estátua da sua muito devota Joana Princesa, em frente ao Museu. Naturalmente, fiz questão de ouvir o senhor bispo D. António Marcelino, antes de aprovar a maquete. A escultura era arrojada para a época, não muito figurativa, podia ser polémica…

D. António, para partir pedra, enviou primeiro monsenhor João Gaspar, para ver se a “coisa” passava no crivo estético da Diocese. A sua reação foi prudente, como sempre. Percebia a modernidade do trabalho de Hélder Bandarra, mas pressentia, também, as resistências dos “diáconos” Remédios, leigos do Restelo, para quem só um rigoroso antropomorfismo era adequado à salvação das almas.
Eu, entusiasmado, dissertando sobre a força imagética do manto enfunado da Princesa, sob o vento da nortada de Aveiro, qual ascensão em linha com a santidade em que o povo a tinha. E ele seráfico, impenetrável. Sem se comprometer. Sabia que era núncio apostólico do seu bispo. Sabia sê-lo. Mas levou bom recado: a segunda reunião – já depois de D. António Marcelino ter dado o seu aval culto e esclarecido – foi para negociarmos a partilha do custo: a Diocese ofereceu o pedestal. Bom negociador também…
Em boa hora surge este livro. Monsenhor João Gonçalves Gaspar merece-o bem. Parafraseando um título de um dos seus livros, “caminhou sempre com Esperança”. Trilhou esse caminho sempre com elevação pessoal, trato recto, humildade empática, respeito pela tolerância pelos nossos pecadilhos e diferenças. É um “santo homem”, como se diz. Um monsenhor do Papa João Paulo II, de que a Igreja se orgulha. E a quem a comunidade aveirense muito deve.
É sabido, que Pedro, à direita do Pai, tem para ele reservado há muito o lugar de escriba, nos céus que já ganhou. Só que o homem é rijo. Deve ser por ter alma grande. É bom que haja “net” lá em cima: quando lá chegar – daqui a longos tempos – Monsenhor Gaspar irá usar o Chat GPT para continuar as suas pesquisas sobre a alma profunda do seu povo.
Que não lhe falte a pena e a mestria. Muito grato.
Alberto Souto de Miranda é licenciado em Direito e, entre outras funções, foi presidente da Câmara de Aveiro pelo Partido Socialista, entre 1998 e 2005.










