João Gutemberg, coordenador da Rede Pan-Amazónica: “Uma atitude crítica em relação aos sistemas predatórios da Casa Comum”

| 15 Mar 2021

A província Compostela (que inclui Portugal) dos Irmãos Maristas realiza na próxima terça-feira, 16 de março, às 17h00 (hora portuguesa), o webinar “Rumo a uma Ecologia Integral, no qual se pode participar através desta ligação. Nessa sessão, intervêm o superior geral dos maristas, irmão Ernesto Sánchez, o teólogo brasileiro Leonardo Boff e José Eizaguirre, fundador da Biotropía. 

Com essa referência, o 7MARGENS publica uma entrevista da ONGD marista espanhola SED (Solidaridad, Educación y Desarrollo) ao irmão João Gutemberg, diretor executivo da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazónica), fundada em 2014 por organizações católicas ao serviço da vida na Amazónia, em defesa da Casa Comum.

João Gutemberg, coordenador da Repam. Foto: Direitos Reservados

 

O irmão João Gutemberg nasceu em 1962 no estado do Acre, interior da Amazónia, onde o Brasil se encontra com o Peru e a Bolívia. Ali estudou e recebeu acompanhamento vocacional e formativo dos missionários maristas que chegaram à região em 1968, bem como de outras congregações ali presentes. Continuou os seus estudos no sul do Brasil e em Itália (mestrado e doutoramento em Teologia da Vida Consagrada) e em França (Curso de Formadores Maristas).

Na missão apostólica, para além de dois anos no sul do Brasil, atuou praticamente sempre no contexto amazónico a nível de educação, pastoral, formação e como superior do Distrito Marista da Amazónia. Atualmente, coordena as várias atividades da Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), que liga os nove países amazónicos, e inclusive as do seu Eixo de “Formação e métodos de acompanhamento pastoral na perspetiva itinerante e da ecologia integral”.

Depois da sua nomeação como diretor executivo da Repam, no último trimestre do ano passado, João Gutemberg concedeu uma entrevista à ONGD marista espanhola SED em que fala precisamente do conceito de ecologia integral, bem como da própria economia, encarnados no contexto amazónico, também à luz da sua participação no Sínodo sobre a Amazónia.

Um ano depois da publicação da exortação do Papa Francisco, Querida Amazónia, dedicada às questões sociais, culturais e missionárias daquela região do mundo, o 7MARGENS publica a seguir essa entrevista. Centrada no Sínodo sobre a Amazónia, a entrevista foi realizada antes da vaga avassaladora da pandemia que atingiu Manaus e outras regiões amazónicas.

 

P. – Qual é a situação atual na Amazónia?

JOÃO GUTEMBERG (JG) – Não vou entrar em muitas análises que são de domínio público para me deter apenas nalguns aspetos. As principais ameaças são os modelos importados, tanto de evangelização como de desenvolvimento. É claro que a humanidade vive uma situação de mobilidade e que os modelos eclesial, cultural e social estão interligados. Mas a Amazónia sofre constantes processos de colonização que pouco valorizam as especificidades da sua territorialidade e cultura.

O Sínodo [dos Bispos sobre a Amazónia] apela a novos caminhos tanto para a Igreja como para a ecologia integral, com uma perspetiva amazónica e um rosto indígena. Isso não quer dizer que a Amazónia tenha algum tipo de supremacia sobre outros territórios. O facto é que a humanidade, devido às condições de vida baseadas no consumismo, está praticamente a esgotar os recursos naturais, e a Pan-Amazónia é quase o último reduto da biodiversidade que ainda pode salvar a complexidade dos ecossistemas necessários à boa qualidade de vida humana.

 

P. – Porque fala em vida humana?

JG – Digo vida humana porque se os humanos desaparecessem, outros seres poderiam ver as suas condições existenciais melhoradas. Este é o nosso paradoxo! Somos os seres mais dependentes do meio ambiente e os que mais destroem o nosso próprio habitat natural. Florestas, vegetação, águas e ar puro são anteriores ao homem e podem continuar a existir sem ele; mas o ser humano não pode sobreviver sem estes recursos naturais.

“Não podemos sobreviver sem florestas, vegetação, águas e ar puro.” Foto: Direitos reservados. 

 

P. – Quais são os principais desafios e as principais ameaças ao contexto ambiental, social e cultural da Amazónia?

JG – No conjunto desta abordagem partimos de um aspeto sociocultural eloquente que é a existência e o modus vivendi dos povos indígenas – sem esquecer os ribeirinhos, os seringueiros e outras populações de presença mais recente na floresta. Existência e resistência, já que os povos nativos foram vítimas de sucessivos genocídios. Mas a pedra-de-toque está no facto de que são exatamente estes povos de culturas multimilenares que vivem a Ecologia Integral e até a Espiritualidade Ecológica.

Como aprender com as ricas experiências integradoras destes povos e, ao mesmo tempo, respeitar as suas culturas? O que é que também podemos oferecer-lhes nós, da nossa cultura urbana ocidental, e como fazer isso? Estima-se que os indígenas estão na Amazónia há 12 mil anos e sempre mantiveram o meio ambiente saudável. As nossas culturas urbanas estão na Amazónia há cerca de 500 anos e já causámos muita poluição e destruição. O que é que isto nos diz?…

 

P. – Como crê que será o futuro de um ambiente natural tão fundamental para a sobrevivência do planeta, bem como da sua gente?

JG – Gosto que a pergunta utilize o verbo “crer”. É disto que mais precisamos neste momento: de uma crença que nos dê esperança de que a situação de destruição é reversível. Caminhamos num tempo de muitas nuvens negras no que diz respeito às causas sócio-ambientais. Mas por entre nuvens tão densas, há também luzes que brilham como a realização do sínodo sobre a Amazónia convocado pelo Papa e realizado em Roma sob os holofotes de todo o planeta.

Nas reportagens sobre o Sínodo encontrei frases como a seguinte: “A Amazónia veio a Roma com ideias claras”; “A periferia veio para o centro e oxalá possa ficar por cá”; “Os temas amazónicos encontram ecos noutros continentes.” A partir desta bela dialética acendem-se luzes de esperança. Cheguei a dizer que, com o Sínodo, tivemos uma bela e esperançosa experiência “romazónica” ou “romamazónica”.

Lá eu vi que foram ouvidos (pelos expoentes da Igreja) tanto o Papa como os padres sinodais, cientistas, educadores e líderes sociais, formadores de opinião, líderes de várias religiões e as muitas mulheres e os muitos indígenas que de forma oficial e original integraram aquela extraordinária experiência sinodal. Todos motivados a cuidar tanto da Amazónia próxima ou profunda, aquela que faz parte do nosso dia-a-dia, quanto da Amazónia que indica caminhos de vida no contexto planetário.

O Papa na missa de encerramento do Sínodo sobre a Amazónia: “Espiritualidade, conhecimento e compromisso” são as linhas de ação mais importantes para a Igreja. Foto © Shutterstock/Ponto SJ.

 

P. – Que linhas de ação considera mais importantes, também à luz do Sínodo, para a Igreja realizar na Amazónia de modo a evoluir rumo a uma ecologia integral?

JG – Espiritualidade, conhecimento e compromisso. Parto do princípio da espiritualidade, que é um dom primordial da Igreja. Nos muitos encontros interativos de construção da consciência amazónica que realizámos, percebemos que, quando conseguimos experimentar a espiritualidade ecológica conectada com a vida, as pessoas têm experiências existenciais profundas e também estão motivadas para uma mudança de perspetiva, tanto na visão de si mesmos e do mundo, quanto no compromisso de cuidar e defender a vida.

Como consequência, ou de forma simultânea, intensifica-se a busca pelo conhecimento do que é a Criação de Deus no contexto amazónico: geografia, biodiversidade, culturas, etnias, cosmovisões, projetos políticos, economia, sobrevivência, etc….; ou seja, um enorme saber que é preciso conhecer, aprofundar e divulgar. Esta perspetiva desafia a Igreja a integrar nas suas celebrações e nos seus métodos formativos o que o Papa Francisco chama “Evangelho da Criação” no capítulo II da encíclica Laudato Si’.

 

P. – E o compromisso?…

JG – O compromisso seria atuar tanto ao nível eclesial como ao nível social. Não é fácil definir o limite entre o eclesial e o social quando falamos de ecologia integral. O chamamento é para todos! Neste compromisso, o Sínodo, que nasceu da Laudato Si’, faz-nos procurar um novo vocabulário que facilite o diálogo, dentro e fora da Igreja, em sintonia com as políticas públicas e as organizações sociais e pastorais. Isto exige uma atitude crítica em relação aos sistemas predatórios da Casa Comum. São todas consequências das conversões propostas pelo Sínodo: conversão pastoral, ecológica, cultural e sinodal.

Estes desafios não são apenas “na” e “para a” Amazónia, mas transcendem a territorialidade amazónica para entrar no horizonte de todos e todas na nossa Casa Comum. Para conseguir chegar a uma conversão ecológica e a uma mudança de paradigma é vital investir numa nova educação e em novos modelos pastorais. 

O irmão João Gutemberg com um indígena na Amazónia. Foto: Direitos Reservados

 

P. – Ainda sobre o Sínodo para a Amazónia, em que participou estando em Roma, qual considera ter sido a sua experiência pessoal mais importante durante os dias em que o mesmo se realizou?

JG – A minha experiência pessoal mais significativa no Sínodo está relacionada com a minha vocação específica de irmão religioso. Fui convidado a participar no Sínodo nessa qualidade. Éramos três: dois missionários espanhóis de congregações que trabalham no Equador e eu, marista, natural da Amazónia brasileira.

A fraternidade esteve muito presente em todo o processo sinodal. Na verdade, fraternidade e sinodalidade são conceitos próximos. A noção franciscana e paulina da Terra como Mãe e como Irmã, onde tudo está interligado, foi muito retomada. É muito bom que a vida fraterna seja resgatada como sinal profético no mundo. Por isso tenho procurado aprofundar mais, na minha própria vida e na minha missão, o tema da fraternidade universal, da fraternidade entre todos os seres da Criação.

Fiquei surpreendido com o clima de fraternidade vivido entre os participantes do Sínodo, tanto dentro como fora da sala sinodal – porque o Sínodo foi vivido em muitos lugares de Roma e de todos os continentes – e a preocupação com o cuidado de todos na Casa Comum: humanos e todos os seres da Criação. Uma experiência fraterna, portanto, que afeta os conceitos e o cuidado de tudo e de todos.

 

P. – Que mensagem é mais importante para si transmitir, como habitante e conhecedor da Amazónia?

JG – Que a Amazónia, com sua rica sociobiodiversidade, é um grande bem para todos no Planeta Terra, tanto para as gerações atuais quanto para as futuras, que merecem conhecer e desfrutar dessa imensa beleza humana e natural. E que para garantir esse direito é necessário que toda a humanidade partilhe o dever da cuidar e defender. Este compromisso será mais efetivo se aprofundarmos o nosso conhecimento e a contemplação das diversas realidades amazónicas no contexto local e planetário.

 

O 7MARGENS agradece ao Departamento de Comunicação da SED a autorização para a publicação da entrevista, cujo original pode ser lido na página daquela organização; tradução de Andrea Rigato.

 

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